Queima de arquivo: uma linha letal.

Ela gemia de bruços. O amante enfiava com força. Agarrava-a pelos cabelos e puxava-os como se domasse uma égua selvagem. Pela janela, adentrava vento e raios de sol para que dois corpos suados brilhassem. A cama remexida era adornada de lençóis brancos como a neve.
De repente, uma ligação.
- Às ordens, senhor. – disse o atirador, logo que conferiu o número e atendeu.
- É ela?
- Positivo.
- Tem certeza?
- Absoluta. É mesmo a sua mulher, presidente.
- Então atire.
E a comunicação foi encerrada.
De arma na mão, mirou exatamente na nuca da primeira dama. Respirou fundo. Apertou o gatilho e estourou a cabeça dela. O sangue escorreu e sujou a cama e o amante. Ainda perplexo e nu, o sobrevivente correu até a recepção.
- Amigo; preciso de ajuda. – disse ele, tremendo.
O homem apoiado no balcão sorriu. Sacou a pistola e disparou no meio da cara do amante apavorado, que despencou estatelado no saguão. Em poucos minutos, o cadáver sumiu, evaporou.
Em seguida, outra ligação – dessa vez para o suposto recepcionista. Ele conferiu a chamada e atendeu.
- Senhor, o serviço está feito.
Em silêncio, o presidente desligou o telefone, baforou o charuto e ligou para seu motorista:
- George, estou esperando.
- Como quiser, senhor.
A limusine chegou.
- Para onde vamos, presidente?
- Para casa, George, para casa.
Logo que adentrou em sua sala enorme, o político tomou um bom banho, serviu-se de uísque e ligou para a garota de programa com quem manteve um caso durante os últimos três anos.
- Oi. – disse ela.
- Ela morreu. Agora, preciso das fotos.
- Nem pensar. Só as entregarei depois do nosso casamento.
- Mas que droga; estou viúvo, o caminho está livre...
- Eu já disse, só depois da cerimônia. – e desligou.
O presidente ficou nervoso. Andou de um lado para o outro. Irritado como nunca, fez outra ligação.
- Vá atrás dela e a elimine. E não esqueça as fotos.
- Pois não, senhor. – disse o agente assim que recebeu a ordem.
Encapuzado, foi até o endereço da tal vagabunda. Abriu a janela. Ela estava no chuveiro. Astuto, esperou-a bem ao lado da porta. Quando ela saiu, foi golpeada sem dó. No dia seguinte, a prostituta que chantageou o presidente sangrava na garganta e não respirava mais. Seu corpo foi lançado ao mar para que os peixes consumissem com ele. Enquanto isso, as fotos comprometedoras queimavam no cinzeiro que adornava a mesa do grande presidente.
A notícia da morte da primeira dama soou como uma bomba na imprensa. O viúvo veio a público e fez um pronunciamento em rede nacional: “Gostaria de agradecer a solidariedade de todos e dizer que a minha tristeza é grande, no entanto, o calor de minha nação me deixa mais forte para superar esse momento difícil e continuar honrando a bandeira desse país.”
O velório foi gigantesco e emocionante. O presidente chorava muito e dissimulava seus sentimentos através de um envolvente discurso: “Os culpados serão punidos e a nação permanecerá unida e protegida pelo ideal de fraternidade, trabalho e prosperidade que abençoa a todos que fazem parte desse imenso país. Sem mais, que Deus acompanhe cada um de nós.”
O sepultamento culminou num fim de tarde bonito. O sol que adentrava por entre as árvores, as ruas e as lápides do cemitério deixava uma tonalidade fraterna e amena no ar. Enquanto isso, o povo agitava bandeirolas com o escudo da nação e acenava para o presidente, que pela janela da limusine felicitava o povo que o aclamava com todo o fervor que só o patriotismo pode gerar.

O primeiro dia.

Nunca tive sorte com o violino, por isso aceitei o convite que li no cartaz, “Precisa-se de violinistas para encomendar nossos homens até o céu.” Quando me deparei com essa oportunidade fazia muito frio. Eu havia acabado de trocar meu sanduíche por uma dose de conhaque vadio que era servido no boteco da Lola. Enquanto bebia, percebi que aquela era a minha chance de ganhar uns trocados com a minha pobre arte.
Cheguei até o quartel em poucos minutos, munido de meu violino é claro, e muita esperança. Havia uma puta fila e eu, era o último. Eu não sabia quantas vagas estavam disponíveis e isso me deixou apreensivo. A minha garganta doía muito, porque a chuva sempre fez mal para mim em épocas de temperaturas baixas.
Quando estive com o sargento, ele me olhou nos olhos e perguntou-me, “O que espera do exército, filho?” Imediatamente respondi, com minha voz rouca e louca, na tentativa de impressioná-lo, “Gostaria que nossos homens chegassem contentes na casa do criador.” O sargento olhou em meus olhos, disparou uma baforada de seu charuto e disse, “Parabéns, filho, você será um de nossos homens. Essa é a sua farda.” – ao mesmo tempo em que a jogou sobre meus joelhos.
Em seguida fui até a estação do trem, levando meus pertences, que todos juntos cabiam em uma pequena mochila de viagem. Haviam muitos homens recrutados, para todo o tipo de missão. As caras eram alegres, como se a morte, chamasse e fizesse todo o sentido. O primeiro recruta que conheci foi um garoto de 19 anos, chamado Marçal. A gente se deu bem, os dois vindos do interior e da mesma região. Um fim de mundo onde a maioria da população se dedicava a criação de gado e ovelhas.
Marçal era um dos inflamados com a guerra, queria lutar pelo seu país e deixar seus pais e sua garota, orgulhosos. Quando chegamos ao campo de combate, fomos conduzidos até um alojamento feito com lonas verdes. O lugar era muito simples e ficava no alto de uma montanha onde tínhamos uma visão privilegiada do campo de batalha. Logo na chegada recebemos comida e uma pistola cada um. Afinal, era uma guerra. Depois fomos conduzidos para o mesmo pelotão.
Nossa primeira batalha seria na manhã seguinte. Marçal estava empolgado e dizia para mim, “Meu amigo, acho que você tocará para comemorarmos a nossa vitória, porque o nosso pelotão, não vai perder nenhum homem, acredite.” Ele era um nacionalista ferrenho que acreditava em nosso país como nunca vi na vida. Bem diferente de mim, que só queria tocar e juntar uns trocados para poder estudar música em uma boa universidade e mais tarde ser reconhecido.
5h da Manhã estávamos na fronte de batalha. Sentia uma sensação estranha, acho que a apreensão tomava conta de todos. A gente não sabia o que ia acontecer e muito menos quantos voltariam. O sargento fez uma rápida conferência com a tropa e disse que todos sairiam vivos dali, desde que não estivéssemos dispostos a perder a guerra.
Isso inflamou os homens. Marçal foi à loucura e dizia, “Vamos chutar os traseiros deles e mandar suas cabeças às suas famílias e mulheres como consolo.” Eu o achava um tanto quanto otimista demais, mas tudo bem; concordei sem dizer nada, apenas balancei a cabeça em sinal de apoio.
Assim que os homens ficaram na posição adequada, só restava esperarmos pela chegada do comboio inimigo. Era uma tropa de carga, que levava munição, remédios e armas para nossos oponentes. Enquanto isso, eu segurava o meu violino com a mão direita e fumava com a outra. Marçal estava ao meu lado e, quando o sargento deu a ordem de ataque, o garoto me abraçou e disse, “Nada mal para o primeiro dia de combate.”
Em seguida, Marçal correu para a briga. Foram 30 minutos de confronto. Eu olhava para os lados e via uma porção de gente sendo dilacerada pelas balas e pelas bombas. Para me proteger, deitei na trincheira e rezei para que tudo acabasse rápido. Quando o barulho terminou, boa parte do comboio inimigo havia sido destruída, mas uma pequena parte dele conseguiu furar o nosso bloqueio. Quando fui chamado para tocar, vi Marçal sem um braço e uma perna, ele ainda respirava. Olhei nos olhos dele e calei. Então ele balbuciou ofegante, “Toque para mim, amigo, e não fique triste.” Foi a primeira vez que recebi aplausos depois de tocar.

Criaturas no banheiro.

Seguidamente venho para cá. Gosto desse lugar, fresco, pequeno. A cana quente que bebo costumeiramente ensinou-me que aqui é o meu lugar. Posso suar; delirar e porquear tanto quanto precisar. Abraço a privada e sinto minhas mãos apertarem meu corpo junto dela. Nesses momentos tenho dificuldade de respirar, porque meu nariz e minha garganta estão obstruídos enquanto meu organismo elimina meus excessos. Mesmo sem ar, não morro. É engraçado o infortúnio que me sorri feito sorte em forma de abuso.
Beber, beber até morrer faz parte de mim de um jeito fidedigno. Pode acreditar em mim. Aqui eu tenho tempo de olhar as tarântulas penduradas por entre os cantos. Elas são bailarinas que me encantam. São seres que me parecem como a morte, sério. Também gosto das sombras que a luz produz quando se choca com esses corpos elegantes.
Minhas vomitadas são carregadas de um líquido quase roxo e viscoso. Meu fígado dói volta e meia. São raros os momentos em que não escorre sangue pelo canto da minha boca queimada pela cachaça que tanto gosto. O amor dói quando é forte e eu preciso externá-lo a qualquer custo.
Esse mundo cheio de umidade onde passo boa parte do dia abriga também uma barata. Bem grande, suas asas parecem com as asas de um avião de carga, por causa da envergadura. Ela chega, depois balança as antenas por um bom tempo e solta seus ovos do alto da porta. Nesses momentos eu sinto que uma espécie de poeira cai em mim. Gosto disso. Olho para ela com admiração porque reconheço o poderio da sua blindagem. Ela resiste à bomba atômica. Isso a torna fenomenal. Acho que ela gosta de mim. Está sempre por perto e nunca some. Existe uma relação entre a gente, algo quase sexual. Ela é uma grande garota, porque fica perto e me faz companhia.
As lesmas do chão são alongadas, gordas e altas. A que vejo agora é quase tão grande quanto um caramujo. Isso é bonito. Ela adora a minha pele. Chega de mansinho e sobe em minha perna. Eu a pego com o dedo. Trago a danada até bem perto de meu olho. Sinto vontade de comê-la, mas a deixo ir. Afinal, no banheiro, somos criaturas tão livres quanto podemos ser.
Por aqui existem tantas criaturas, que passo despercebido por entre elas sem qualquer objeção. Nosso universo é assim, feito aqui, enquanto contemplo azulejos amarelos, cheios de desenhos tribais que formam longas folhas de alguma espécie rara de planta que não sei dizer qual é. É assim que percebo essas criaturas.
Eu as amo por isso.

Trecho, Livre para ser preso.


Alencar bebia vinho todas as noites, enquanto ouvia
música clássica. Depois da última taça, quebrava a garrafa e mastigava
um pouco do vidro. As noites sulinas favoreciam o costume,
apreciado de brisa fria e lua grande. Interessante que a TV ligada
no mudo fazia contraste com o rádio enlouquecido. Por aquelas
bandas, o Programa do Grama era a melhor diversão. O locutor
era um interiorano descolado que fazia uma mistura de música
clássica com notícias policiais, comentários de ouvintes, algumas
enquetes e um pouco de rádio novela.
A vista da varanda era profunda por demais, e a primeira garrafa
já estava perto do fim. Seus lábios estavam ligeiramente dormentes e as
primeiras lambidas nos utensílios já haviam acontecido. Alencar dava
mostras de sossegado, e aproveitava sua solidão quando foi surpreendido
por uma chamada que atravessou a programação: Extra, extra,
extra: confusão na penitenciária de Sorte Crença. Ao que tudo indica,
alguns presos conseguiram fugir durante uma rebelião, que rapidamente
foi controlada. Segundo as autoridades encarregadas do caso, os melhores
homens da nossa polícia estão na caça desses delinqüentes. Esse foi o
seu Plantão Extra, sempre o primeiro.
Alencar acendeu um cigarro, com os olhos fixos no horizonte,
e a música voltou. A fumaça criava uma cortina bêbada que turvava
o seu campo de visão, deixando um clima ainda mais romântico
e doce no ar. O vinho e o abandono regavam a noite, que testemunhava
uma calmaria e um frescor de uva que tomava conta de seu
paladar e deixava o vidro ainda mais tentador.
Os olhos pareciam saltar da cara do homem levemente embriagado
que, atirado em sua cadeira de balanço, esperava o tempo
passar. Então o cão latiu. Alencar levantou e foi até o lance de escadas
que guiava para o abrigo da varanda.
Olhou na volta e nada percebeu além da ausência de seu companheiro
fiel:
– Sombra. Venha. Cadê você, garoto?
E o cão veio até os pés do dono, e deitou para receber os carinhos:
– Sombra, meu velho amigo, o que houve?
O animal punha a língua para fora enquanto roçava o pescoço
nas pernas do homem a lhe acarinhar as costas:
– Vamos; calma. Deite aqui e fique comigo – disse o homem,
apontando para o lado da cadeira de balanço.
O cachorro obedeceu e deitou no exato lugar onde lhe foi
apontado. O comedor de vidro voltou para o seu lugar e continuou
a olhar para o sem fim. De repente os arbustos que cercavam
a casa balançaram. O cão levantou e ladrou mais uma vez. Desconfiado,
Alencar passou a mão em sua espingarda calibre doze de
cano duplo, que repousava bem ao seu lado. O cachorro ficou ainda
mais nervoso, desceu para o gramado e permaneceu a abanar o
rabo, arrepiar os pelos e escancarar os poderosos dentes.
O jeito foi intervir mais uma vez:
– Sombra, já aqui!
E o canino atendeu, voltando a espichar o corpo no mesmo
lugar de antes. Enquanto isso, Alencar acompanhava calmamente
o baile dos arbustos sem demonstrar que havia percebido a situação.
A cada instante o clima ficava mais frio e tenso. O tempo ia
passando e nada saía do ventre das plantas. Os olhos do homem
percebiam que o intruso tentava contornar a casa pelo meio
das folhagens, e permaneceu seguro, esperando o momento
apropriado para agir de uma vez só. Acendeu outro cigarro e
atuou com astúcia:
– Venha Sombra!
E os dois entraram. A porta foi fechada e o cão passou a correr
próximo das janelas, como se fizesse a ronda e acompanhasse os
passos de alguém ou alguma coisa, lá fora. Alencar sentou na poltrona
ao lado do telefone, desligou o rádio, apagou as luzes e acendeu
o abajur vermelho que dividia espaço com os badulaques sobre
a pequena mesa. Dava a impressão de esperar alguma coisa,
ou alguém. Quando olhou pela vidraça, viu que uma silhueta
corria no gramado dos fundos da casa. Levantou com velocidade
da poltrona e foi para a passagem que dava acesso ao pátio.
Mirou a maçaneta e abriu a porta com a arma engatilhada, em
posição de disparo:
– Quem está aí?
Recebeu em resposta somente silêncio.
– Não vou repetir. Na próxima vou soltar o cão. E se não aparecer
com as mãos para o alto, vou atirar.
Nesse momento, um homem vestindo um uniforme do exército
e um longo casaco preto nasceu do seio dos arbustos, os braços
levantados:
– Não atire. Sou de paz.
– Qual é o seu nome?
– Jorge, senhor.
– E o que faz por aqui, uma hora dessas?
– Estou de passagem, amigo. Quero apenas um copo de água
e algo para comer.
– Então fique aí mesmo. Vou ver o que posso conseguir. E não tire o
olho dele, Sombra – disse, dirigindo-se ao cachorro – Se o engraçadinho
se mexer, de um jeito nele e mostre que não queremos palhaços por aqui.
Quando Alencar voltou para a cozinha, o cão fez cara de mal
e pregou os olhos no visitante que, imóvel, não encarava o cachorro.
Enquanto isso, o comedor de vidro fez um prato cheio com
arroz e feijão e entregou ao pedinte. Depois serviu um copo de
água e lhe alcançou os talheres.
Assim que deu a primeira garfada, o cão sentou na soleira da
porta e aos poucos a situação foi serenando:
– Disse que estava de passagem. Para aonde vai?
– Para o norte. Estou à procura de trabalho. Um amigo disse
que posso me dar bem por aquelas bandas.
– Quer atravessar o estado andando?
– É que perdi o último ônibus.
– Então quer me convencer de que resolveu ganhar a estrada
a pé só por que perdeu um ônibus? Corta essa.
– Isso mesmo, senhor. Homens como eu estão acostumados
com a vida dura.
– O que quer dizer com vida dura?
– Nada, senhor. Apenas que estou habituado com as dificuldades
de um homem pobre, é só.
– Bem, amigo, então essa é a sua noite de sorte.
– É mesmo? Por quê?
– Se quiser pode pernoitar aqui. Tomamos um vinho e batemos
um papo. O que acha?
– Eu agradeço a sua generosidade, mas não posso aceitar.
– Ora, vamos. Aceite.
– O senhor deve estar de brincadeira... Afinal nem me conhece...
– Meu filho, se eu não o ajudar, levarei a fama de cruel, mas se ofereço
hospitalidade, ganho indiferença. Vamos. Deixe de bobagens.
– Mesmo assim eu agradeço.
– Vai Sombra – ordenou Alencar – e o cão correu até o homem,
parou e depois rosnou, dando a entender que podia mordê-lo
ao menor sinal de Alencar.
– Calma. Não quis ofender.
– Então sente Sombra – e o cão mais uma vez atendeu.
– Fico feliz que tenha compreendido quem manda aqui –
continuou – Agora vamos tomar um vinho.
O hóspede levantou e seguiu Alencar até a varanda, que já
servia uma taça e a entregava a Jorge:
– Vamos, experimente.
– É delicioso.
– Obrigado.
– O vinho me é companheiro sempre.
– Deve ser um homem sozinho, assim pressuponho.
– Todos são. Não é mesmo?
– Acho que sim. De um jeito ou de outro temos apenas a nós
mesmos. É difícil confiar nas pessoas em dias como os de hoje.
Mas desembuche, homem: por que estava andando sozinho?
– Eu não posso contar.
– Pois eu digo que pode. Garanto que não sou um homem
melhor que você, confie em mim.
– Qual é o seu nome?
– Alencar.
– E o que está pretendendo?
– Nada, Jorge. Apenas companhia para uma taça de vinho.
O clima de parcimônia foi relaxando a todos, e o cão de
guarda deitou aos pés de seu dono e permaneceu quieto, olhando
para o hóspede:
– Costuma acolher todos que passam por aqui, Alencar?
– Ninguém passa por aqui.
– É mesmo? Por quê?
– Não sei ao certo. Mas acredito que seja por causa do isolamento.
Estamos no meio do nada.
– É, eu percebi.
– Conhece essas bandas?
– Não. É a primeira vez que passo por aqui.
– E de onde você vem?
– Sou do leste. Augusta do Sul. Já ouviu falar?
– Estava na cidade quando houve a rebelião? – continuou,
ignorando a pergunta do outro.
– Sim, estava.
– E você ficou com medo?
– É claro. Foi por esse motivo que resolvi me mandar. A cidade
estava agitada. Então preferi partir, ao invés de dormir num
lugar tomado de bandidos e pessoas desconfiadas.
– Eu compreendo. Fez muito bem.
– Já perdi tempo demais nessa vida com esse tipo de coisa, e
não quero mais me envolver em confusão.
– E de que tipo de confusão você está falando, Jorge?
– Brigas, mulheres, bebida, desconfiança, essas coisas.
– Eu sei como é. Minha esposa morreu cheia de conhaque
vagabundo na cabeça. Ela também nunca confiou em mim.
– Mas que droga. Eu lamento.
– Não precisa se preocupar. Ela não prestava.
– Há quanto tempo sua esposa faleceu?
– Hoje são 18 dias de seu enterro.
– Eu sinto muito. Deve estar muito triste e sozinho por esses
dias, não é mesmo?
– É o tipo de coisa que posso superar. Além do mais, aquela
vadia não valia à pena.
– Vocês se amavam?
– Acho que eu a amava, mas essa é outra estória que, por hora,
não quero relembrar. Compreende?
– É lógico que sim. Desculpe se fui inconveniente.
– Não tem importância Jorge. Agora tome mais um
pouco de vinho.
– Obrigado. Mas me diga Alencar, sempre morou aqui?
– Sim. Passei minha vida cuidando dessas terras.
– É um homem de sorte. Gosta daqui?
– Muito. Mas o que eu queria mesmo era viajar com o circo.
Só que meu pai não me deu apoio, e nunca fui bem recebido nas
companhias circenses. O tempo passou e cá estou.
– Eu também tive sonhos. Mas fui embora cedo de casa. As
coisas lá saíram um tanto quanto tortas, e o jeito foi me mandar e
fazer por mim mesmo.
– Caiu no mundo com que idade, Jorge?
– Eu tinha oito anos na época.
– Nossa! Um garoto com essa idade, sozinho pelas ruas. Isso
foi uma loucura! Você não teve medo?
– Eu não tive muita escolha. E depois, a minha família e eu
somos um tanto quanto diferentes. Achei melhor sair. Odeio ser
mandado, controlado, humilhado, maltratado. Essas coisas.
– Você cresceu nas ruas ou foi adotado?
– Preferi viver sozinho e sem teto. Nunca consegui me relacionar
muito bem com as pessoas.
– Eu compreendo você. Acho que ninguém vale a pena, realmente.
– A minha família teve muito dinheiro, Alencar. Mas minha
mãe ficou doente e meu pai acabou morto por causa de suas dívidas
de jogo. A fortuna foi perdida, em meio à desconfiança, ao
vício e, claro, à ganância.
– Mas que azar.
– Não lamente. Acho que foi até um pouco de sorte. Nunca
servi para essa vida convencional e careta de rico que aparece em
colunas sociais. Gosto da minha liberdade. Entende?
– Não se sentia bem antes, quando tinha dinheiro e estava
perto da sua família?
– Sempre fui tratado como um esquisito que só causava transtorno.
Eles não estavam dispostos a lutar por mim e me ajudar, como
precisava na época. Eu era só uma criança, mas eles me olhavam com
raiva. A bem da verdade, nunca houve amor entre a gente.
– Pensa que sua família o rejeitou?
– Com certeza sim. Nunca tive atenção de ninguém. Quando
percebi que não importava para eles, deixei todos para trás e
dei o fora para fazer a minha vida do meu jeito e pelas minhas
próprias forças.
– E você nunca os procurou?
– Jamais tive vontade. Eles nunca me aceitaram como sou
de verdade.
– Interessante as semelhanças entre as nossas vidas, não
acha Jorge? Somos dois homens abandonados e sozinhos. Um
brinde a nós.
E os dois tocaram as taças de vinho pela metade, fazendo tintin.
– Então, Alencar, pensa em se casar novamente?
– Eu não quero mais esse tipo de coisa. Agora tenho outros sonhos.
– E quais são eles?
– Gosto de beber meu vinho nessa varanda, até cair. E depois,
cagar com a porta do banheiro aberta é a melhor coisa da vida.
Riram, já embriagados.
– Eu compreendo. A gente se acostuma com a solidão, não é
mesmo Alencar?
– De certo modo, sim.
– Então por que impediu que eu fosse embora?
– Eu não sei ao certo. Acho que foi só uma gentileza.
– Claro. Mas deve ter cuidado com isso. As pessoas são capazes
de tudo.
– É por isso que estou começando a te admirar Jorge.
– Por que diz isso? Eu sou o estranho aqui. Essa é a sua casa.
– Justamente por isso. Além do que, eu posso ser muito pior
do que você.
– Quem sabe? Mas um homem que me oferece um vinho tão
bom não pode ser uma pessoa tão má. E depois, eu também posso
estar armado.
– É possível, mas o cão é meu. E isso é uma vantagem que
tenho em relação a você. Além do mais, essas terras são minhas.
Posso atirar quando quiser e alegar invasão de propriedade.
– Então, proponho outro brinde. A nós.
– Gosto do seu senso de humor.
– Obrigado. Você é um ótimo anfitrião.
– Quer dizer que não vai mais partir?
– Quem sabe? Ainda não tenho certeza.
– Pois eu acho que ficará muito bem por aqui. E depois, eu digo
quem entra e quem sai, e quando entra e quando sai. Entendeu?
– Claro que sim. Aprecio a sua hospitalidade. E esta é a fazenda
mais linda que já vi.
– Então vamos. Beba mais um vinho.
– Obrigado. E os seus animais, onde estão?
– No abrigo. Eu os recolho todas as noites por causa das onças.
– Deve travar boas lutas com elas, não?
– Às vezes. A última filha da mãe que adentrou nesses pastos
está na parede – disse Alencar, apontando o dedo para trás, onde a
pele do animal repousava, como um enfeite, sob a lareira.
– É uma pele bonita. Pelo visto era grande.
– E furiosa. Quando vi aqueles olhos, a minha alma gelou.
– Eu imagino. Estava perto da casa?
– Atirei da varanda, uns doze dias atrás. Acertei o olho da
desgraçada. Ela caiu dura.
– Pelo visto você vive com essa doze na mão...
– Nos últimos 18 dias não me afastei um segundo dessa
arma, e não pretendo mais ficar longe dela. Digamos que não
tenho motivos para fazer isso. Essa é minha casa e minha fazenda.
Eu sou a lei por esses pastos. E por isso sou o único que usa
armas por aqui.
– Eu compreendo.
Fez-se um rápido silêncio, e o fazendeiro continuou:
– O que você pensa sobre território, Jorge?
– Muitas coisas. E você?
– Eu acredito que cada homem é senhor do seu.
– Isso é liberdade, Alencar. É como chamo este direito. O
maior presente que um homem pode ter é ser senhor de sua
própria vida.
– Gostei de você Jorge. Acho que vamos nos dar muito bem.
– Eu espero que sim. E acredito que somos confiáveis por demais.
– É verdade. Eu concordo. Vamos completar esses copos –
disse, já derramando mais vinho para dentro das taças.
– Posso fazer uma pergunta, Alencar?
– Faça. Depois vejo se respondo ou não.
– Sua boca está toda machucada. O que houve?
– Eu mastigo vidros.
– E por quê?
– Porque eu gosto. Desde pequeno fui assim. Nada que me
coubesse na boca saía ileso de meus dentes.
– É por isso que tem um cão desses, com uma mandíbula
tão grande?
– Aprecio o poderio da dentadura dessa raça. Veja como os
caninos são salientes e desenvolvidos. Um animal desses me provoca
até inspiração.
– Ele tem qualidades pastoris?
– A especialidade dele é a luta. É capaz de segurar um touro
sozinho. É muito forte e, quando cerra os dentes, não solta
nunca mais.
– Acredito. Quem o treinou?
– Eu e os outros cachorros da fazenda.
– Quantos são, ao total?
– Doze. E estão espalhados pelo pátio e pelos galpões da estância.
– Pelo jeito tem medo de assaltos...
– Eu não tenho medo. Só não tolero engraçadinhos que invadem
minhas terras.
– Então por que não me deixa partir?
– Eu já disse que gostei de você.
– Claro, eu entendi. Não me leve a mal. Acalme-se.
– Eu estou calmo. Mas você só vai sair daqui quando eu deixar.
E se fizer tudo o que digo ninguém vai se machucar.
– Eu sei, somos amigos, não há motivos para brigas.
– É bom que assim seja. Esse cão é mais poderoso que um jacaré.
– Qual é a base genética da linhagem. Você conhece?
– Ele tem cruza com o diabo.
Ambos riram uma risada estranha, quase desconfortável. E
serviram-se de mais vinho.
Jorge ficou olhando para o bicho, que permanecia na mesma
posição de quando deitou. Então Alencar percebeu a admiração
do outro pelo animal, e entendeu aquilo como um sinal de profundo
respeito. A idéia o deixou mais altivo e confiante.
– Como disse Jorge, se ficar quieto e seguir minhas instruções,
não haverá problema. Entendeu bem? Está em minhas
terras e eu sou a autoridade aqui.
– E você confia tanto assim nesse cão? Ao menos tem
certeza de que tem controle suficiente sobre ele para mantê-lo
tão próximo?
– Sim. Os cachorros não atacam o dono.
– Claro que não. Mas acho que, além disso, eles são senhores
de suas vidas e decisões, e estão livres para escolher entre dominar
ou ser dominado.
– Alcance a sua perna – disse Alencar, inesperadamente.
– O que pretende fazer?
– Se não fizer o que estou mandando, vou atirar na sua cabeça.
– Tudo bem, tudo bem. Não vamos brigar. Mas afinal, o que
houve com você?
Enquanto falava, o homem entregou a perna e Alencar o acorrentou,
prendendo o pé do hóspede ao pescoço do cão.
Depois olhou para Jorge e indagou:
– Você não se sente seguro?
– Depende da situação – respondeu, sorrindo desconfiado.
– Ele não atacará. A menos que tente fugir. Fique perto dele e
estará a salvo de qualquer um. Menos de mim, é claro.
– Tudo bem. Só que eu não posso viver preso ao seu cão.
– Não discuta comigo Jorge. Como meu hóspede, deve respeito
a minha casa e as minhas decisões.
– Ora, vamos, o que deu em você? Sou seu convidado, esqueceu?
– Me desculpe Jorge. Mas daqui para frente apenas siga minhas
ordens. Caso contrário, terei de atirar em você.
– Tá certo. Mas enquanto isso, fale mais de sua esposa.
– Uma vadia que me traiu e resolveu entrar de cabeça numa
garrafa de conhaque. Morreu bêbada.
– É mesmo? Puxa vida. Eu nem sei o que dizer.
– Que tal abrir o jogo? Estava preso, não é mesmo Jorge?
– Posso responder se me contar a relação que a sua cabeça faz
entre sua mulher e seu território.
– Esta é minha casa, e a partir do momento que alguém entra
aqui, essa pessoa passa a fazer parte da minha vida. E na minha
vida sou eu quem faz as perguntas. Entendido?
– Sei.
– Agora, quero que responda se estava cumprindo pena ou não.
– Isso não muda as coisas para você. E só por isso vou responder:
sim, eu estava cumprindo pena.
– E por que mentiu?
– Achei que não entenderia.
– O que foi que você fez?
– Eu matei uma menina.
– Por quê?
– Eu queria a boneca dela, mas ela não emprestava!
Quando Jorge começou a falar, seus olhos encheram-se de brasa e,
apesar de continuar calmo, dava para perceber que estava transtornado.
– E como você a matou?
– Com um cadarço. Eu a peguei pelo pescoço e apertei até ela
parar de respirar.
– E como você foi preso?
– Fui cercado e não tive escolha.
– E por isso acha que tenho medo de você?
– Acho que não, Alencar. Somos amigos. Não somos?
– Penso que estamos construindo a nossa amizade.
– Então por que estou preso a esse cão se somos dois amigos
bebendo?
– É só uma precaução. Vai evitar que faça bobagens. E depois,
a polícia deve estar atrás de você.
– Você vai me entregar?
– Não, claro que não. Como meu convidado, basta que fique
bebendo comigo e não haverá problema nenhum. E depois, Sombra
é um excelente cão, vai manter nós dois em segurança.
– Espero que sim.
– Mas me diga, por que você queria a boneca dela?
– A Cindy prometeu casar comigo. Foi meu primeiro
e único amor, e olha que eu só tinha oito anos! Mas Sofia,
aquela menina insuportável, não desgrudava dela! A gente
não tinha privacidade!
– O que quer dizer com privacidade?
– Você sabe como são essas coisas. Cindy era uma garota
quente. E fomos flagrados fazendo amor no quarto da pentelha.
– E quem descobriu vocês dois juntos?
– Foi ela, a Sofia. Entrou no quarto sem bater e viu a gente
transando. Ela quis tomar a Cindy de mim. E disse que iria contar
para todo mundo, inclusive para os meus pais.
– Foi por isso que saiu de casa, então?
– Também. Eles não entendiam o nosso amor. Queriam separar
a gente.
– E você matou outras crianças?
– Sim. Fui crescendo e matando, por vontade e por necessidade.
Mas por que está perguntando tantas coisas?
– Como hóspede, precisa me falar ao seu respeito. Essa é uma
casa de família. Compreende?
– É claro. Por isso o vinho é tão bom.
– E por falar em vinho, sirva-se.
– Obrigado. A propósito, sinto muito pelo circo. É muito
ruim não conseguir o que se quer.
– Ah, esses artistas são um bando de idiotas. Só reconhecem
o próprio umbigo. Foi por isso que criticaram o meu incrível número
quando os procurei.
– É uma pena. Nunca vi alguém comer vidro igual a você.
– E eu nunca vi alguém beber tanto vinho.
E eles riram.
Foi Jorge quem retomou a palavra:
– A sua esposa também fez uma grande desfeita, pelo jeito.
– É, ela fez. E foi por isso que mudei. Não tolero mais desordem
dentro de minhas terras desde que isso aconteceu.
– Sente falta dela?
– Eu não quero falar sobre isso.
– É claro. Entendo. Eu também tinha muita dificuldade de
admitir os meus desejos e o meu amor por bonecas de pano. Mas
depois que fui condenado, aprendi que não faz diferença e assumi
a minha preferência por elas. Mesmo porque as mulheres sempre
abandonam seus homens e vão embora.
– Isso faz sentido, Jorge. Então compreende os motivos pelos
quais não pode sair, não é?
– É claro que sim. Entrei em seu território sem pedir licença e
você me perdoou por isso. Agora temos uma dívida. Estou certo?
– Certíssimo. Que bom que entendeu as coisas. É tão difícil
encontrar alguém lúcido nos dias de hoje...
– Também acho.
Alencar serviu novamente as taças, secando de vez a garrafa
de vinho, e já alcançou o braço até o balcão para pegar outra.
– Então, como se sentiu na cadeia, Jorge?
– Sozinho, como sempre. Alguns faziam sexo comigo. Ajudava,
por que lá não havia boneca nenhuma.
– Você ficou longe dos seus brinquedos?
– Eu não tinha brinquedo algum, apenas a Cindy. E ela foi
embora quando fui preso. Os outros companheiros da cadeia
me disseram que ela estava vivendo com outro homem, um carcereiro,
ao que parece. Ela era muito temperamental, parecia
uma mulher de verdade.
– Ela te largou?
– Sim. E para me vingar, matei um dos carcereiros, colega do
danado que me tomou Cindy.
– E como fez isso?
– Com uma escova de dente. Eu a enterrei garganta abaixo.
Ele engasgou com o próprio sangue. Depois soltei um peso da academia
em sua cabeça.
– E o que aconteceu com você?
– Me trancaram na solitária. E me bateram. Depois fui julgado
e condenado mais uma vez.
– E acha que somos diferentes por quê?
– Ninguém é totalmente igual ou diferente Alencar, o
que muda é como os fatos acontecem e o que cada um escolhe.
Você, por exemplo: por que continuou a comer vidro por
todos esses anos, mesmo sabendo que não integraria nenhuma
companhia circense?
– Sempre gostei do gosto que o sangue deixa na boca.
– E o que seu pai pensava a respeito dessa coisa de você
comer vidro?
– Meu pai sempre me chamou de maluco. Pelo menos teve
coragem de dizer o que realmente pensava ao meu respeito, olhando
nas minhas fuças.
– E sua mulher? Também lhe dizia o que realmente pensava
ao seu respeito?
– Infelizmente sim. Aquela idiota não sabia me respeitar
como um marido merece. Ainda bem que fui avisado.
– E quem contou tudo para você?
– Eu tenho muitos amigos dentro da minha cabeça, Jorge.
– E que amigos são esses?
– Não sei ao certo. Mas eles me contam muitas coisas.
– E o que mais eles disseram?
– Que minha esposa me traía com o frentista do posto, lá da
cidade. E que os dois safados rolavam pelo meio do campo, em minhas
terras. E que a minha mulher bebia por que queria me deixar,
como a boa vaca que sempre foi.
– E o que você fez com o frentista?
– Matei.
– E o que aconteceu depois?
– A minha esposa continuou bebendo. Na verdade, começou
a beber muito mais. Até que um dia morreu. Pior que ainda
tive de providenciar o velório e o óbito daquela desgraçada. Ao
menos estou livre.
– As mulheres são loucas mesmo. Cheias de problemas e
de patologias.
A essa altura, os homens já estavam bem bêbados e a conversa
fluía constante, devido à empolgação do álcool.
– Acho que poderíamos comer um pouco. O que acha, Jorge?
Minhas tripas estão roncando.
– Você dá as ordens por aqui, esqueceu? Vamos lá.
Voltaram para a cozinha. Jorge e o cão foram na frente, e
Alencar ficou na retaguarda, com a espingarda calibre doze apontada
para as costas do seu refém que caminhava na sua frente. A
mesa estava farta e os dois sentaram frente a frente.
Foi o anfitrião quem interrompeu o jantar:
– Vou ao banheiro. E você, não tente fugir.
Assim que Alencar saiu, Jorge esticou o braço e alcançou
uma gaveta sem chamar atenção do cão. Espichou o olho e avistou
a faca de cortar carne. Sorrateiro, escondeu a lâmina no
bolso interno do seu casaco e voltou a comer. Enquanto isso,
no banheiro, Alencar pegou mais uma caixa de balas que guardava
escondida no meio de um armário cheio de badulaques, e
a colocou em seu bolso.
Queria prevenir-se com munição.
E assim que guardou as balas, voltou para a cozinha, puxando
as calças para cima e fazendo aquele olhar gentil:
– Então, o que está achando da minha hospitalidade?

Lançamento - Carta aos amigos e leitores.















Eu não imaginava que tanta coisa pudesse acontecer de uma vez só na vida de um homem. Mas estou muito feliz por todas elas. No dia 19 de dezembro, rolou o lançamento do meu livro solo, Livre para ser preso, e foi fantástico, é uma pena não conseguir postar todas as fotos aqui. Aconteceu no bar do Claudião, em Passo Fundo. Cerveja gelada e barata, calor, bêbados e muita atmosfera. Agradeço aos bebuns da bodega e ao pessoal que trabalha lá, pela apetitosa recepção. Eu diria que foi um lançamento para quem não precisa mentir, sobre o que realmente pensa e o que realmente é; uma maravilha. Sem boinas, sem línguas afiadas, acredito que o pessoal que apareceu por lá realmente lê e não faz tipo. Valeu mesmo.
Ah, também tive a oportunidade de rever grandes amigos e de conhecer um bocado de gente que anda me lendo por aí, confesso que me emocionei. Foi um bom papo sobre literatura. Também quero agradecer a todos os meios de comunicação que vem divulgando minha obra. Gostaria também de agradecer a crítica, não imaginava uma receptividade tão boa já em meu primeiro livro, foi uma surpresa das melhores. Antes de tudo, também quero agradecer os meus tratadores, que vem até aqui para ler meus contos todos os dias. Sem vocês eu não conseguiria. E como sempre digo, sorte, luz e sangue, sempre.

Coração açucarado.

Acordo com o garnisé cantando, todos os dias. Viver sem nada é difícil, cara. Sabe como é? Um homem como eu, tem de ter capricho e vontade. A minha criação de codornas dá uns trocados. O garnisé serve para chocar os ovos, por que a cada dez meses, a produção baixa e tenho de renovar o plantel. Então eu vendo as matrizes velhas para o pessoal comer com macarrão.
Os ricos daqui gostam disso. É bem caro, esse tipo de carne. De manhã, a gaiola está cheia de ovos, todo dia, ainda bem. Recolho, limpo, embalo e depois entrego nesses restaurantes finos. Somados com o que ganho, vendendo lenha partida, eu consigo comprar alguns pincéis, canetinhas, comida. Agora a grana baixou, o inverno terminou, pouca gente quer lenha. É assim que faço para continuar a desenhar. Aqui onde vivo, a arte tem pouco valor.
Dei sorte, um dos caras que compra os ovos, precisava de alguém para cavar um poço no quintal. Vinte e cinco paus o metro cavado. Ele queria com quatro metros de profundidade. Cem paus é muito dinheiro. Topei na hora. Fiquei o dia todo fora. Estava longe de casa para voltar. O jeito foi nem avisar. E depois, chegar ao final do dia, com uma sacola, com cigarro, feijão, um chocolate para ela, arroz e uns trocos no bolso é festa.
O calor era duro. O quintal tinha muitos restos de tijolos encobertos pelo mato e a terra. Ossos em quantidade, eu precisei limpar o lugar, antes de pegar na picareta. Ganhei uma jarra de água gelada e um sanduba de mortadela. Estava muito bom. Acho que era dessas mortadelas de rico, que eu vejo nas propagandas da TV.
O cara até me deu outro, deve ter ficado com pena de mim. Fumei um cigarro e comecei. Terminei eram seis da tarde. Ainda bem que sou gigante. O cara ficou contente, disse que eu tenho vontade de trabalhar. Que bom que ele reconheceu. Pagou cento e vinte cinco, por causa da minha pegada. Fiquei surpreso. Ele até comprou um quadro por trinta paus. Fiquei feliz, chorei, agradeci. Foi por isso que comprei dois chocolates para ela.
Pensei que aquele poço era para ser uma dessas fossas secas, que não deixam a merda e o esgoto feder. É bem comum por aqui. Você conhece? O homem perguntou se eu topava encher o buraco de pedra. Aceitei é claro, era mais grana. Uns dez quadros a mais para divulgar o meu sonho. A gente tem de aprender a buscar o que quer. Não sou do tipo que fica chorando, pedindo. Eu gosto de agarrar o que quero. E você?
Cheguei até a vila quase oito da noite. O clima estava pesado. O medo andava pelas vielas. Como sempre. Ventava, a terra subia. As pessoas apressadas tomavam o rumo de casa. A quadra de esportes estava vazia. O tempo era bravio, ia chover.
Meu amor chorou, quando me recebeu, eu também. E olhe que eu cheguei sujo demais. Ela não se importa. Diz que o importante é a limpeza que carrego dentro do peito. Foi ela quem me ensinou esse tipo de coisa. Já aprendeu isso? Ela adorou as duas barras de chocolate ao leite. Fiquei feliz, por que consegui dar mais a ela.
Deitei e dormi logo que jantei. Embalado pelo barulho de água que corria no tanque. Ela é grande demais. A gente não tem lavadora. Você tem? No outro dia, acordei cedo, ela ainda dormia, deixei um poema ao lado dela. “Você me faz gigante.” Sempre faço isso antes de sair. Por que aqui é violento, posso não voltar, sei lá.
Nesse lugar, a segurança é por conta de cada um. O senado está bem longe da minha baixada, e a polícia não vem aqui para me proteger. Quando a lei olha a minha roupa, a minha condição, me torno um suspeito, não um cidadão. Sabia?
Novamente, catei os ovos, era mais grana. Que bom, uma semana de fartura cara. Já sentiu falta dela? Assim que cheguei, um caminhão descarregava as pedras para encher o poço. Recebi adiantado, mais cinqüenta paus. Eu até sorri.
O cara me disse:
- Blindado, fale comigo antes de começar.
Esperei. Em poucos segundos as pedras foram descarregadas. O homem me chamou. Andou comigo até um quartinho nos fundos.
- Blindado, você é feliz?
- Sou.
- Eu nunca fui.
Achei estranho, ele tinha tanto dinheiro, calei. Ele abriu a porta. Pegue isso e jogue dentro do poço, depois cubra com as pedras e arremate com a terra. Era uma mulher, tinha um tiro de doze no peito. A bala desenhou uma flor arregaçada. Estava cheia de moscas sobre o ferimento. Dizem que o sangue é açucarado. O disparo foi em cima do coração. Não perguntei nada. Tem coisas que é melhor a gente não saber.
Olhei nos olhos dele. Silêncio. Agarrei pelos pés, e atirei no poço como mandou. Antes do meio dia estava pronto. Ele me apertou a mão. Deu mais cinqüenta paus. Saí calado. Cheguei e meu amor me abraçou. Olhei nos olhos dela.
- Obrigado por me fazer feliz. – me emocionei, abracei forte.
Ela chorou. Depois colocou a mesa. Almoçamos. Em seguida, fui desenhar. Estava cheio de pincéis, canetinhas novas, cartolina, comida. De tão contente, fiz um jardim de flores coloridas numa folha A1, e colei no roupeiro escangalhado, esse eu não vou vender.

LIVRE PARA SER PRESO.

Por Gabriel Nepomuceno Vieira.

Ele usa uma balaclava enfiada na cabeça, tem um blogue feito de carniça, acredita que estamos mais perto do inferno do que do céu e escreve sobre o lado escuro da vida.
Estou falando, é claro, do escritor gaúcho Afobório, pseudônimo de Alexandre Durigon, 31 anos, que acaba de lançar seu livro de estréia, Livre Para Ser Preso (2009, R$25), pela editora carioca Multifoco.
Acostumado a escrever contos, Livre Para Ser Preso é sua primeira narrativa longa, e já chega surpreendendo e mostrando que veio para ficar - por mais que isso incomode os politicamente corretos e românticos de plantão.
Afobório criou uma novela com os elementos práticos e sucintos da produção do contista que sempre foi: nada sobra e nada falta na engenhosa história de Alencar e Jorge, seus perturbados protagonistas.
O primeiro, um fazendeiro mais pedante que esperto, sofre pelos chifres que sua falecida mulher colocou em sua testa. O outro, fugitivo da polícia, é completamente apaixonado por uma boneca e acredita piamente ser uma onça pintada.
O enredo lhe pareceu absurdo? E é.
Isso até que se comece a ler a extraordinária história de dois homens que desafiam sua própria humanidade, e lançam mão de uma guerra particular onde só cabem dois soldados, buscando na selvageria qualquer coisa que os aproximem dos homens que nunca foram.
Diferentemente de muitos autores de suspense e literatura fantástica - que acabam apenas refazendo o que já foi feito - Afobório não busca em escritores consagrados nem em filmes do gênero inspiração para suas histórias.
Sua matéria-prima é a vida que ele enxerga pela janela de sua sala:
- Escrevo coisas que vejo e encontro nas pessoas. Acredito que as estórias que desenvolvo têm um bom fundo de verdade. Se você prestar atenção à sua volta, verá que o que não falta são bizarrices. O mundo é feio, mas a maioria das pessoas reluta contra isso e o pintam de bonito para disfarçar o que incomoda e envergonha a sociedade. Eu vejo as coisas por outro lado. É por isso que exploro o lado negativo do ser humano, e da vida.
E é isso que encontramos em suas histórias, abundantemente: realismo e verdade.
E é também exatamente isso que mais perturba na literatura de Afobório.
Tudo que está escrito é passível de se tornar real.
Esta proximidade sinistra e sensacional que o autor possui com a realidade dura, crua e assombrosamente nua, torna seu blogue um espelho que reflete o lado negro e os becos e vielas de uma vida que não gostamos de ver nem de assumir que existe. Lá estão publicados mais de 100 contos, escritos entre 2007 e 2009, e cada um possui em suas linhas uma infinidade de personalidades e situações que nos deixam com a incômoda sensação de pertencermos àquilo tudo.
Segundo a escritora Jana Lauxen, responsável pelo prefácio desta delirante edição, enquanto lia os originais da obra, mais de uma vez se pegou embrulhada, enjoada, desconfortável:
- Diversas vezes precisei parar para retomar meu fôlego, e me certificar de que o mundo lá fora não havia se transformado em uma perseguição convulsiva e furiosa, onde homens se confundem com bestas feras e sentimentos se viram ao avesso para comprovar o que todos nós sabemos, mesmo sem gostar: existe um bicho faminto e intolerante dentro de cada um de nós. Um animal irracional e violento, bruto, impetuoso, preocupado exclusivamente com sua sobrevivência, desprovido de tudo aquilo que acreditamos nos tornar humanos. A história de Alencar e Jorge é, também, a história de todos os homens que deixaram para trás sua civilidade e sua compaixão, e mesmo assim continuam infiltrados no coração de uma sociedade aparentemente organizada, instituída e solidária – a sociedade onde eu e você vivemos, e onde nos sentimos muito, muito seguros.
Apesar das sensações e sentimentos pouco ortodoxos que Afobório desperta em seus leitores, tratamos aqui de literatura de primeira linha. Raros são os autores atuais que se dispuseram a retratar aquilo que poucos de nós gostam de assumir.
E Afobório não somente faz isso, como faz muito bem feito.
Livre Para Ser Preso, tais como os contos que frequentemente disponibiliza em seu blogue, possui o refino ideal para retratar histórias de horror e violência sem apelar para efeitos literários especiais ou ganchos ordinários: ele não choca o leitor com brutalidades óbvias e apelações previsíveis.
Afobório é o sujeito certo, na hora certa, escrevendo exatamente o que deve e sabe escrever.
E para os amantes de literatura policial, de suspense e de horror, só resta levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus pela existência de um autor tão bom naquilo que nos faz tão mal.
Agradecer a Deus, ou ao Diabo, é claro.

Quem é ela?

Meu dia foi ruim e acabei num bar escuro. Havia fumaça suspensa. Solidão. Rolava um David Bowie. Acendi um crivo. Traguei. Mais fumaça no ar. “Garçom, uma cerveja.” – falei. Ele trouxe. Estava bem gelada. Eu olhava para os lados sem parar, porque carregava uma sensação estranha de ameaça. Minha espinha fazia minha nuca arrepiar. “Droga.” – resmunguei. Muita gente transitava. Via cocaína esparramada pelas mesas. Aquele antro mexia com meus vícios. Oito anos longe das drogas e uma situação daquelas. Sentia calor. Ouvia o barulho dos ventiladores a toda. A sensação de apreensão não ia embora. “Merda.” – pronunciei indistintamente.
Na mesa ao meu lado uma mulher que usava um vestido vermelho me olhava. O que ela quer? – pensava. Silêncio. Mesmo mandando meus olhos para longe eu percebia que ela ainda mirava em minha direção. “Porra.” – rezinguei. Nisso o garçom se aproximou e entregou-me um guardanapo. Em seguida apontou para a dita mulher e permaneceu mudo. “Aceita uma bebida?” – era o que estava escrito naquele pedaço de papel que fedia absinto. Enquanto isso o garçom esperava. “Não.” – respondi. Ele deixou na mesa dela. Ela abriu. Leu. Olhou-me e saiu de perto. Respirei fundo. Relaxei um pouco.
Foi quando começou uma briga. Dois caras rolavam no chão do bar. Um sacou uma faca. Houve uma correria. Alguns clientes foram pisoteados. Levantei-me rápido. Colei minhas costas na parede. Acendi outro cigarro para assistir o tumulto. De repente, senti um cutucar na costela direita que desviou minha atenção. Olhei para o lado onde doía. Era a maldita mulher que vestia vermelho e me enviou o bilhete. Ela usava um punhal. “Se não o amasse, eu o mataria.” – foi o que ela disse. Antes que pudesse abrir a boca ela me arranhou o rosto com suas unhas enormes e vermelhas. Gritei e tomei um chute no saco. Cai. Apaguei.
Quando recuperei minha consciência, o clima era ameno e a mulher havia sumido. A polícia estava no bar. Uma enfermeira falou comigo. Assim que percebeu que estava tudo bem, fui mandado embora. Ela tinha muitos estropiados para cuidar. Cheguei até a rua sentindo muito medo. Olhei para os dois lados, não havia ninguém. Andei rápido até em casa. Entrei. Acendi um cigarro e deitei na cama. Quem é ela? – pensava. Algum tempo depois peguei no sono.
Acordei pela manhã, com um gosto muito ruim na boca. Levantei com a cabeça pesada. Olhei no espelho e me vi desfigurado. Fui até a cozinha e fiz um café sem açúcar. Deu um choque em meu cérebro. Sentia vontade de beber muita água. De repente, um vulto rubro passou no corredor. “Quem é?” – esbravejei. Corri e não encontrei ninguém. Voltei para o banheiro, precisava de um banho frio para curar a ressaca e refrescar as idéias. Assim que cheguei até a porta me surpreendi. “Se não o amasse, eu o mataria.” – estava escrito no espelho rebocado de batom vermelho. “Droga.” Quem é ela? – pensava. Olhei no relógio. Oito da manhã. Tinha de correr, estava atrasado.
O dia era infernal. Ônibus lotado. Cheiro de sovaco. Calor. Usava gravata. A cabeça doía ainda mais por causa do sacolejar do ônibus. O elevador estava mais cheio ainda. Os vinte andares mais longos da minha vida. Alguém fedia perfume barato. Assim que cheguei, vi que todos trabalhavam como cavalos e sem levantar a cabeça. Peguei um café. Estava frio, fraco e fedido, parecia de rodoviária. Senti uma azia consumir meu estômago. Abri a gaveta e não achei nenhum comprimido. Vi a mesa cheia de papéis. De repente, encontrei um bilhete por entre aquele monte de relatórios sem sentido que fazia todos os dias. “Seu não o amasse, eu o mataria.” – dizia a mensagem. Quem é ela? – pensava. Sem respostas, peguei meu casaco e saí mais cedo.
A rua estava ainda mais congestionada. Resolvi andar até em casa. Cheguei. A cabeça ainda doía. Abri uma cerveja. Bebi. Senti-me melhor. Coloquei um pedaço de pizza no micro. Comi. Acendi um cigarro. Traguei. O silêncio imperava. Liguei a TV. Sentei na cama. De repente, a campainha. “Droga.” – resmunguei. Abri a porta e encontrei um pacote, embrulhado com um laço de presente. Desamarrei o laço e achei um vestido vermelho, do mesmo modelo que a maldita mulher usava. Em seguida achei mais um bilhete. “Se não o amasse, eu o mataria.” – o mesmo recado. “Merda.” – balbuciei. Transtornado, abri uma garrafa de uísque. Desde então, bebo e mato mulheres que usam vermelho. É só isso, doutora. “Guarda, pode levá-lo.” – foi só o que ela disse. Mas afinal, quem é ela?

Eu também te amo.

- Hei Rose, vamos até o bar do Danado?
- Eu não vou. Minha cabeça está doendo. Sinto-me como se uma manada de elefantes estivesse me atropelado. Acordei com 70 anos, hoje.
Risos.
- Claro, bebeu todo meu uísque ontem à noite.
- Seu idiota. Além de passar a noite fora, enchendo a cara no meio das vadias, ainda acha que tem o direito de me amolar. Corta essa, cara.
- Mas que marmota é essa? Nunca se importou com esse tipo de coisa. Isso é ciúme?
- Sai dessa, eu não sou careta, sabe disso, mas é que você pensa que tudo que existe nessa casa é seu.
- E é mesmo. Esse sempre foi o meu cafofo.
- É, mas, quem comprou aquele uísque fui eu.
- E desde quando você tem grana?
- Tudo bem, eu assumo; roubei a garrafa no mercadinho do Alemão. Mas não importa se comprei ou roubei, o importante é que o uísque era meu.
- Mulheres, em pouco tempo querem mudar tudo aquilo que amaram um dia. O que está havendo contigo?
- Nada, mas é que estou cansando das suas baboseiras.
- Mas o que isso tem a ver com meu convite?
- Eu não preciso de justificativas para xingar um pudim de pinga feito você.
- Ih, isso tem cara de TPM.
- Seu sem noção, esqueceu que estamos devendo para ele. Se aparecermos lá, vai sobrar para a gente.
- Não esquenta. O Danado sabe que eu não pago as contas. E depois, ele gosta do que escrevo. Faço um conto e acertamos tudo sem problemas.
- Eu estou fora. Sinto-me enjoada e cheia de azia. Não é um bom dia para acabarmos dentro da garrafa.
- Nossa, mas que humor. – acendeu um cigarro e saiu batendo a porta.
A mulher correu até a janela e gritou, torcendo os dentes, com cara de quem queria cometer um assassinato:
- Eu também te amo, meu amor!
Depois voltou para o quarto. Sacou uma garrafa de conhaque debaixo da cama e bebeu. Só para tirar o gosto ruim da boca.

Meu anjo é a morte e a chuva.

As noites de chuva são tristes, feitas de um tempo cheio de morte, bebo conhaque vagabundo, fumo cigarros sem marca e vejo meu anjo voar por entre os becos. Gosto da loucura por isso, porque minhas visões transformam-me num demônio muito mais doce do que realmente sou. Busco em minhas amarguras um socorro para não morrer, e você, como se mantêm vivo?
O barbitúrico que consumo, mostra-me barro vermelho e um monte de sangue que não sei explicar de onde vem. Acho que entro em surto e mato, depois me esqueço do que fiz. Minhas emoções são misteriosas, assim como é o meu amor. Insano e incandescente. Meu anjo é mais meigo do que eu poderia desejar. Ele é dono do universo e seus pés pegam fogo, onde ele pisa, crescem chamas e crateras de magma.
Quando sonho com meu bem-querer, sofro feito um animal louco. Quem o olha, enfraquece, definha e morre. Muitos que o miram, sofrem de pesadelos, devaneios e sentem mordidas no crânio sem cessar. As chagas que vem dele são muito mais fortes que a penúria do deserto onde sofreu Cristo. Você carrega crucifixo? Guarda imagens santificadas? Entende a chuva?
Na última tempestade, o mundo encheu de neblina. A garoa beijava os pecados dessa terra lotada de formigas com fome e vespas sem asas. Nessa noite, eu ria, chorava, amaldiçoava e sentia ódio por tudo que os humanos acham grande. Sem medo ou senhor, erguia-me pelas calçadas a fitar vítimas e espíritos nada páreos para eu e meu anjo. Olhava, arrepiava-me e sentia-me cada vez mais forte. Dono de minhas confusões mentais, eu tinha poder e criava um mundo enevoado feito um império. Lindo, poderoso, demoníaco.
Chuva, confusão e loucura. Aquela noite, minha cabeça flutuava em mergulhos alucinados para uma dimensão cheia de trevas e dor. Eu transpirava, tinha visões e mirava meu anjo que voava em círculos pelo céu. Ele é amoroso e sobe até o espaço. Olha em sua volta e sorri. Abre os braços e incendeia as estrelas. Ele é assim, meu anjo é a morte e a chuva.

Animal de rua.

Um dia me vi sujo, sozinho. Não me lembrava de quem era ou de onde vim e para aonde ia. Precisei sentar e aprender tudo mais uma vez. Como uma criançinha indefesa. Tateei o mundo sem proteção. Mas aprendi a viver desse jeito. Quando perguntam minha idade, repondo que tenho oito anos. Eles não crêem. Isso não me incomoda. Esse é o tempo que conta a partir do dia que acordei aqui.
Hoje, minha vida é abundante em meio a tudo que é considerado lixo. Eu já não sei o que carregava dentro de mim. Não imagino como será meu amanhã. Vivo o presente. As pessoas que moram pelas ruas são um mistério que estou aprendendo a conhecer ao mesmo tempo em que me encontro comigo mesmo.
Gostei de ver os dias como me são agora. Sou abstrato aos olhos das pessoas limpas. Acostumei-me. É o que desejo e me cai bem, o podre e o abandono. Meus pensamentos são destilados na loucura. Tenho a impressão de que escolhi isso tudo. Mas não sei mais nada sobre meu passado. Isso ficou em algum lugar que não sei qual é.
O agora me agrada. Pela primeira vez em minha vida, estou vivendo de pedaços de papel onde escrevo coisas. Vou ao mesmo bar todas as noites, para ganhar algumas moedas do pessoal que enche a cara nas mesas. Entrego um poema, um conto, o que ganho me serve. É pouco para eles e muito para mim.
O dia é mais amarrado, ninguém tem um humor leve. Sei disso porque as pessoas não andam do meu lado na rua, a maioria vai para longe. Mas o tratamento melhora durante a noite, a droga e o álcool deixam o pessoal mais tranqüilo, interativo, então eles consomem o que escrevo, nem que seja por caridade.
Vivendo assim, nesse paraíso, passei a beber cachaça quente, no bico. Aprendi a aproveitar cada gole que raspa minha garganta. Aprecio porque sei que fazer isso dissolve algo em mim. Não sei se a bebida abate o bom ou o ruim, só o que sinto é uma mutação.
Com tudo que me é, fiz alguns amigos na rua. O mais engraçado deles, conheci no mesmo viaduto onde durmo até hoje. Seu nome é Lolo. Tinha dias que ele me contava que era um astronauta. Noutro ele competia na Fórmula 1. Às vezes era justiceiro. Mecânico. Médico. Policial. E até piloto de avião.
Já fazia um tempo que não via o Lolo. Por isso me surpreendi. Naquela manhã, o trânsito estava bem complicado. Assim que abri os olhos descobri os dedões dele perto de minhas fuças. Era o mesmo Lolo. Fedia como eu e como sempre.
Logo ouvi aquela gargalhada de fantasma. Característica dele.
- Como vai Andaré? – não sei por que ele me chamava assim, no entanto, não fazia diferença.
- Como as moscas – respondi e sorri – Aceita uma bala de menta?
- Obrigado. – esticou a mão e pegou.
- Como estão seus dentes?
- Assim. – escancarou os beiços e deu aquele sorriso que me deixou pasmo.
- Não se preocupe, logo os seus estarão assim também. E se tudo der certo, vai trabalhar comigo no shopping grande, ali do lado da praça da polícia. Saca?
- Claro, eu fico agradecido. – respondi.
- Educação é uma coisa boa. Coisa que o sorveteiro ali da esquina não tem. Não existe cadeira para sentar na sorveteria dele. Lá no shopping, a gente valoriza muito a educação dos funcionários.
- Claro. – concordei.
- O pessoal capota carros para que o seguro dê um novo. Correm como foguetes. Quando eu olho aqueles faróis eu fico cego. Quem dorme em viaduto tem sete vidas, igual gato. É por isso que sou importante para o exército nacional das forças unidas. Eu comando todos eles. E também mando nos carros porque sou o maior presidente de todo o shopping.
- Eu sei. Você é o cara.
- Me diga uma coisa. Bebeu muito ontem à noite?
- Bastante, tanto que apaguei. – confessei.
- Eu percebi. Tive de matar o monstro sozinho. Fiquei preocupado com o barulho das pedradas, eu não queria que você acordasse durante a confusão.
- Matou um monstro?
- Sim, matei sim. Ele usava uma gravata vermelha e um terno. Parou o carrão alado aqui do lado. Estava com um fósforo na mão. Eu cheguei bem na hora.
- Matou ele a pedradas...
- Foi.
- Me mostre o monstro.
- Os caras já o carregaram. Chegaram de ambulância e tudo. Aquela da cruz. Mas tem muito sangue ali. – disse, enquanto apontava para o outro lado da faixa que vizinhava com a parede do viaduto.
- Vamos até lá.
Levantamos. Lolo esticou o braço, abriu bem os dedos da mão e passou a gritar:
- Parado. Investigador. Investigador de polícia. - e os motoristas frearam, sobraram palavrões, mas conseguimos passar para o lado de lá. O Lolo imitou com perfeição.
Chegamos. Lolo mostrava com o indicador. Olhei para o chão e vi o concreto. Não havia nada ali.
- Viu só. Eu sou um ótimo caçador de monstros. Agora preciso ir. Está no meu turno. Vou trabalhar lá no cinema do shopping. Eles pagam um milhão pelo serviço. Preciso chegar logo.
Lolo foi embora e me deixou rindo, sozinho, sujo e com fome. Lembro que bebi cachaça para forrar o estômago. Eu sempre faço isso. Eu gosto de beber ao mesmo tempo em que como pão, mas nesse dia eu não tinha nenhum pedaço. Apodreci mais uma vez. E permaneci embriagado durante dias.
Acordei com o guarda que chutava minha perna. Contaram-me que Lolo foi atropelado. A polícia chegou até mim porque encontrou um conto meu no bolso dele. Queriam saber se era parente. Eu disse que sim. Inventei um nome, Andaré Santos. Ele vai ganhar uma placa com esse nome lá no cemitério. Ao menos não foi enterrado como indigente, e sei onde posso falar com ele durante as tardes de bebedeira.
O pessoal mais antigo, que dorme por aqui, diz que o Lolo foi taxista. E também, que ele bebia duas garrafas de uísque por dia enquanto dirigia. Um dia, ele se envolveu num acidente. Ele caía de bêbado aquela noite. Parece que aconteceu no mesmo lugar onde ele me disse que havia matado o monstro para me salvar. Segundo fiquei sabendo, esse desastre custou à vida de uma mãe e uma filha ainda de colo. Coitado do Lolo. Foi morto onde matou.
Eu continuo aqui, igual um animal de rua.

Uma noite com o Diabo.

Começou às 18h. Demorou até o dia começar a clariar.
- Olhe para mim, vagabundo.
Silêncio.
- Faça o que eu mando. – gritei ao mesmo tempo em que esbofeteava o porcaria.
Ele não falava. Permanecia quieto, apenas chorava, e não mostrava a mesma audácia que teve quando entrou em minha casa.
- Olha na minha cara, seu filho de uma égua. – batia nele sem parar.
Era a maior surra do mundo. Eu usava uma luva de couro na mão direita. Baixava o pau com os dedos esparramados. Atingia sempre na orelha. Eu queria estourar o tímpano daquele fedelho.
- Filma esse quarto apertado. Está vendo? – e enfiei um soco nas fuças do verme – Esse lugar foi construído pela mesma mão que te persegue. – e dei mais uma. – jorrou sangue.
Soluçava, chorava e babava sangue.
- Como é seu porcaria, perdeu a língua?
O cara se mijou nessa hora. Olhei nos olhos dele e gritei mais uma vez.
- Olhe as bolhas, esses calos em minha mão seu merda! Acordo sempre essa hora e vou trabalhar. Capino. Faço desenhos. Vendo quadros. Corto grama. Sou operador de máquinas agrícolas. Sabia? Um tipo grosso. Bronco, que ama e odeia na mesma proporção. Eu escrevo livros. Castro tourinhos. Transformo boi em boi mocho. Está com medo? Pois a chave desse quarto está em meu bolso. Vai ter de me matar para sair daqui. Nunca mais vai entrar em minha casa. Eu não dou a mínima para seus 17 anos. Está trancado comigo. Numa granja que fica 12 km da cidade. Nunca mais sairá daqui.
A partir daí bati ainda mais. Usava toda a minha força. Imaginava um saco de adubo com 50 kg. Procurava agir como se fosse isso que me separava do ladrãozinho. Nossa. Pela manhã do dia anterior, havia derrubado um tourinho de 250 kg e naquele momento, enfrentava um cara que pesava 30 kg quando estava molhado. Mesmo assim eu não tive piedade.
O guri balbuciou.
- Você é o Diabo?
- Sou. E você, quem é?
Às 6h ele morreu.

O duelo.

Dançava, olhava nos olhos e provocava suspiros. Seus quadris enlouqueciam qualquer um que freqüentasse o cabaré. As pernas mais gostosas que um homem pode desejar. Olhava e ela correspondia. Meu uísque estava pela metade e eu já me sentia alterado. Estava louco para beber um pouco e arranjar companhia.
Eu era sozinho, mas às vezes enchia da solidão. Como nunca tive paradeiro a minha casa ficava embaixo do meu chapéu e por isso vivia em cabarés. Um matador de aluguel anda muito e não conta com um amor bonito.
Havia passado dois dias no lombo de um cavalo cavalgando as terras mais secas que conheci para executar um homem. Na volta, parei para molhar a garganta e me apaixonei por ela.
O almofadinha que a bancava achou ruim que sua puta olhasse para um forasteiro como eu. Chegou ao balcão e me olhou nos olhos, “Cai fora palhaço”- foi rude. Revidei. Cuspi na cara dele e começou a quebradeira. Trocamos bons sopapos e acabei vencendo a luta. De quebra, levei a mulher dele.
Foi a melhor noite da minha vida. Quando amanheceu descemos para ganhar o mundo. O idiota estava lá no salão. Cheguei a rir quando encontrei com ele. “6h, em frente da igreja.” – falou o panaca. Virou as costas e saiu.
Sentamos no balcão e abrimos uma garrafa. Sempre gostei de uísque, era por isso que matava. Precisava de poucas coisas na vida. Beber era uma delas e custava dinheiro. Matava quem fosse para ter esse gosto na vida. E cada homem tinha um preço.
Faltavam 15min para o duelo.
Dei um beijo nela e atravessei a rua. Parei em frente ao sino da capela. Só faltava ele, que foi pontual. O tempo passou rápido. Quando o sino badalou, “Senhores, eu desejo que o diabo acompanhe aquele que partir. Em sinal de fé, escolham as armas” – disse o armeiro. “As facas.” – falei. Ele aceitou.
Foi rápido. Ele não tinha velocidade. Atingi o cara no esôfago. A faca atravessou o pescoço dele. Enquanto ele perdia a força nas pernas e despencava, eu o sustentava de mão pegada no cabo da faca. Assim que tocou o chão com seus joelhos, o deixei cair.
Fui embora acompanhado dela e da lembrança dos olhos dele.

O velho e o viajante.

Sentou na cadeira de balanço. Sentiu aquele vento de primavera. Olhava para o desenho da sombra no gramado. Respirava fraco. Passou por um inverno que foi intenso e cruel. O silêncio pesava. Elevou seu olhar para o horizonte. Avistou um cavaleiro que vestia ébano e montava um muar escuro e marchador que nunca ficava de cabeça baixa. O velho acompanhava tudo, mantendo seu olhar camuflado pela variação no declive do campo e o corte que a aba do seu chapéu fazia na paisagem. Subia uma poeira leve na estrada, por causa do trote do animal. Sacou a arma, apoiou a mão esquerda sobre o gatilho e calçou seu braço direito no da cadeira de balanço. Respirou fundo. O barulho das patas mostrava que o bicho era ferrado, porque estourava no cascalho da estrada. A montaria brilhava com o sol. No mesmo instante, empinou o animal bem em frente da porteira. A distância era muito longa para que o velhote pudesse disparar com precisão usando um revólver. O muar deu duas voltas inteiras e foi chamado nas rédeas. O cavaleiro sacou o rifle Winchester, apontou e disparou. A bala atingiu o olho esquerdo do velho, explodiu boa parte de sua cabeça e morreu no mestre da tapera. O silêncio rasgou o mundo e o viajante foi embora, buscar mais um.

Os versos do menino Abel.

Sua primeira morte foi aos oito anos. Usou uma jararaca. Escondeu dentro da mochila de um colega que zoava com ele. A picada aconteceu no polegar. Não houve tempo de salvá-lo. Abel sentiu muita felicidade. Só uma cabeça estranha como a dele para matar um desafeto com a intenção de trazê-lo para junto dele. Imaginava sua vítima com uma víbora em volta do braço. Dias depois, envenenou os doces da cantina da escola. Matou vinte e três pessoas. Muitos foram hospitalizados. Sua mente assustava. Customizou bombas, feitas com garrafas cheias de gasolina, estilhaços de ferro e um pavio, proeza germinada em um pedaço de pano. Tocou fogo em oito pessoas. Queimou casas e uma antiga igreja de madeira. Usava o recurso das sombras da noite para se ocultar e agir. Em cinco meses, foi implacável. Um período de perturbação descomunal, o rompante que desencadeou sua matança.
O Anjo Inocente, como ficou conhecido, surpreendeu a opinião pública pela sua crueldade. Confessou seus crimes e entregou-se para uma sucuri que pertencia ao seu padrasto. O velhote fazia parte daqueles que foram queimados pelo garoto. Antes de colocar a cabeça dentro da boca da cobra, Abel gravou um vídeo caseiro onde explicava tudo, também escreveu uma carta. Encerrou sua mensagem dizendo, “O paraíso é a companhia da morte”.
Seu diário, Diabo solto, é famoso pelos seus versos, “O que me instiga é me transformar, carregar o poder de um divisor de águas, criador da morte, vingador, sou príncipe da tristeza, minha melancolia faz com que renda-me para a morte”. Outro trecho, “A víbora é a clemência que merece, como meu inimigo, virá até mim para todo o sempre, brincaremos em meu mundo enquanto mandamos embora a solidão, seu prêmio de escravo é fazer-me feliz depois de morto comigo”. Abel foi uma criança letal. Um dia matou e também morreu.

Notas rápidas.

Olá. Estou aqui mais uma vez para agradecer aos meus tratadores. Como sempre digo, adoro a carne e o sangue podre com que vocês me tratam sempre. E nunca é redundante dizer que meus leitores são magos poderosos, eles pensam e acontece. E desse jeito vamos em frente, matando sem piedade.
Estou muito feliz, por que fui chamado para a Antologia de Contos Policiais - Assassinos S/A Volume II, da Editora Multifoco, a minha fiel editora, pela qual sinto muito orgulho.
Muito obrigado aos que depositam fé nesse autor que como sempre, tem muito para aprender. Aos matadores, meu apreço.
Acompanhem a lista de autores que dividirão comigo toda essa honra. Somos uma quadrilha que não hesita nunca.

Contos selecionados para Assassinos S/A – Volume II

A Chacina - Carolina Luz
Cinqüenta Minutos - Vivian H. Pizzinga
Clarisse - José Sérgio Bechler
Crimes no Paraíso - Roberto Kusiak
Margaridas no Céu - Afobório
Melhor Amigo - Fabiano Cisticerco
Nossa Senhora do Bom Parto - Plínio Gomes
Nove - Rob Martins
O Acerto de Contas - Bruno Borges
O Julgamento - George Ritter
O Multiplicador - Giselle Sato
O Bom Vizinho - Wilson Gorj
O Elo Perdido - Guilherme Lessa Bica
Reflexo - Israel Telles
Segundo Plano - Sidney Stadnik
Vlad Tepes VI - Roberto Kusiak
Ron - Yubertson Miranda
Todos Querem a Cabeça do “Compadre” Matias Reis - Wuldson Marcelo
Um Anjo Redentor - George dos Santos Pacheco
Uma Noite de Amor - Valdeci Garcia
Soldado Invernal - Jota Fox
Para Logo Recomeçar – Danielle Sousa
O Antipanegírico - Eduardo Miranda

Sorte, luz e sangue, sempre!

No meio do matagal.

O mormaço era grande e o cão ainda perambulava de um lado para outro. Ele sentia calor, por causa da temperatura e da sua intensa movimentação. Estava sempre com as orelhas de pé. Minha gata continuava deitada. Observei com maior cuidado e percebi que ela dormia calmamente. Um carro passou na rua e acordou a danada com o barulho dos pneus. Ela levantou e foi embora, enquanto que o cão latiu. Desde que a boca de craque aumentou o movimento, a rua tornou-se muito mais agitada e perigosa. Escutei conversas para além da grade. Seis viciados andavam pela calçada. O cachorro correu e latiu na beirada da cerca mais uma vez. Os garotos assustaram-se e permaneceram bem longe do cercado. O cão ficava nervoso o tempo inteiro e eu também. Acendi um crivo. O vento continuava e uma borboleta voava pelo meio do jardim. Ele latiu mais uma vez. Não queria saber de amigos. Permanecia cada vez mais raivoso. Veio para perto de mim e deitou com a boca escancarada de dentes. Acendi mais um cigarro no toco do outro.
O vento continuava soprando forte e desenhando com a fumaça. Respirei fundo. Rompeu o som de um martelo. Era no quintal de um vizinho. O pedreiro estava com pressa de acabar o serviço. Todos corriam para se proteger. Não ouvia as crianças brincando como antes do perigo do craque. Todos estavam com medo de surpreender um viciado, por isso ficavam dentro de suas casas. Olhei em minha volta e me vi sozinho. E o cachorro? Apreensão. Ouvi um barulho no quintal, ainda bem que era só uma lata correndo na calçada. Senti alívio. Mais barulho chegou lá da rua. O volume de transeuntes impressionava. Não conhecia a maioria deles, mas alguns eu vi crescer. Todos craqueiros. Passou mais um carro. O cão apareceu. Veio do fundo do quintal. Meus ouvidos identificavam o cantar de uma pomba que se misturava ao som dos pneus dos carros que passavam na rua e paravam no último barraco do beco sem saída. Ouvia o canário alimentar a sua família nos galhos da pitangueira no meio do meu quintal. O cão havia sumido mais uma vez.
Escutei gente passando na rua. Acendi outro cigarro e procurei o cachorro. Ouvi uma barulheira arranjada de latidos e gritos. O cão estava lá trás. Cheguei mais perto e vi um moleque caído no meio do matagal, bem lá na beira do muro. Estava coberto de feridas sobre seu corpo. Percebi que elas eram o saldo do consumo de craque. Não era meu amigo, mas o conhecia de, “aí, beleza.” O cão cheirava o defunto que faleceu de olhos arregalados. Estava carcomido entre o pescoço e o ombro direito. Os mosquitos decolavam do meio do capim e pousavam sobre o desgraçado. Senti um monte de coisas. Sentei no chão. O tempo passava pesado e devagar. Acendi mais um cigarro. Olhei para o pivete e o cão. Fiquei ainda mais triste, por que entre eu e ele, existia o craque e um cão feroz.

Medonho.

Ando em trevas e solidão.
Não carrego bondade.
Desconheço clemência e remissão.
Olho para a sombra desenhada no chão.
Encontro barras horizontais e verticais.
Escorre água pela parede cheia de mofo.
Escuto um morcego que canta em minha janela gradeada.
Respiro.
Ainda lá fora, nasce um disparo.
Será o guarda caçando um fugitivo?
Se for isso o atirador acertou.
Só os cães ladram no pátio.
Meu cotovelo passa frio na mesa de concreto.
Nenhuma porta abre ou fecha.
O cheiro é o mesmo.
Semana passada, quatro cortaram os pulsos.
Eu vi daqui.
A maioria é adicta.
Na falta de vítima atacam a si mesmos.
O mais jovenzinho olhou para mim enquanto cortava a própria garganta.
Fiquei tão excitado, se pudesse beberia aquele sangue.
Meu cigarro conta o tempo.
Uma barata sobe em meu prato.
Idiota e atrevida.
Sou rápido.
Seguro entre dois dedos e mastigo.
Sua armadura quebra em minhas presas.
Fecho os olhos e imagino carne humana.
E mesmo assim, a felicidade não vem.

Mais dois no mundo zero.

Amanheceu.
- Bom dia, mãe.
- Oi. – respondeu, enquanto beijava o rosto de Malaquias.
Os dois conversavam sentados na mesa, ao mesmo tempo em que o rapazinho servia-se de leite, pão e queijo. Estava atrasado para o cursinho.
- Promete que ficará bem, mãe?
- Não se preocupe meu filho.
- Certo. Antes do meio dia, estarei em casa.
- Tudo bem. Vá descansado, eu amo você.
Ele saiu. Ana vivia tristonha, desde que o marido foi morto por uma bala perdida. Ela o amava muito. Fazia cinco anos que lutava sem sucesso contra uma violenta depressão. Andava cansada de todas aquelas boletas que a deixavam sonolenta e zonza.
Astuta, planejou tudo. Embora soubesse da barbaridade que faria, achava que era a melhor saída. Ana foi até seu quarto. Abriu a gaveta. Pegou a pistola. Olhou no espelho. Andou até a sala.
Nesse momento, seu filho voltou, para buscar um livro que havia esquecido. Foi rápido. Entrou. Imediatamente ouviu o disparo e subiu as escadas. Viu a mãe caída na poltrona da sala. Pegou na mão dela e feitou um semblante atemorizante.
- Mãe...
- Meu filho; não quero vê-lo assim. Quem nasce; também morre. – foi o que aprendi com as palavras do padre, durante o velório de seu pai.
Silêncio.
Era tarde demais. Ana esvaiu-se. Os olhos da falecida mãe paralisaram ainda abertos, como duas bolas de gude em preto cintilante, estanhadas. Vibrantes num mundo zero. Bem no centro de seu globo ocular.
Seus cabelos brancos e encaracolados permaneciam ligeiramente esvoaçantes, por causa da brisa. Seu conjunto de lã, cor de areia, saia com casaco, combinava muito bem. Realçava a beleza de sua face pálida. Seus lábios eram lindos de tão mórbidos e leves. Sua feição comovia.
Malaquias chorava muito e não dizia uma palavra. A vidraça mostrava o jardim acabado. A grama era alta. As árvores feias e sem cuidado. Quem olhava, apostava que a casa estava abandonada. O capim fazia papel de flor.
O jovem percebia que a morte estava ali o tempo todo. A poeira sobre os móveis brilhava como pedrinhas de diamantes maldosos. Sentia o fim de suas forças. Via-se como um sem vida tinha muito tempo. Sua face era abastada de olheiras perpetuadas pelas preocupações e o abandono de um futuro feliz.
Dois dias depois, Malaquias fechou a cortina. Tomou a pistola em suas mãos. Olhou para a arma, em seguida para o cadáver da mãe. Criou coragem, respirou fundo. Era o fim de tudo. Atirou bem no meio do seu peito, copiando sua velha. Ele caiu no chão, bem ao lado dela. Correu muito sangue e brotou vermes para carcomer os dois que apodreceram juntos.

A vida que não vivi.

Meu compadre e grande amigo, Beto Canales, acaba de lançar seu primeiro livro solo, pela Editora Multifoco. O título é bastante inquietante, A vida que não vivi. A obra é feita com 18 contos do caralho de tão bons. Eu já tive a oportunidade de passar o olho em algumas dessas estórias, cara, é demais.
Então gente, vamos dar uma força. Quem puder comprar o livro, beleza. Quem for capaz de divulgar, maravilha. E quem conseguir fazer as duas coisas, melhor ainda.
Conheci esse autor na blogosfera, troquei comentários com ele e me inspirei nesse cara. Um exemplo de pessoa, uma referência como indivíduo. Gente, ele escreve muito bem e tem muito a dizer. Costumo falar que é um autor que promove consciência e muda o mundo, porra!
Então, clique no link lá em cima, chegue até o blog do autor, troque uma idéia com ele e manda brasa.

Recordações de uma guerra.

O homem ao meu lado punha a cabeça entre os joelhos e gritava. Seu queixo aberto deixava sua cara fina ainda mais alongada. Punha as mãos nas orelhas. Ouvíamos bombas. Não havia como acalmá-lo. Os foguetes estouravam cada vez mais perto. As metralhadoras cantavam sem parar. A gente sentia tudo tremulando. Quando os tanques passavam, dava muito medo.
Os gritos lá de fora ecoavam junto dos nossos aqui dentro. Não sabia quem estava vivo e quem estava morto. Permanecemos deitados, com as fuças rentes ao chão. Nossa caverna descia mais de cem metros para dentro da montanha. Os danados entraram atirando. Sorte que usei a sucata de uma cabine de tanque como abrigo. O lança-chamas carcomeu nosso pelotão inteiro.
A tropa inimiga foi embora e deixou um de sentinela. Senti o cheiro do desgraçado. Abrigou-se na trincheira da entrada. Devagar, sem temer, passo a passo, me aproximei. Era a hora. Deitei. Cheguei rastejando. Agarrei-o pela testa. Usei a mão direita e cortei na garganta. Foi tão bizarro que o cara mijava e cagava ao mesmo tempo em que morria.
Caiu em minha frente. Rolei o cadáver. Olhei nos olhos dele e acompanhei o seu sufocar. Era um garoto que não entendia nada da vida. Pensei em quantos sonhos ele tinha. Eu não sei quantos. A planície estava cheia de pedaços humanos. As explosões continuavam. Sentia a presença da pólvora. Olhava para os lados e tinha certeza de que minha única saída era lutar até o fim. Separei uma granada.
Naquele momento, decidi que eles jamais me pegariam vivo. Empunhei o rifle e marchei para a fortificação. Sentei no chão e abri meu cantil. Dei um gole de água. Acendi um cigarro e acomodei a arma no colo. O sol entrava e dava calor. Em poucos minutos, as moscas cobriram meu rosto. Esquivei-me para a penumbra. Corri os olhos e encontrei cinco soldados podres. Havia morte lá dentro e lá fora.

Punhal.

Confidente. Sei dele e ele de mim. Dois gumes lisos. Gélidos. Trinta centímetros cortantes. Capazes de retratar almas perdidas. Impossíveis de salvar de outra maneira. Cintila. A luz cega meus olhos.
Vivo. Bestial. Celestial. Guia meu espírito. Paranormal. Divisor de mundos. Dono da vida. Comandante da morte. Grande. Anjo de um último momento. Instantes de remissão ou condenação. Escolha. Milagreiro. Fascinante.
Maquiador de semblantes. Arrancou orelhas. Escavou faces. Ultrapassou corações. Deu fins para novos começos. Escalpelou. Mutilou. Deu medo. Trouxe sexo. Bebida. Dinheiro. Caminho livre pelos becos escuros e amargos.
Foi pincel sobre muitos corpos. Não serve Deus. Nem teme Demônio. Conquista-me. Faz amor. Forte. Belo. Alado. Como o céu durante as chamas. Passo sobre minha língua. Corta um pouco. É bom.

Selvagens.

Miava. Ouvi. Achei estranho. Espiei pela janela, sorri. O visitante rolava na grama. Sentia-se em casa, ao menos foi essa a impressão que me passou. Abri a porta. O danado correu para mim. Lambia-me, fazia graça e arranhava meu coturno com as garras.
Achei tão interessante aquele comportamento. Afaguei suas costas. Senti que o carinho foi apropriado. Gostei dele. Era selvagem, como eu. Parecia um rei. O tempo passava e a gente se entendia cada vez mais. Dava galinhas para ele comer. Mas ele tinha um apetite gigante. Tentei dar ração, muitas vezes, ele nunca gostou. A única coisa que comia era carne.
Com o tempo, percebi que o gato era um tanto quanto grande, comparado aos outros. Não parava de crescer e de comer cada vez mais. Eu aprendi a amá-lo. Suas patas eram fofas e gordas. Suas garras bem fortes, e os dentes eram enormes mesmo. Fiquei pensando sobre isso. Chamei um amigo que estava no último semestre de biologia.
- Oi, Tunder. Estou com um gato gigante no meio de minha sala. Preciso que venha dar uma olhada nele.
- Passo aí na tardinha. Pode ser?
- Claro. Até mais. Abraço.
Esperei. Ele chegou. Meu amigo se aproximou. O gatuno mostrou os dentes.
- Clama Rei! – foi o nome que dei a ele.
O bicho não atacou, mas manteve os pêlos ouriçados. Sentei ao lado dele. Tunder deu um passo para trás e ficou só olhando.
- Chegue mais perto, não tenha medo. – disse, enquanto segurava-o pela coleira.
Com jeito, veio. Levou a mão para acariciá-lo. Num primeiro momento, Rei mostrou os dentes de novo. Estava desconfiado.
- Rei. Obedece. – ele parecia entender-me.
- Há quanto tempo está com ele?
- Cinco meses.
- Pois, meu amigo, pasme. Não é exatamente um gato. É uma onça.
- Mesmo? Está brincando.
- Não estou. Quanto de comida dá para ele?
- Bem, normalmente, três galinhas inteiras a cada dia. Ele tem muita fome.
Tunder olhava admirado. Eu amei ainda mais a idéia de ser dono de uma onça. Graças ao mimetismo, parecia um gato gigante e negro. Ganhei uma lista enorme de cuidados que deveria ter com ele. Faceiro, abri uma garrafa de conhaque para comemorar. A gente se empolgou com a idéia. De repente, olhei para o lado e não encontrei o animal.
- Tunder, onde ele está?
Antes que respondesse, ouvi barulhos no pátio. Puxei a cortina e olhei para o gramado. Abocanhava o crânio de um homem. Corremos. Quando chegamos perto, o invasor não respirava. Ao seu lado, havia uma espingarda. Olhei para a porteira e vi uma caminhonete, com duas vacas na carroceria de boiadeiro. A gente se olhou e riu. Era só mais um desgraçado que foi embora. A última vez que um bandidinho de merda invadiu as minhas terras.
- Rei, vem cá.
Chegou perto e me lambeu. Por que os animais são assim mesmo, quando você cria vínculo com um deles, ele jamais te abandona. Tal qual eu e o Tunder.

Os crimes da limusine eram sepultados na masmorra.

(...)
- Entre. Uma dama não deve andar na chuva. – enquanto abria a porta.
Ela sorriu.
- Obrigada.
- Eu jamais deixaria uma mulher tão elegante a mercê de um temporal como esse. Embora não estejamos na França, isso não fica bem.
Abriu uma garrafa de vinho.
- É de uma safra excelente. – ao mesmo tempo em que mostrava.
- Acredito. Sou fascinada por vinhos.
- Gostaria de ver meus vinhais? – enquanto servia.
- Claro. Por que não? – ela empunhava o vinho em sinal de brinde.
A prostituta era experiente e gostava de fantasiar. Carregava a esperança de fazer um bom programa e ganhar uma boa nota. Em noites de chuva, o faturamento caía. Aquele homem era sua chance de compensar o prejuízo por conta do tempo.
Ele apertou um botão.
- Alfredo, siga para os vinhais do monte.
A mulher abriu sutilmente os dois primeiros botões do seu casaco longo, feito em couro marrom. Mostrou um pouco dos peitos. O barão percebeu.
- Gosta de jazz?
- Sim, muito.
Pegou o controle remoto. Colocou um som. A vadia cruzou as pernas, mostrando os joelhos e as botas finas. O homem olhou, bebeu. Como boa vagabunda, fez igual. Trocou as pernas, inverteu a posição. Abriu a guarda com exagero. Ele notou a falta da calçinha.
- Senhor, como é o nome da sua vinícola?
- Amor Montes Morte.
- Interessante.
- Penso que o vinho é como o amor. Um ser é capaz de loucuras quando ama, não acha?
- Sim, eu acredito nisso também.
Ela sentiu que subia. Via vultos de árvores na estrada. Mesmo no escuro, o prado era muito bonito. Notou que atingiram o alto de uma colina.
- Alfredo, espere minha ordem, ficaremos aqui.
- Veja como é lindo. – enquanto mostrava a paisagem.
Estavam diante de um portão gigante.
- Nunca fiz amor numa limusine em frente de um castelo. – disse a mulher.
Silêncio.
Tirou o casaco, só restaram suas botas. Sentou sobre ele. Em poucos minutos, os vidros embaçaram. A mulher descansava. Ele sacou a pistola de um compartimento ao lado do banco. Ela não percebeu. Foi um tiro mudo, na base do seio esquerdo. Sentido diagonal, de baixo para cima. Graças ao silenciador, foi perfeito. Ainda nu, deu o comando.
- Alfredo, entre.
Estacionaram na garagem. Vestiu suas roupas. Com a ajuda do motorista, retirou o corpo e jogou na antiga e profunda masmorra escura, embaixo do castelo, cheia de ratos enormes. Os danados avançaram e deram cabo dela em instantes.
Subiram a escadaria. No centro da sala, a última ordem.
- Alfredo, está dispensado.
(...)

Menino, eu leio a sua sorte.

Um dia quente e de vento frio. Eu tinha gosto de conhaque vagabundo na boca. Meu coturno parecia mais pesado que de costume. Andava e arrastava minh’alma com meus pés. Estranho, era um filme fantasma. Quando a vi, fui parado.
Só eu e ela na rua.
- Menino, eu leio a sua sorte.
Silêncio.
Era perfeito. Veio para mim como um anjo. Estendi a mão!
- Leia. – falei olhando nos olhos dela.
- Não!
Agarrei-a pelo punho e tomei sua mão. Brusco. Sem medo.
- Me larga!
- Agora vai ler.
O pavor estampava a cara da velha cigana. Ela tinha os cabelos caramelo. Combinava com os olhos claros e o rosto alongado. Coitada, teve medo. Percebeu que era sua única saída.
- Vejo que carrega sangue. É vazio por dentro. – respondeu, cheia de terror.
Puxou o braço, queria escapar. Segurei e apertei.
- Você vem comigo.
- O seu coração está cheio de dragões vermelhos, que mordem o tempo inteiro. Carcomem no seio de seu ódio.
Andamos até o bosque.
- Leia! – gritei.
Saquei a faca. A última coisa que leu.

Urubu de velório.

Freqüentava todos que podia. Usava preto, carregava um crucifixo no peito e uma bíblia na mão. Adorava as ladainhas, conhecia muitas delas. Chegava e fazia o sinal da cruz. Dava pêsames, abraçava e dizia que estava num estado de consternação profundo. Passava o tempo todo na volta do falecido. Acariciava a família, os amigos. Acendia velas e tratava de demonstrar atenção.
- Descanse Maria. – disse o homem.
- Não posso. Quero me despedir dele.
- Maria, me ouça. É madrugada, todos se foram. Venha, amanhã será um longo dia.
- Eu não posso, preciso ficar com o meu velho.
- Tenho toda a certeza de que ele gostaria que dormisse. As pessoas que amamos não desejam que a gente sofra por elas.
Silêncio.
- Vamos, venha comigo. – enquanto abraçava a viúva e a conduzia para o quarto.
A cama estava esticada e as janelas abertas.
- Vou fechar, a madrugada é fria. – disse o homem.
- Obrigada. – respondeu Maria, sobre a promessa de que ele a acordaria em uma ou duas horas.
Ela deitou. Ele ficou espiando pela fresta da porta. Quando percebeu que era o momento, entrou e se aproximou. Colocou o dedo perto das narinas. Sentiu segurança e prazer. Pegou o travesseiro ao lado dela, o mesmo em que o velhote dormia. Com as duas mãos, ele a sufocou. Em seguida, voltou para ao lado do caixão.
- A mãe conseguiu dormir? – perguntou o garoto.
- Sim, não se preocupe.
- Obrigado, eu nem sei como agradecer por tudo que está fazendo.
- Ora, é para isso que servem os amigos. Agora, preciso ir. Tenho de levar uma boiada para a pastagem de verão. Farei o possível para voltar a tempo do enterro.
- Tudo bem. E mais uma vez, obrigado.
O homem saiu, montou seu cavalo e sumiu no meio do campo. No dia seguinte, o garoto teve de enterrar o pai e a mãe. Muito abalado, olhou os dois lado a lado e pensou, até mais ver, meus amores.

Willy Pancas.

- Willy, as suas facas são lindas. – disse o amigo.
- Obrigado, sabia que elas ganham vida?
- É mesmo, como?
E aconteceu. Em poucos minutos, Joaquim estava morto e guardado no freezer. Willy adora bifes humanos. O assassino lavou as mãos e limpou o chão. Tomou um banho e foi para a cozinha. Acendeu a chama do fogão e deixou a frigideira esquentar. Adicionou óleo, orégano, alho moído e tempero misto. O cheiro invadiu o ar e as suas narinas em poucos minutos. Adicionou um pedaço do amigo e um pouco de sal.
A boca salivava. Para o pequeno Willy, comer carne humana era como a iluminação alcançada pela comunhão. Joaquim era bem macio, ao menos era o que as feições do canibal demonstravam enquanto ele comia. Os dentes de Willy rasgavam os pedaços do amigo com a ajuda das mãos engorduradas. A sensação era descomunal. A cada mordida o prazer era maior. Willy sentia um torpor que o invadia de um jeito forte.
O cheiro da carne e o prazer de morder causaram uma ereção no pequeno assassino. Willy quase não conseguiu terminar de comer, ficou doido por Joaquim. Engoliu rapidamente o resto da carne e abriu o freezer. Olhou para o corpo do amigo lá dentro e se excitou ainda mais.
Os olhos de Joaquim eram como duas jabuticabas pretas. Seus lábios eram grossos e o corpo dele era desprovido de pêlos. O morto tinha nove anos. Willy colocou o cadáver de bruços sobre a mesa e tentou uma penetração. Mas o frio enrijeceu a carne e não permitiu o ato. Foi quando Willy sentou no chão, ao lado da mesa e começou a chorar. Estava tão triste.
Olhou para o cadáver e disse:
- Você é um idiota Joaquim, está sempre estragando as nossas brincadeiras.
Depois devolveu o cadáver para o freezer. Quando a mãe de Willy chegou, encontrou o menino chorando compulsivamente.
Atenciosa e preocupada, indagou:
- Meu filho, o que houve?
- É o Joaquim, mãe.
- Fique calmo, explique tudo.
Willy confessou o que aconteceu. A mãe ficou chocada, e quando viu o menino no freezer, consternou-se de uma maneira incrível. Sem ter outra saída, entregou o filho. A polícia chegou e Willy foi levado para um manicômio judiciário de segurança máxima.
O rosto do menino canibal foi estampado em muitos jornais e revistas. A imprensa noticiou Willy como pancas. Daí surgiu o vulgo Willy Pancas. A criança mais temida que se tenha notícias. A mãe de Willy passou a beber compulsivamente. Perdeu o emprego e a dignidade. Tornou-se bêbada e amarga, não tomava banho, quase não comia e não se depilava. Ela perdeu a vontade de viver.
Em duas semanas como preso, matou dois agentes. Esses, ele mordeu na garganta, e nem mesmo as cacetadas o fizeram largar suas vítimas. Existe um demônio dentro dele. Carrega uma frieza no olhar tão grande, que parece ser desprovido de coração. Sua alma é negra e selvagem. Até hoje, sua mente é estudada. Os diagnósticos não são nada positivos, ele jamais ganhará a liberdade, por que é uma máquina de matar.
Isso tudo aconteceu tem dois anos. Hoje, Willy tem 12 anos. Não toma banho de sol. Não recebe visitas. Usa mordaça e algemas que agarram seus punhos e seus pés. Seu passatempo é desenhar suas mortes, dentro de uma cela de concreto. Confessou mais de quarenta e oito assassinatos.
A mãe de Willy não agüentou. Dias atrás, foi encontrada morta. A perícia revelou que ela consumiu uma grande quantidade de vodka e entrou no freezer. Morreu de frio. Quando avisaram o menino da partida de sua mãe, ele não disse nada. Willy é perverso, e quando ele olha para os guardas, os homens se afastam das grades.

Guardanapos.

- Fotografe a garganta.
- Mais uma então.
- Isso, capriche no enquadramento. – dizia o delegado, enquanto tentava ver o ajuste do ângulo para a foto.
Uma cena arrebatadora. Norma era a décima mulher encontrada nas redondezas. Tanto ela como as outras nove, estavam com a garganta dilacerada por duas perfurações enormes. Era como uma mordida de um vampiro. Os dois estavam exaustos. A dupla pensava e repensava, fotografava daqui e dali, e no final, chegavam a respostas que consideravam estapafúrdias. Ora, um vampiro. Como? De cabeça cheia, saíram do muquifo e viraram a esquina, cinco da tarde, sexta-feira. A entrada do bar era bem escura. O detetive parou de andar.
- Delegado Arruda. Olhe isso. – e apontou para o luminoso ao lado da porta de ferro.
Entraram. Os degraus levavam para as profundezas. Sisters Of Mercy rolando.
- O que achou do som?
- Ãh?
- O que achou do Sisters Of Mercy?
O delegado fez um sinal, como quem dizia, vamos para o balcão. Não entendo nada, por causa do volume alto. Arruda andava de um jeito tenso, enquanto que o detetive Alonso chacoalha o corpo, fazia gestos com as mãos e demonstrava muita satisfação, como quem dançava. Sentaram. Arruda pediu conhaque, e Alonso, uma vodka.
- Sistrers Of Mercy é muito bom. – disse Alonso.
- Eu prefiro tango.
- Eu sabia que ia gostar. Toca aqui, parceiro. – enquanto esticava a mão para um aperto. Prova de que o barulho atrapalhava o entendimento.
De repente, um careca sentou do outro ladro do balcão. Usava uma dupla de anéis pontiagudos e enormes, que imitava duas presas vampirescas. O delegado viu e disfarçou. Só podia ser ele. Precisava avisar Alonso. Olhou para os lados e não o viu. De repente, achou. Ele conversava com uma garota. Seus lábios estavam tão perto dos dela, que anunciava um beijo. Arruda nem teve tempo de ir até lá. Os dois engalfinharam-se de uma maneira, que o delegado preferiu olhar para o outro lado. A garota devia ter a idade de sua filha. Que absurdo! Pensou. Respirou fundo, bebeu e tratou de se concentrar no suspeito.
O homem fumava e bebia. Olhava para os lados e coçava as narinas. Agitado, ia e voltava do banheiro. Seus olhos estavam insanos. Careca, anéis vampirescos, cocaína, Norma, e mais nove mortes, sempre garotas. Pensou o delegado.
Alonso voltou entusiasmadíssimo.
- E aí, Arrudão. – enquanto segurava a garrafa e o cigarro com a mesma mão, mascava chiclete e dava demonstrações claras de bebedeira.
Arruda fez aquela cara de quem odiou a atitude.
- Essa é a Má. – ao mesmo tempo em que empurrava a garota para o lado do delegado.
Alonso bebeu mais um gole. Arruda usou o volume da música para disfarçar que não havia entendido. Um truque barato para não conversar com ela, mas que deu certo. Na sua idade, já não simpatizava com papos cheios de gírias e de revolução. A garota encostou-se no balcão. Ele correu os olhos em busca do suspeito. Num primeiro momento, levou um susto. Conferiu na direção do banheiro e viu o cara voltando, ainda mais louco que da última vez. Aliviou-se, por encontrá-lo.
Quando voltou a atenção para o detetive, a menina não estava mais ali. Alonso fez um sinal com os dedos, mostrando os cinco e depois fazendo mímica. Queria dizer que pagou cinqüenta paus para ganhar um boquete ligeirinho, ali no cantinho. Arruda entendeu, e voltou os olhos para o suspeito. A tal da Má estava lá, entregando cinqüenta paus na mão do careca. Devolveu o olhar para o detetive.
- Alonso, venha cá, chega perto.
- Eu nunca imaginei que você gostasse de Sisters Of Mercy.
Os dois não se entendiam mesmo. Arruda tinha de pensar rápido. Lembrou do guardanapo. Pegou um. Tomou a caneta do bolso e escreveu: “O careca ali, do outro lado do balcão. Viu quando ele chegou? Foi ele. Olhe para os anéis que ele usa, parecem presas. E só me responda por bilhetes.” O detetive ficou surpreso. Depois respondeu: “Esse é o meu parceiro. Boa! Como faremos para pegá-lo?” Naquele momento, Arruda teve muita presença de espírito e decidiu bem: “Vamos sair e esperar lá fora.” Alonso leu, e levantou. Os dois pagaram e saíram. Esconderam-se por entre as latas de lixo. Alonso levou uma cerveja quase cheia.
Já era escuro. Toda a área estava minada de prostitutas. Muitos traficantes e todo o tipo de elemento. De repente, o careca apareceu, segurava a Má pelo braço. Os dois discutiam. Foi um soco duro. Cravou os anéis em formato de presas no pescoço dela. A garota morreu na hora. Aconteceu tão rápido que Alonso e Arruda saltaram de arma em punho.
- Parado! Mãos na cabeça. – gritou o delegado Arruda.
O assassino correu em direção ao beco. Os dois perseguiram o matador até o prédio abandonado onde encontraram o corpo de Norma e das outras nove vítimas.
- Pare, ou eu atiro! – exclamou o delegado.
Que nada, continuou correndo.
Arruda já estava bem cansado, o peso da barriga e a idade o deixavam para trás, enquanto que, Alonso, mesmo bêbado, corria na frente, ainda segurando sua cerveja pela metade. O delegado parou. Estava sem ar, colocou as mãos sobre os joelhos para recuperar o fôlego. Quando devolveu seus olhos para a perseguição, percebeu que o careca era bom de corrida e pensou, ele não vai escapar. Sacou a ponto 40 e mandou bala. Foram três projéteis no meio das costas. O assassino caiu morto. Alonso continuou correndo e quando se aproximou do cara, começou a chutá-lo descontroladamente.
- Toma! Filho de uma puta. Seu merda.
Em seguida, secou a cerveja e arremessou a garrafa na cabeça do assassino. Fez um talho bem grande.
Arruda respirou fundo, fazendo cara de tédio. Depois disse:
- Jovens...
Em seguida, disparou três vezes para o céu.
- Chega! Pegamos o cara, Alonso.
O detetive olhou para o delegado e respondeu:
- Desculpe; parceiro! – deixando um sorriso, ao mesmo tempo em que imitava os disparos com a própria mão.
A dupla foi recebida com festa na DP. No meio da bagunça, apareceu um representante da corregedoria. Quando os homens se deram conta, o silêncio imperou. O clima ficou bem tenso. O engravatado se aproximou da dupla, olhou nos olhos de cada um e entregou um guardanapo para o delegado Arruda.
Fez uma cara de sério e disse:
- Leia.
Estava escrito: "Boa!"
E a comemoração voltou.

Diário de um amotinado.

- Senhor Willian, mantenha-se como deve, língua ereta e para fora. Não tolero amotinados em meu navio. Sabe que não tem saída. Ou enfrenta meu sabre, ou anda na prancha.
- Eu enfrentarei o sabre, capitão, para demonstrar meu arrependimento e minha lealdade revigorada.
Silêncio.
Os olhos estatelados do senhor Willian diziam tudo, e confirmavam seus pensamentos doloridos e febris, de um jeito quase incandescente. Os minutos que antecederam o castigo foram gulosos, carcomeram por dentro e fizeram sofrer, trouxeram temeridade. O capitão foi um tanto quanto bom, dentro de sua maldade, é claro. Por isso, usou toda a sua habilidade e acertou realmente a língua. Ele golpeou com tanta astúcia, que evitou uma mutilação maior e um sangramento superior ao desejado. Por que teve o punho firme, ávido.
Enquanto o sangue escorria, o capitão Bill sorriu - ao mesmo tempo em que segurava a língua do traidor fisgada na ponta do sabre e empunhava-o na direção do sol. A dor e o pavor criavam ondas pelo mar. Dava medo. Pobre senhor Willian, pois enquanto ele enfrentava o castigo, o timoneiro fumava cachimbo, bebia rum sentado na proa e assistia tudo, sempre aos beijos com a francesinha sacana.
Ela e as outras moças, trazidas da frança, permaneciam quietas, e cobriam suas bocas de terror. Miseráveis, maltrapilhas, e ainda lambuzadas no meio das pernas, por causa dos homens satisfeitos. Horripiladas, abriam o espartilho e colocavam os peitos para fora, em silêncio, como prova de respeito e lealdade. Era um jeito de viver. Nem elas esperavam aquilo. Afinal, um motim não era coisa de costume, ao menos não no navio do capitão Bill Legrand.
O convés era um lugar de putarias e maldades, guerras e sangue. Os marinheiros eram instrumentos, víboras da água, todos a serviço do grande capitão Bill, o mais sanguinário pirata da “France”. O mastro da caravela era enorme, e também era palco para o calvário do capturado senhor Willian - um exemplo para o restante da tripulação. O traidor estava sem a língua, tão desfigurado quanto o breu da escuridão. E perder a língua, significava perder além do paladar, era o fim com as francesas, por que elas apreciavam demais esse recurso sexual. Mesmo que escapasse, estaria preso a esse mal para sempre.
O timoneiro estava em alta conta com o capitão Bill, que retribuiu o delato com doze moedas de prata. “Um presente.”, como ele mesmo disse no momento em que entregou o agrado. O elo entre eles cresceu, o timoneiro tratou de vigiar pessoalmente o senhor Willian, até o final do desembarque. O sol brilhava, e os homens rolavam na areia de tanta felicidade. Mas o senhor Willian amargava acorrentado aos remos, no porão. Sua garganta estava quase entupida de tanta sobra de sangue e falta de água.
A caravela Donzela permaneceu ancorada por um mês. Foi uma longa espera. Por todo o tempo que permaneceu ali, aguardando a partida, senhor Willian só viu escravos. Não falou com ninguém, e sua única diversão foi trocar a bunda com os outros escravos. Nem rum, ele ganhou. Teve os piores pensamentos que podia, até que um dia, achou um toco de vela entre os remos. Surpreso, guardou-a na boca.
Assim que os homens voltaram para o barco e içaram as velas, ele passou a remar. Foram mais de duzentos quilômetros sem descanso em apoio à tração das velas. Certa vez, acordou assustado. Havia sonhado com o céu. Achou estranho, mas pensou que era só mais um pesadelo. Depois dessa noite, o senhor Willian passou a sonhar com um anjo que flamejava como o fogo. Após mil noites mal dormidas, ele entendeu. Acordou suado. Viu que todos dormiam, alcançou o lampião em chamas e acendeu a vela, deixando-a presa sobre o casco do navio. Por nove dias e noites, ele e toda a tripulação queimaram, fazia fumaça sobre a água, e fogo em direção ao céu.

Estância tristeza.

As corujas sobre os palanques da cerca vigiam a encruzilhada. Os eucaliptos abanam com o vento. O desenho da cruz esparrama quatro estradas. Os barrancos são cheios de cavernas. É a morada das sentinelas de que falei. Lá, o vento nunca cessa.
O antigo dono criava gado. Foi morto por um ladrão de bezerros. O criador dormia na sombra, sobre um pelego de ovelha. Levou um tiro dentro da orelha. Não teve chance. A viúva vendeu as terras. Por que teve só uma filha moça.
As duas foram para a cidade. Morreram de fome. O dinheiro acabou rápido. O comprador sabia da situação e se aproveitou. O lugar é tão pesado, que a madeira envelhece muito rápido. Quando uma tábua da casa é trocada, em menos de um mês, já fica cor de maravilha. Não adianta pintar o lugar. A tinta desaparece.
Dizem que é por que o antigo dono nunca pintou nada lá. Por isso, fica desse jeito. As pessoas têm medo de ir até essa estância. Por que o homem que foi morto aparece e corre atrás. O novo proprietário não tem para quem vender. Resolveu abandonar. Não se vive naquele fundo de campo.
A morte cobre aqueles pastos funestos. Ninguém entende como é que a grama cresce. Por que o sol nunca aparece. As pessoas que pisam aquele chão perdem os sentidos. A mente alucina, vêem coisas danadas e o sujeito morre.
O poder que existe lá é tão forte, que os audaciosos disparam pelo meio do pasto com medo do fantasma. Correm até morrer. É coisa mais feia de ver. Por que a veia do coração arrebenta e o corpo incha. O sangue parado é coisa muito feia. Aquelas corujas dão medo.

Suicida.

Depois da mina, só restava o conhaque. Bateu o cartão, tomou um banho para tirar o carvão do corpo e foi. Chegou na pequena venda e escolheu o litro mais barato, alguns salgados, dois maços de cigarro e tomou o rumo da cabana. O vento frio fazia par com a tempestade que se formava no céu. Apurou o passo.
Chegou e logo tirou as botas. Sentou na poltrona. Olhou para a lenha e acendeu a lareira. Em poucos minutos já chamuscava. Tomou o litro e serviu o copo. Secou num gole bruto. Olhava na volta e sentia tristeza. As peles de animais sobre o sofá rasgado rendeu a lembrança de Eva. Marejou os olhos, engoliu o choro. Prometeu que não lamentaria mais por ela. Completou o copo, secou num gole grosso. Depois arremessou contra a parede. A tábua marcou, por causa da pancada. Passou a mão no litro e mirou o fogo com os olhos. Viu o retrato sobre a lareira.
Levantou, pegou o maldito e jogou nas chamas. Bebeu mais um gole comprido. Sentou de volta na poltrona. Não pensava mais em coisas bonitas. Nem desejava felicidade. Aspirava sossego. De repente, ouviu um barulho. Imóvel, correu as janelas com os olhos de um jeito discreto. Viu a sombra passando. A 12 estava em frente, na parede.
Não havia muito tempo. Com a arma em punho, esperou. Bebia e fumava, sem mover um dedo. Estava ciente do que acontecia. Chamou mais um gole dos grandes. Com o litro apontado para o céu, viu a porta ser arrombada. O urso urrou e ficou em pé. Permaneceu sentado. Quando o invasor ficou nas quatro patas, sacou a espingarda e debulhou um tiro no meio dos olhos dele. O bicho caiu sem chance. A chuva começou. O tempo invadiu a cabana, e ele lá, sentado, em frente do animal tombado.
Via os relampejos rasgar o céu. Iguais aos cortes que Eva deixou em seu coração. Sorriu. Deu mais um gole que deu cabo do conhaque. Pegou uma lasca de lenha e atirou sobre o sofá. Incandesceu. Saiu. Andou até o abismo, olhou para o horizonte, depois para o fundo. Gritou e pulou.

Notas rápidas.

Lembram que falei para vocês, que vocês são mágicos?
São mesmo!
Os melhores e maiores leitores do mundo.
É graças a vocês que o Afobório está ganhando o espaço dele. Tenho certeza de que tudo que tenho, devo aos meus leitores.
Infelizmente, nem sempre consigo prestigiar a todos, vocês são tantos, e eu sou apenas um, mas sempre que posso, respondo e vou até vocês.
É por isso, que eu sempre agradeço por cada minuto que vocês passam nesse blog. E por tudo que fazem por mim.
Sou a força de meus tratadores. Ela entra em minhas entranhas e me deixa forte, imenso.
Há bastante tempo, eu disse: que o que mais importa é o leitor.
Isso é a mais pura verdade.
Ando trabalhando muito, isso é fantástico, muito bom mesmo.
Sempre aprendendo, e sempre tentando o melhor, com determinação e antes de tudo, com muita humildade.
Por isso, tenho uma ótima novidade. Estou lá na 3:AM Magazine Brasil, ao lado de autores grandes como os meus leitores.
Nomes fortes, que sempre me inspiraram.
Vale uma visita lá na 3:AM, tem muita coisa boa para ler.
Sorte, luz e sangue, sempre.

Mistério, uma noite feita de muita carniça.

- Entre no carro. Porco gordo. Filho de uma égua.
Silêncio.
- Perdeu a língua?
Silêncio.
Um disparo – o desgraçado morreu com uma bala dentro da boca.
Babava de tanta raiva. Sacudia a cabeça enquanto andava e fumava. Atirou no vidro de um restaurante que tinha o adesivo proibindo o cigarro. Seu descontrole assustava. Estava sem paciência. Já não reconhecia nenhum limite.
Era a vez da amante. Tocou o interfone.
- Oi. Quem é?
Silêncio.
- Oi. Quem é?
Silêncio.
Pareceu um simples engano.
Foi até o outro lado da rua e sentou na beira da calçada. Acendeu mais um cigarro. Fumava como um corvo. Era o fim de todos. A noite cheirava cabal. Não sabia quanto tempo teria de esperar. Não se importava com isso. Aquela noite vingar-se-ia. A vagabunda não tinha a menor chance. Passou uma. Duas. Três. Quatro horas e nada. A madrugada era fria. O vento parecia cantar de raiva.
Acabaram os cigarros.
- Droga. Merda!
Correu até o bar fedido da esquina. As prostitutas sentavam nas mesas e riam sem parar. Da porta, viu que a cozinheira estava ocupada e não havia ninguém no balcão. Entrou. Parou em frente ao caixa. Os homens nas mesas olharam e ficaram quietos. Um sujeito feio levantou e chegou perto.
- Boa noite, o que vai querer? – era o dono do boteco.
Apontou um maço. Não disse nada. Pagou e saiu sem pegar o troco. Ainda antes de cruzar a rua, acendeu mais um careta. A tragada foi tão funda, que quando a fumaça voltou, contaminou o ar de um jeito que parecia vinda do inferno. Sentou no mesmo lugar. Via os fumadores de pedra passando. Um deles atravessou a rua. Chegou perto.
- E aí, me vê um trocado.
Levou uma bala no meio do peito. Morreu na hora.
Acendeu outro cigarro. Sentou mais uma vez no mesmo lugar. As prostitutas passaram bêbadas pelo outro lado da rua, agarradas ao dono do bar que vendeu os cigarros. Dobraram a esquina e foram embora sem problemas. Nem perceberam. Estavam loucos.
Amanhecia. Começou a movimentação no prédio. Saiu o primeiro morador. O segundo. A terceira. De repente, ela. Nem olhou para o outro lado da rua. Quando virou, deu de cara com a arma. Foi um único tiro a queima roupa, bem no meio da cara. Guardou a pistola no casaco e saiu em direção ao centro.
Atravessou a praça e sumiu. Encontrou uma lanchonete aberta. Entrou. Pediu um pastel e um café preto. Comeu, depois bebeu o café. Pagou e saiu. Da calçada, atirou no vidro. Riu, e continuou disparando até estraçalhar tudo. Matou todo mundo que estava no balcão. Acendeu um cigarro e sentou no banco da praça, em frente da igreja. Enquanto isso, os pombos pousaram ao seu lado. Sorriu. Levantou e fugiu.

Cais.

Os amendoins do Nojento estão no final. Acho que eu também. Passei toda minha vida numa quitinete imunda e úmida na zona pobre da cidade. Meus livros esparramados pelo chão davam um toque especial para a decoração decadente. Sempre achei que a arrumação era uma perda de tempo. Afinal, quando se quer alguma coisa, é preciso encontrá-la, independente de qualquer coisa. Por isso, nunca me importei com onde deixava isso ou aquilo.
Importava-me com o Nojento, que passava boa parte do tempo no bolso de meu casaco, o que facilitava as coisas para mim. Ele é um bom companheiro. Foi por isso que aproveitei meu tempo comigo, com ele, com meus cigarros e meus sonhos. Não dei importância para a humanidade. Foi como cheguei até aqui.
Estranho em saber que tenho tuberculose por tanto tempo. Mais exíguo ainda, é pensar que até agora, ela nunca deu cabo de mim. O tratamento me deixa com o estômago torcido. Acho que essas idas e voltas para o coquetel me seguraram em pé, mas pioraram a situação ruim que já havia dentro de mim. Essa inconstância, sempre foi uma característica minha. A bebida e a vida me impediram de levar as coisas de um jeito muito sério, inclusive o tratamento.
A umidade e a poluição são um problema para pessoas como eu. Falo isso por causa da doença, não pela minha personalidade. Por esse ponto de vista, me seria perfeito. Minha podridão me foi boa até agora. Aliás, me sinto assim, podre desde pequeno. Não por que fui abandonado por minha família, mas por que nunca servi para ninguém, além do Nojento.
Ele sempre me aceitou como sou. Assim, com minhas roupas melecadas de catarro e cheias desse cheiro bem forte. Sempre escarrei atrás da porta, eu nem levantava para cuspir. Toda a vez que sentia aquele nódulo gosmento subir: puxava o catarro do fundo de meu pulmão e mandava brasa. Gostava de ver escorrer.
O Nojento amava quando eu fazia isso. Corria até lá e comia tudo que podia, desde os mais secos, até os mais viscosos. Interessante, o que me matava, ajudava o rato a se manter forte. Por muitas vezes pensei que minha tuberculose o destruiria, mas não, isso nunca aconteceu. Tomara que o diabo me responda algumas perguntas quando eu chegar lá embaixo e olhar nos olhos dele.
Ultimamente, andava mais cansado que o normal. Passei noites horríveis nos últimos meses. É ruim fechar os olhos e sentir que tudo está trancado. Virava o corpo o tempo todo para acomodar melhor o esqueleto e a dor nunca passou. É por isso que escolhi colocar um fim em tudo isso. Hoje, tem uma semana que eu e o Nojento estamos no cais. No dia em que decidi vir para cá, estava com o sopro dos anjos em meus ouvidos.
Vim por que me dou o direito de ver o sol, antes de ir. Não por que gosto dele, mas por que ele sempre ficou longe de mim. É por isso que quero olhar para o desgraçado antes de partir. O que acho mais engraçado, é que o Nojento não vai embora. O danado sai por aí e tal, mas sempre volta. O deixei para fora do bolso ainda ontem. Por que acho que ele está mais seguro assim. Um moribundo como eu, não tem o direito de manter um vivo tão leal como ele preso, até por que, estou na véspera de minha morte.
Ao menos quando eu morrer, o Nojento poderá partir sem problemas. Tudo que não quero é que o peso de meu braço o tranque dentro de meu bolso e o impeça de sair. Uma situação inusitada dessas pode até matá-lo. Eu acho. Ainda bem que já o soltei. Ele não só venceu a tuberculose, como também se alimentou dela. Morrer em meu bolso seria incoerente com o que o Nojento resistiu.
Desde que cheguei, morro um pouco por minuto. Minha respiração é cada vez mais fraca. Tenho a sensação de que meus olhos perdem o brilho a cada vez que mexem dentro de meu globo ocular. Isso é incrível. Desfalecer no cais, olhando o mar, sempre foi o meu desejo. Mas nunca foi meu gosto viver assim, tão mal. Ora por que usei o remédio, ora por que não usei. Ora por que bebi demais, ora por que comi de menos. Faz um tempo que me sinto morto. Nem sereno eu posso tomar.
Decidi esperar a chegada do verão para me entregar ao destino aqui no cais, e cá estou. Pelo que vomito, alguma coisa se agravou. Os transeuntes me olham com cara assustada como nunca notei. O Nojento sobe em mim e desce o tempo todo - e come o que regurgito - isso deixa os pedestres profundamente repugnados.
O Nojento é um macho adulto, tem um rabo enorme, pesa uns dois quilos. O encontrei num armazém abandonado tem seis anos. Desde esse dia, que nunca mais nos separamos. Pelo visto, ele gosta de mim. Isso até me emociona. Eu vim até o cais para morrer, e esse rato é o único que não me abandona, como os outros fizeram até hoje.
Ele não sente enjôo quando me olha aqui, sujo, fedido, ao contrário, transforma minha podridão em alimento e nobreza. Sei que a inanição e a rua agravarão meu quadro clínico até o fim. É por isso que vim, eu não podia desfalecer naquela caixa apertada. Enfrentar o mundo era o único jeito de ter certeza, de que eu veria o sol, e de que o Nojento não morreria trancado na quitinete.
Acho que depois de tudo que passamos, o Nojento merece viver. O cais tem muitos grãos, é um lugar excelente para ele. Essa é minha última carta e meu último feito, quando recolherem meu corpo, alguém pode ler isso que escrevi. É por isso que faço questão de dizer, que o mais importante da vida, é a hora da morte, nossa última chance. Adeus.

O sonho da bola.

O abacateiro ficava no meio daquele quadrado oco que formava o cortiço. As paredes de branco e as janelas de vermelho escuro, faziam um contraste bonito com o pátio bem varridinho. O tanque de lavar era gigante e coletivo. Bem ao lado dele havia um varal imenso. Um pouco mais adiante, os meninos corriam com a bola. Era incrível, por que existia esperança ali. Os moleques sonhavam em ser como Falcão ou Figueroa.
Enquanto a bola ia de um lado para o outro, Marcelo e Eduardo disputavam quem era o melhor. Um suando pelo time que usava camisa e o outro defendendo a equipe sem. Os garotos corriam descalços por entre o campo de terra, sem dar importância para a poeira e as pedrinhas no chão.
Marcelo marcava de bicicleta. Eduardo de três dedos. Marcelo passava de calcanhar. Eduardo aplicava um lençol. Era assim o tempo todo. A bola unia aquela cambada entusiasmada que só. O futebol era muito mais que diversão para eles, era também a chance de um amanhã melhor.
Mariana era a menina mais linda do lugar e sonhava em casar com um craque do futebol. A garotinha não perdia uma partida e marcava presença usando o mesmo vestido todos os sábados. Era branco e vermelho, cheio de rendas e babados. Para os moleques, ganhar o amor de Mariana era tão importante como vencer a pelada e se classificar no peneirão do Colorado. Os meninos estavam focados como gente grande. Queriam mudar de vida, viver com felicidade e fartura.
Quando Marcelo pegou a bola no campo de defesa, teve visão de jogo e fez um lançamento bonito, de uns vinte metros. O meia esquerda que recebeu o passe, matou a bola no peito e fez tabela com Marcelo, que chegava em velocidade, como homem de ligação pelo meio. Num toque só, deixou o marcador para trás. Seguiu até a linha de fundo e levantou a cabeça para observar o posicionamento dos companheiros. Era elegante o guri. Eduardo chegou quente, entrou com os dois pés e o cotovelo. Marcelo deu um tapinha na bola e saiu limpo da jogada. Ficou cara a cara com o gol. Ameaçou cruzar, passou o pé por cima da bola e com habilidade deu um gancho que encobriu o goleiro. O placar fechou em dez a nove.
Naquele momento, Eduardo ficou muito triste. Baixou os olhos e foi até a torneira, ele molhava o rosto enquanto gesticulava e mandava o time para aquele lugar. Quando terminou a bronca, subiu os olhos e flagrou Marcelo e Mariana se beijando. Sem dizer nada, foi para o outro lado do pátio e sentou. Marcelo e Mariana ficaram onde estavam; namorando. Mesmo de longe, Eduardo via tudo que acontecia. Marcelo acarinhava o cabelo de Mariana e fazia pose de vencedor. Era demais para Eduardo. Aquilo o corroia por dentro de um jeito que parecia que seu coração estava mergulhado em um ácido potente. Inconformado, Eduardo foi para casa.
Chegou, jogou o boné rasgado no chão e foi para o banho. Enquanto lavava o corpo, chorava de soluçar, mas fazia baixinho. Não queria que ninguém descobrisse que estava sofrendo. Perder a pelada também significava perder Mariana. Ainda bem que Eduardo sempre soube separar seu amor pelo primo do seu amor por Mariana. Assim que saiu do banheiro, deu de cara com sua mãe que já preparava o jantar, feijão e omelete.
- Eduardo, venha cá.
- Sim, mãe.
- Arrume a mesa, seu pai já deve chegar.
O menino obedeceu. Enquanto colocava a mesa, viu uma rosa num vasinho simples, desses do um e noventa e nove. Aquela imagem o consternou mais ainda. Estava sensível. Mas agüentou sem chorar. Serviu os pratos, os talheres e tudo. Quando terminou, sentou e ficou quieto, olhando para o pátio de terra, enquanto imaginava o Beira-Rio. Pensava em Mariana, chorava e procurava forças para o peneirão do Colorado, que aconteceria no próximo sábado. A mãe percebeu que algo estava errado.
Perguntou:
- O que houve contigo, Eduardo?
- Nada, mãe.
- Ora, deixa de bobagem, guri. Vamos lá, pode me contar o que é.
- Ah mãe, é coisa minha.
- Acho que você está apaixonado. Faz muito tempo que te vejo suspirando aí pelos cantos.
- Nada a ver. Estou pensando no peneirão.
- Está com medo?
- E eu lá sou de sentir medo, mãe.
- Ora, deixe de besteira, moleque. Todo mundo sente medo. Até o Figueroa e o Falcão.
- Mesmo?
- É claro. O Figueroa usava o cotovelo por isso. Tinha medo de falhar e entregar o gol para o adversário.
- E o Falcão, o que ele fazia quando tinha medo, mãe?
- Ele lançava logo a bola. Era rápido, para evitar que a defesa adversária se arrumasse e o Colorado perdesse o gol.
- Hummm. - fez o menino.
Eduardo já se sentia bem melhor. Sabia que precisava passar no peneirão. Era a única chance que tinha na vida e no amor. Seu pai chegou, eles jantaram e depois foram todos para a cama. No dia seguinte, a meninada se reuniu no pátio para mais uma pelada. O pessoal foi dividindo os times e tudo, mas o Marcelo não apareceu. Intrigada, a criançada correu para a casa dele. Quando chegaram lá, ficaram sabendo que o menino Marcelo teve um AVC e morreu dormindo. Todo mundo ficou sem jeito e muito triste, nem a pelada aconteceu. No velório, Mariana estava aborrecida que só. Eduardo ficou comovido e foi até ela. Em silêncio, não disse nada, apenas a abraçou com carinho.
Depois do enterro, Eduardo foi para casa e passou a semana toda concentrado. Pensando nas jogadas que faria. Como passaria a bola, e até imaginou como olharia para a cara dos outros meninos que encontraria no peneirão. Estava decidido. Rápido como o Falcão e aguerrido como o Figueroa, é assim que serei. - pensava o menino. Uma semana depois, Eduardo saía do cortiço de mão dada com seu pai, foi quando Mariana apareceu na janela. O garoto sorriu para ela e percebeu que a garota gostou. Ele precisava falar com ela antes de partir.
Soltou a mão de seu pai e parou em frente dela:
- Estou indo para o peneirão do Colorado lá de Porto Alegre. Se for aprovado, posso demorar muito tempo até voltar. Mas antes de ir, quero dizer que tenho um presente para você.
- E o que é?
- É isso. - disse o menino, enquanto a pegou pela mão e a conduziu até o seu coração.
Mariana sorriu. Ele também.
- Para mostrar que me ama de verdade, precisa voltar como um jogador de futebol. Para que possa me levar contigo e consiga criar a nossa família numa vida boa, diferente dessa aqui. Se fizer isso, seremos felizes para sempre. - disse a menina.
- Pode deixar Mariana. Vou passar no peneirão e ganhar muito dinheiro como jogador profissional. Depois eu volto para te buscar. Adeus.
O menino andou para junto de seu pai e foi com ele até a rodoviária.
Os dois se olharam, o homem chorou e o menino ficou quieto.
Foi quando Eduardo disse:
- Até a volta, pai.
- Até, meu filho. E juízo. Se espelhe sempre no Figueroa e no Falcão que tudo vai sair como deve.
- Pode deixar.
Os dois se abraçaram. De repente, o corpo de Eduardo pesou. O pai se assustou e olhou nos olhos do menino. Havia um furo na cabeça dele. Foi uma bala perdida. E o sonho da bola, acabou.

Bichos escrotos.

As paredes dos prédios antigos já não mantinham o reboco em toda a área que deveria. As grades enferrujadas e frágeis eram o lar das aranhas e o túmulo dos insetos. O passado e a decadência era parte do conjunto do bairro sem qualquer resto de futuro. Um lugar que abrigou os nojentos desde o tempo que surgiu.
As ruas eram tomadas por latas de lixo - tombadas - jornais, papéis, latinhas e papelão - esparramados, claro. Os gatos tomavam conta das ruas e volta e meia se via uma cadela com seus filhotes por entre aqueles becos, ou então um corpo. O lugar sempre carregou cheiro de sangue e mofo. O perigo que ronda a região é bem grande. A violência e a miséria sempre andam de mãos dadas, ao menos nesse lugar onde cresci. Aqui até os pequenos carregam maldade e desgraça nos olhos.
Eu acordava sempre por volta das nove da manhã e dava minha caminhada. Normalmente parava no bar do Boco para tomar um café. Sempre ganhava um. O dono da bodega dizia que gostava de ver um escritor decadente sentado no seu boteco sujo e cheio de moscas. Eu ocupava sempre a mesa capenga que ficava lá fora - no puxadinho do bar - e via muita coisa enquanto mirava aqui e ali. Recordo muito bem da primeira vez que ela apareceu, estava com a mesma cara sem vida de todas as manhãs.
Edna fumava e bebia conhaque na sacada. Usava calcinha negra, rendada e estraçalhada. Tinha celulites bem feias. Carregava os peitos mais caídos que vi. Iguais aos de quem nunca suspendeu os mamilos. Sua barriga de óvni era fruto do seu conhaque diário. Seus braços eram finos e compridos, cheios de cicatrizes. Sua cabeça grande era um detalhe vigoroso, por causa do corte de cabelo que usava. - curtinho. Uma figura bem sinistra se olhada de um ponto de vista sexual.
Mas a feiúra habitava o lugar. Por isso me acostumei logo a ver aquilo todas as manhãs. O marido de Edna era um gordinho gambá de primeira, viciado em azar. - a própria desgraça. Tudo que ganhava virava aposta perdida na mesa de sinuca, dados ou baralho, sempre no bar do Boco. O cara era sem sorte e bebia muito mais que eu e o dono da pocilga.
Um dia desses, estava sentado no bar do Boco, filando o café - de sempre - enquanto lia um jornal de dias atrás e ouvi aquele estrondo. O coberto de zinco saltou para cima e levantou aquela poeira grossa e preta de asfalto e merda. Até os pombos voaram do telhado. Algum tempo depois, Edna apareceu na sacada tal qual fazia diariamente. Fumava e bebia conhaque. Era feia como sempre e sem vergonha de mostrar aquele corpo sinistro. Continuei com meu café e o tal jornal, achei tudo tão normal. De repente, uma surpresa.
A patrulha chegou com quatro homens bem fortes e armados. Até revirei meus bolsos para conferir se não estava com nada em cima, por que apesar da criminalidade, a presença da lei nunca foi comum por aqui. Eles subiram as escadas. Houve uma gritaria, mirei a sacada e vi a prisão de Edna seminua.
Segundo a vizinha, foi um tiro no meio da testa. Pegou no frontal e sem cortar caminho atravessou as paredes até estourar o teto e espantar os pombos. - era calibre doze. Os dois brigavam assim como faziam sempre. Mas aquele dia, as coisas mudaram. Edna escolheu ser um leão. Dona Leal ouviu o começo do arranca-rabo e correu para acudir. Disse que quando chegou até o quartinho em frente, Aroldo já estava no chão, morto. A porta estava aberta.
A única ressalva de Edna foi essa:
- Chame alguém para limpar isso. - enquanto apontava para o cadáver do marido no chão e caminhava para a sacada de cigarro e litro na mão.
Ela conseguiu o testemunho da vizinhança, até o meu. A viúva foi solta. Provou legítima defesa. Dias depois, ganhei um boquete como agradecimento pelo meu depoimento. Sua boca é tão boa, que nem parece fazer parte de um corpo feio como aquele.

Sem ter para onde ir.

Rogério chegou suado, com sua mochila nas costas. Andava de lugar em lugar e vivia da venda dos livros que costurava com suas próprias mãos. Olhou para a porta da escola e viu as garotas com as pernas de fora. Bêbado, foi até a casinha de cachorro quente, pediu um e uma garrafa de conhaque vagabundo. Em poucos minutos estava de barriga cheia. Acendeu um cigarro e completou mais uma dose no copo de plástico antes de ir embora.
Cambaleante, cruzou a rua e tomou a calçada do colégio. Andava delirante por entre as meninas que o olhavam. Era sujo, mas era bonito, charmoso. Quando cursou seu olhar com o de Flávia, algo aconteceu, o viajante fisgou a menina. Ela o viu como interessante e não como vagabundo. Os cabelos desgrenhados, a barba por fazer, os olhos vermelhos, o jeans rasgado e todos aqueles colares artesanais chamaram a atenção dela.
Rogério sentou na esquina e esticou seu pano, depois o adornou com suas obras. Em pouco tempo todas as meninas estavam lá, inclusive Flávia. Conversa vai, conversa vem, algumas fumavam, outras pediam goles de conhaque, e algumas também fumavam e bebiam. Foi quando Flávia sentou ao lado dele.
- Você tem maconha?
- Tenho sim.
- Está a fim de fumar comigo?
- É claro, mas você vai perder a aula.
- Isso não tem importância.
- Está tão interessada assim nesse baseado?
- Também tenho interesse nele.
O garoto sorriu. Os dois saíram pela rua. A menina estava encantada. Rogério era diferente dos moleques de sua idade. Mais velho, carregava olhos maus e bonitos, falava com desenvoltura e contava estórias do arco da velha que a deixavam louca. Os dois sentaram na beira de um monte coberto de árvores. Ali fumaram alguns cigarros e beberam mais alguns goles de conhaque. Os risos eram freqüentes, e os dois tocavam um ao outro com aquele ar de, desculpa, foi por acaso. Tudo ia muito bem, ficaram íntimos rapidamente.
- Rogério; vamos subir até lá. – convidou Flávia, apontando o dedo para uma trilha por entre as árvores.
Assim que os dois subiram, Flávia empurrou Rogério contra o tronco de uma das árvores e o beijou. Era calor, as folhas e a terra sujavam aqueles corpos loucos como a dor. A menina gemia e contraía os músculos da vagina. Rogério estava louco e perfurava o vazio da garota com toda a sua força. Uma, duas, três, pausa para um cigarro. Os dois ainda deitados fumavam e riam, enquanto olhavam a copa das grandes árvores.
- Então, vamos fumar unzinho?
- É claro que sim, hã, me deixe ver aqui. – disse enquanto procurava no bolso. Um minuto só. - completou o garoto, ao mesmo tempo em que embolava o baseado.
Flávia estava com muita tosse.
- Hei, por que está assim?
- Ando fumando demais. Acho que é por que não estou feliz, ultimamente. A maconha é minha única saída. Gosto de fumar e ficar numa boa.
- Bem, não se pode viver feliz o tempo todo. E depois, não precisamos de felicidade, precisamos de liberdade.
- Acho que você está certo. Se bem que você anda pelo mundo, certamente não tem tempo para ficar triste, não é mesmo?
- Talvez. O fato é que minhas pernas e meus livros são a única coisa que tenho.
- Sente falta de alguma coisa.
- Não sei, mas gostei de estar com você.
- Eu também. Se pudesse não te deixaria partir nunca mais.
- Viria comigo?
- Como assim?
- Ora, iria embora comigo?
Os olhos da menina brilharam.
- Sim. Mas antes tenho de passar em casa e pegar algumas coisas.
- Não, isso não daria certo. Se quiser vir, tem de sair com o que tem. A gente se vira. E depois, não tem como você levar muita coisa nas costas, entende?
- Deve me achar uma idiota, insegura, não é mesmo?
Rogério ficou em silêncio e a beijou longamente. Flávia sentia-se nas nuvens como nunca. Estava louca. A barba crescida de Rogério roçava sua pele frágil e sua vagina lubrificava infinitamente. Em poucos minutos, treparam novamente. Extasiados, vestiram as roupas e desceram para a rua.
- Então, até um dia. – disse Rogério, que foi andando.
- Espera. Vou com você.
E os dois caminharam até a parada de ônibus. Passaram um dia inteiro viajando. Desceram numa cidadezinha na serra. Rogério a levou para um grande parque, que ficava um tanto quanto afastado do centro da cidade. O garoto montou a barraca rapidamente, enquanto Flávia olhava a vibração dos músculos dele. Assim que tudo ficou pronto, ela o agarrou mais uma vez. Ela queimava de desejo, quanto mais transava com Rogério, mais vontade tinha de deitar com ele e fazer as maiores loucuras. Coitada. Foi a primeira vez que deu a bunda.
Entre um baseado e outro, percebeu que Rogério olhava para o horizonte de um jeito distante, perdido.
- Parece triste. O que houve?
- Não foi nada.
- Rogério, não deve ter segredos comigo, ainda mais agora que estamos juntos.
- Prefiro ficar na minha, você não entenderia.
- Bem, se não contar, como faço para entender o que aconteceu?
- Tudo bem. Minha ex-namorada morreu aqui.
Flávia ficou vermelha, profundamente incomodada com o que ouviu, disfarçou o olhar e passou a mexer no cabelo. Enquanto isso, Rogério falava sem parar. Quando se deu conta, teve o tórax perfurado por um pino de apoio para a barraca. O garoto não teve chance, morreu ali mesmo.
- Filho de uma puta! Meu amor! Meu amor! Seu idiota! Fala comigo, porra! Viu só o que você fez? É tudo culpa sua, seu idiota! – gritava descontrolada, enquanto sacudia o cadáver do garoto.
Quando a polícia chegou, Flávia estava enforcada no galho da árvore que sombreava o corpo dos dois. A menina foi para casa dentro de um saco preto. Já Rogério, não tinha para onde ir.

Infiel.

A vida de um novo autor é dureza. Estava em dificuldades e minhas economias pela metade. Apelei. Fechei o negócio com um corretor de imóveis online. A casinha ficava numa cidadezinha que não exigia grandes rendimentos e me livrava do alto custo de vida na metrópole. Vi algumas fotos do casebre, paguei e mudei. Tomei o ônibus em menos de uma semana.
Embolei a garganta logo que Cheguei. A urbezinha exalava cheiro de poeira, o tempo dava a impressão de que não corria e tudo parecia morto. Até o sol estava sem vida por aquelas bandas. Olhei para os lados e vi aquele bar escuro, não havia ninguém atrás do balcão, acho que não existia um número suficiente de fregueses capaz de preocupar o responsável pelo atendimento. O guichê das passagens também estava vazio, acho que o fluxo de passageiros também não era aceitável para manter o atendente atento em seu posto.
O chão era sujo e o motorista do ônibus fazia cara de tédio enquanto esperava pelo horário de seguir. O cobrador desceu com calma para ver se havia alguma encomenda, foi a primeira vez que o vi tão lento desde que entrei naquele transporte, o cara parecia intoxicado por uma poção lerda, pesada. Quando o cobrador voltou, apresentei o bilhete e retirei minha bagagem. A terra era vermelha, grudava na barra da calça e na mochila.
Foi quando o ônibus partiu sem nenhum passageiro novo e sem nenhuma nova encomenda. O motorista e o cobrador pareciam aliviados pela partida. Fiquei olhando o ônibus sumir por entre a poeira que subia do chão. O vento era frio, não havia ninguém pela rua, era estranho, ainda mais para um homem que veio da agitação da cidade grande. O tempo estava emburrado, mesmo assim todo aquele marasmo me parecia exacerbado para uma sexta-feira de tarde. E depois, com ou sem ventania, todos precisam ir e vir o tempo todo e por vários motivos.
Minha garganta seca me provocava para que entrasse no bar, mas estava receoso, era tudo tão feio e abandonado que num primeiro momento hesitei. Permaneci parado por alguns instantes, estava na dúvida entre ir para meu novo lar ou esperar que o tempo decidisse o que queria, por que sempre odiei andar embaixo de chuva, por isso temia em me arriscar pela rua.
Olhei mais uma vez em volta e o vento me surpreendeu de novo, encheu minha garganta com aquela terra de que falei. O gosto de barro tomou conta de meu paladar, não havia outro jeito, por isso tive de entrar no bar. Vi a mulher sentada na mesa - quase imperceptível, por causa da penumbra que afrontava a grande porta lateral - com uma máquina de calcular bem ao lado de um calhamaço de dinheiro.
- Bom dia. - falei, meio sem jeito, tentando me fazer visível, depois de permanecer em pé ao lado dela por mais de 5 min.
Ela não respondeu.
- Oi. Preciso de uma água. - chamei novamente.
A gorda levantou calada, contornou o balcão e alcançou uma garrafa 600 ml.
- Dois reais. - foi o que ela disse, enquanto me olhava de olhos arregalados, como se visse um fantasma.
Paguei e tratei de sair logo dali. Afinal de contas, o comitê de boas vindas não foi agradável. O comportamento da mulher me aborreceu, pois a meu ver, uma terra santa deveria ter pessoas muito mais espirituosas. Talvez fosse por isso que o semblante do motorista e do cobrador era de alívio durante a partida. Quando coloquei o pé na rua, minhas costas doíam. Credo, que energia parada, pesada, porra, caralho, que coisa, fiquei pensando, tomara que isso tudo tenha sido apenas uma má impressão.
Acendi um cigarro e procurei um taxista, a ventania aumentava e o céu ameaçava despencar. Não achei. Bem, numa cidade vazia como aquela, a presença de um chofer era algo realmente improvável. Incomodado e conformado, respirei fundo e decidi correr o risco de chegar encharcado. A primeira tragada embolou com a terra e notei um rastro de fumaça em marrom com vermelho brotando de minhas ventas. O meu crivo vagabundo parecia ainda mais forte, por causa da mistura do alcatrão e a nicotina com aquela poeira que a refega esparramava.
Saquei o papel do bolso para conferir meu novo endereço. Andei algumas quadras e vi uma torre enorme, com mais de quarenta metros e uma grande igreja em frente de uma praça tão imensa quanto a tal da torre e a igreja. Um santuário gigante. Estranhei algo daquele tamanho em um lugar tão abandonado e pequeno, mesmo tendo a fama de terra santa.
De repente, um susto. Uma voz que parecia vir do além seqüestrou minha atenção. Era tão distante e tão fria que por um minuto achei que estava delirando. O recado vinha embalado numa música instrumental e fúnebre: “Comunicamos o falecimento de Pedro das Quantas, seu corpo será velado na capela mortuária a partir das 19h. Oremos por nossas almas e por essa que encomendamos ao céu. Amém.” A música foi baixando de volume e tudo silenciou.
Fiquei tão encafifado que me plantei pensando e admirando a torre gigante. Quando meu transe passou, olhei para a esquina e vi o número 666 no outro lado da rua, era ali, uma construção tão simpática quanto nas fotos que o corretor me enviou por e-mail. Sinal de que foi correto comigo. Estranhei que o portão estava aberto. Eu nem lembrava quando vi um portão sem cadeado na vida.
Adentrei com o pé direito, estava limpa, a mobília chegou intacta e foi disposta exatamente como indiquei aos homens responsáveis pela mudança. Ufa, já me sentia quase contente. Conferi as torneiras e jorrou água. Tomei um copo e percebi que era pura como eu jamais havia experimentado. Adorei. Bebi mais dois copos gigantes. Fui para o chuveiro. A poeira grudou em mim de um jeito que não havia saída. Foi o banho mais longo de toda minha vida.
Limpo, fui para a sala. Acendi um cigarro e abri as janelas. Entre uma tragada e outra, notei uma grande movimentação de carros. Pensei que fosse um bar do outro lado da rua. Tive a idéia de sacar meu litro de uísque da mochila, meu plano era encher a cara e depois sair para dar uma olhada no lugar e quem sabe descolar um corpo para me enroscar, já que a tempestade ficava só na ameaça.
Coloquei um DVD do Pink Floyd. Que maravilha, finalmente um pouco de diversão, pensava enquanto ouvia e via as crianças destruindo as carteiras escolares para depois rumarem para aquela máquina gigante que transformava os pestinhas em carne moída. Quando o relógio bateu 21h estava mais louco que nunca e fui para a rua. Percebi que os carros não paravam de chegar e se amontoavam na esquina, opa, me dei bem, pensei.
Assim que me aproximei notei que se tratava de um velório. Foi quando juntei uma coisa com a outra e deduzi que o lugar era o local anunciado pela tal voz misteriosa. Achei melhor voltar para casa. Entrei e fui direto para a cama, estava alto e desapontado, queria dormir para acordar pela manhã de humor e vigor renovados. Nem os sapatos eu tirei.
Acordei perto das 9h, o sol adentrava pela fresta da janela e avisava que o tempo estava ótimo. Ainda sonolento, tive a impressão de ouvir uma música católica. Saí da cama azedo, com a cabeça doendo, escarrei no chão e blasfemei. Joguei a culpa pelo azedume no uísque da noite passada e no despertar nojento. A boca estava com um gosto horrível. Acendi um cigarro e preparei meu café. Abri as janelas e a música soou ainda mais alta. Olhei para os lados e avistei uma porção de gente caminhando para a igreja. Foi quando me dei conta de que a torre da basílica interagia o tempo todo com os moradores do lugarzinho.
As pessoas que passavam pelo passeio me olhavam de um jeito estranho e não mostravam os dentes. Acho que meu visual chocava os caras. Era muito engraçado. De repente a música cessou, voltei para a cama e apaguei. Dormi até o final da tarde, quando despertei mais uma vez com o sistema de som da torre que avisava mais um recado: “Comunicamos que a missa em celebração da família será realizada amanhã, às 19h. Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo; dai-nos a paz. Amém.”
Fiquei roxo de raiva. Será que todos aqui são católicos? Pensei. Passei trinta dias nessa rotina, morria um por semana e a torre avisava. Os recados eram infinitos, nada de proveitoso era comunicado, ou era um falecimento ou uma celebração da igreja. O padre não calava a boca, estava sempre cheio de recados repetidos. E para piorar a situação, não conseguia escrever meus textos e enviá-los para os jornais e revistas que tinha compromisso. Meu editor havia ligado várias vezes, precisava concluir meu original de uma vez. Fiquei dias sem dormir para tentar escrever, mas toda hora que me acalmava e a inspiração voltava, surgia um daqueles recados lamentáveis, que me deixavam nervoso e sem inspiração novamente. Era um ciclo vicioso.
Pensei em matar o padre, sim por que era ele quem dava os recados incessantemente. No entanto, sabia que em poucos dias haveria um novo sacerdote na cidade e o problema voltaria, tinha de pensar em algo melhor, mas em quê? Até que veio uma idéia. Já sei! Preciso matar todos os católicos dessa cidade, desse jeito, esse serviço de alto-falante vai acabar pela falta de fiéis. Soltei uma gargalhada mórbida, tão gelada que cheguei ao ponto de me olhar no espelho e me impressionar com meu novo e estimulado semblante. Minhas feições eram insanas como nunca, mas o gosto de sangue que surgia em minha boca e os assassinatos que via eram divinais e provocavam uma reação muito boa em meu cérebro. Foi a primeira vez que o hediondo me gerou prazer, eu juro. Sinestesia mais que pura.
Precisava agir sozinho, por que se conseguisse um comparsa, ele poderia abrir a boca, caso fosse interrogado pela polícia. Eu não podia correr esse risco. Pensei mais um pouco e solucionei o impasse. Acessei a rede e comprei um filhote de cão pela internet. Ele faria o trabalho sujo. Só tinha de criá-lo isolado e depois soltá-lo na cidade. Acertei tudo rapidamente. Quando chegou, o tranquei dentro de uma caixa de madeira totalmente fechada, a única abertura ficava entre a base inferior da porta e o assoalho, nada maior que 10 cm. Eu não o via crescer e ele não me via alimentando-o com carne vermelha. Cinco meses depois, percebi as rosnadas vindas de dentro da tal caixa. O animal estava forte e insano. Era hora de libertá-lo.
Esperei a missa das 18h para soltar o cão. Quando percebi a movimentação em frente da igreja, fiquei ao lado da caixa e abri a porta. O danado saiu correndo exatamente como previ. Dava para ouvir os gritos na rua. Os dias seguiram cheios de ataques. Os recados que vinham da torre comunicavam a morte de pessoas estraçalhadas pelo animal. Aos poucos o caos tomou conta do lugar. O bicho era esperto e fugia para a mata depois de cada investida e transformava-se num caçador sanguinário e implacável. A população local se mobilizou, a prefeitura e a polícia, tudo em vão, o animal era uma máquina de matar.
A partir daí os recados me davam um gosto cada vez melhor na boca, e as imagens eram ainda mais fenomenais, eu nem me importava de ser acordado pelo alto-falante da torre. A sinestesia me era mais apetitosa que nunca. Enquanto as mortes aconteciam, minha inspiração voltou a toda e minha carreira profissional estabilizou novamente, por que eu transformava os ataques do cão em contos incríveis. Tudo com base nas sensações que sentia, misturadas com os recados do padre e as manchetes veiculadas pelo jornaleco do lugar.
Era uma pena ter de matar aquelas pessoas, mas o escritor dentro de mim não poderia morrer só por causa da fé católica. Em poucos dias, a população foi dizimada e o alto-falante finalmente perdeu a função. Daí para frente, decolei em meio ao perverso silêncio que se abateu sobre meus dias. A essa altura a sinestesia me era muito mais prazerosa que o sexo. Logo que enviei meu novo livro de contos, recebi uma posição.
Era meu editor do outro lado da linha:
- Alô.
- Carlos, seu novo livro de contos é tão malvado quanto funesto. Já está em fase de diagramação e logo será impresso. Até mais, amigo.
Desliguei e sorri macabramente. Foi o prazer mais impetuoso que senti. Naquele momento minha sinestesia era forte como a morte. De repente, ouvi um rosnar, era o amaldiçoado cão, que baixou as orelhas e veio até mim, deitou e lambeu meu coturno em sinal de devoção. A partir daí saí em odisséia pelo mundo, para promulgar minha literatura maldita. Seis meses depois estava gélido e maltrapilho, a pisar solos santos e carcomer carne católica, mas sempre, sempre ao lado de meu cão assassino. Um ministério arrebatador, sanguinário, perverso, prazeroso, infinitamente sinestésico e infiel.

O conselho.

Lucíola, minha querida, como vai? Escrevo por vários motivos importantes.
1. O plano está em andamento, conforme especificado em minha última carta. Nosso conluio não sofreu nenhuma alteração. Se pudesse, estaria feliz. Acredito que essa é uma notícia auspiciosa também para você. Contatei todos os membros do Conselho Morte, a receptividade foi massiva. A sua idéia de gerar assassinatos em massa foi vista como genial. Recebi várias cartas inflamadas, por sinal. Nossos membros estão ansiosos para começar. Todos os nomes atenderam prontamente ao chamado e estão cientes dos detalhes. Portanto, fique calma, tudo sairá como planejado. Ninguém agirá antes da hora.
2. Quanto ao assunto que me escreveu, a autorização está dada. A votação foi unânime. Os nossos votam pela cabeça dele, tal qual você pediu. Sei que você está ansiosa pela prole do desgraçado, contudo, o conselho decidiu que o ideal é que ele morra por outras mãos que não as suas. O motivo de nossa decisão é muito simples. A maioria do conselho teme que a sua ação possa reverter em uma temporada na solitária, isso não é bom para os nossos planos. Por isso, peça ao guri para que cuide dele, o guri não é uma peça central para nossas ações, mas você é. Acredito que as justificativas que apresentei são suficientes. E depois, os rebelados morrem. - como você sabe.
3. Aproveito a oportunidade para informar que o seu desafeto que veste preto já não bate martelo algum. A notícia da morte dele foi recebida com festa. O tal era uma pedra no sapato de muitos dos nossos, foi fácil dar cabo dele. É uma pena que não tenha acesso aos jornais, foi manchete de capa. Usamos uma naja, o maldito foi picado enquanto dirigia. Providenciarei um exemplar para lhe enviar. Por isso, fique atenta, quando receber maçãs enroladas em jornais, guarde o impresso, é a manchete falando do assunto.
4. Informo que o nosso candidato a membro do conselho foi nomeado essa semana. O pessoal da célula para onde ele foi transferido organizará uma rebelião em comemoração a chegada dele. Por isso, preste bem atenção, afinal, quero esclarecer tudo para evitar que você entre em ação antes da hora.
5. Também foi autorizada a quantia desejada para que você cuide do chefão aí. Cinco dos nossos conselheiros pedem por ele. Foi uma reivindicação aprovada por todos. E mais, o conselho pede que ele seja morto pelo nosso aliado de uniforme. Achamos que deve enchê-lo de cocaína, tal qual ele gosta, não precisa economizar com ele. Quanto mais louco estiver, mais coragem terá para fazer o que deve. E depois, dessa maneira não nos envolvemos nesse assunto. Entretanto, caso ele hesite, fique tranqüila, após o nosso grande plano, cuidaremos dele.
Sem mais, sorte, luz e sangue, sempre.

Jornais no parque.

Um homem precisa de inspiração sempre. Garoava e fazia muito frio. A fumaça do cigarro, do café e meu hálito quente misturavam-se no ar. O apartamento estava repleto de uma energia boreal. A serração e a chuva fina que o céu urinava davam um toque funesto que desesperançava meu cão interior. Vesti o casaco de couro, o jeans rasgado e o velho coturno de sempre. Respirei fundo, o ar frio abriu meu pulmão. Tive a impressão de que as gotículas de umidade que adentravam pelas minhas ventas congelavam dentro de meus alvéolos perdurados pela nicotina. A rua me recebeu com um vento insolente, cruzava enquanto raspava minha careca sem educação alguma. Tanto que a porta bateu e o vidro quebrou. Atravessei a praçinha sem graça e tomei o rumo do grande parque central da cidade.
Pelo caminho, a chuva fina desenhava riscos aguados em meu casaco ralado. O crivo respingado logo perdeu o filtro, quebrou entre meus dedos melecados da vida. Sentia que a escuridão me abençoava sem medo. As folhas no chão estavam amareladas, desidratadas pelo corte da seiva, pareciam comigo, sugadas. Meu espírito fantasma vagava devagar. Meus olhos murchos encaravam a paisagem com tudo que ela me dava. Os carros passavam como tartarugas no meio de uma grande confusão. Invadi o espaço mínimo entre eles e atravessei a avenida para chegar até o passeio. As pessoas estavam com seus guarda-chuvas nas mãos, encarangadas, enrugadas como o couro de um lagarto. Eu até sentiria pena, se pudesse.
Avistei a copa das árvores por entre os prédios, a imagem riscava um fundo verde escuro. Olhava o caminho por debaixo das marquises embolado como as ruas atravancadas de automóveis. Andava afastado dessa linha imaginária que a maioria preferia e sentia calor, tomando pingos na cara fechada. A ternura não me cai bem. Cheguei e fui até o banheiro. As merdas no chão e os rabiscos nas portas e nas paredes me deram de bel ver. Saquei o pau e urinei. Ah, que alívio. Subia fumaça do mictório congelado, parecia vapor.
Ganhei a porta e avistei o chafariz vazio de água e cheio de folhas de jornais desmontados e abandonados. Olhei o banco azul todo chuviscado e rumei para ele. Sentei e acendi um cigarro. Fiquei sentindo o vento que balançava os galhos e minhas idéias. Os caminhos por entre o parque estavam vazios como meu coração. A queda livre da temperatura fazia o termômetro eletrônico da calçada instável. A cada grau despencado o dia ficava mais interessante. Aos poucos o vento ganhava força. Como um guerreiro incansável, apoiado pela garoa constante que riscava a paisagem de fiapos brancos em fundos coloridos, de acordo com a parede mofada de cada construção.
Notei a presença do diabo. As folhas de jornais passaram a voar em bando, lentamente para o alto. Giravam em ciranda de criança triste como jamais vi. Fisgado pela imagem, afanei mais um crivo do maço amassado em meu bolso. Traguei e soltei um feixe vaporoso, fazia uma cor bonita em frente do preto e branco dos jornais endiabrados que bailavam antes do fundo que a cidade revelava. Era uma dança infinitamente tocante. Os jornais decolavam a partir do centro do chafariz como urubus, alguns partiam para longe, outros pousavam na galhada das árvores e mexiam com a força do vento num vai e vem sonolento.
O tempo fechou ainda mais. Os jornais ganharam ainda mais altura, por causa do vento que aumentava de velocidade a cada segundo. O bando tornava-se cada vez mais numeroso, estava abandonado por Deus e a mercê dos urubus que imaginava. Chegou o momento de o meu cigarro desfalecer, assim que joguei a butuca, a danada correu até a beira do esverdeado cisne de cimento que não cuspia água para encher o chafariz. Minhas meninas encontraram um sapato de camurça em tom amarelado, rebocado de barro na sola. Fiquei firme. Alguns minutos depois, já não havia mais jornais dentro do chafariz, pois todos eles ganharam vôo. Era o diabo espantando os sombrios. Foi quando mirei o centro do chafariz e encontrei o menino. Sangrava na garganta e os olhos dele permaneciam perdidos no sem fim, tão frio quanto o dia e sem nenhuma manchete sobre ele. Levantei sem reação em meu semblante, era hora de voltar e pintar um pouco.

Doce Janela.

Alfredo vivia na mansão que herdou do finado Barão. Uma propriedade belíssima, com mais de quatrocentos anos. A casa era enorme, de doze quartos repartidos como pequenos apartamentos, dormitório, sala, banheiro e um living. Todos eles com uma aconchegante lareira para quebrar o frio característico da serra, que permanecia imortalizado na construção de pedra. As paredes mediam mais de um metro e meio, praticamente uma rocha incrustada na montanha.
As oito salas principais eram amplas, dotadas de lareiras gigantescas e infinitas obras de arte, que adornavam as paredes e os móveis antigos e pesados. Os detalhes arquitetônicos e a decoração eram tão maravilhosos quanto os jardins que alimentavam as abelhas. A propriedade possuía um paisagismo elegante, que se misturava com a mata nativa e a fantástica construção. O verde tomava conta do lugar exuberantemente, cheio de flores e o mais gostoso mel.
Alfredo aprendeu a lidar com a apicultura ouvindo seu pai. Manteve boas colméias e evoluiu o manejo, conservou a descendência de seus enxames e conseguiu guardar o segredo do mel mais vendido no mundo. A propriedade abrigava livros com anotações desde os primórdios da atividade. Uma biblioteca quase infinita, cheia de detalhes tão preciosos quanto o ouro doce produzido por aquelas abelhas de linhagem real.
Alfredo costumava armazenar o mel em pequenos frascos e deixava-os sobre o parapeito das janelas da casa grande, para que o sol aprimorasse ainda mais aquele sabor tão açucarado. Mas Alfredo nada tinha de parecido com aquele mel, era avarento, amargo e não dividia nada.
Um dia, um menino pobre que passava pela estrada viu aqueles frascos descansando no sol. Ele lambeu os lábios e imaginou o gosto adocicado daquele mel. Naquele momento, sua língua produziu tanta saliva que encheu sua boca. A sensação era tão nobre que engoliu ao invés de cuspir. Ah! Pensava o menino, que delícia.
Foi quando andou até o grande portão e tocou o antigo sino de prata. Naquele momento, Alfredo transportava alguns vidros já aquecidos para o porão escuro, dizia que era o armazém perfeito para conservar todas as propriedades do magnífico Mel dos Anjos. - como era especificado no rótulo em forma de marca.
- Quem será? - indagou o velhote.
Subiu e quando conferiu pela janela viu o menino. Abriu a porta e foi até o portão enquanto fazia cara de ranzinha.
Assim que chegou, indagou ao pobre:
- O que deseja? Não tem trabalho aqui, moleque.
- Olá, senhor. Não quero trabalho. Gostaria apenas de um frasco de mel para matar minha fome.
Alfredo olhou para o ranho que escorria do nariz do menino, balançou a cabeça e perguntou:
- Sabe quanto custa um frasco desses?
- Não. Mas não estou interessado no valor do mel. Estou com fome.
- Mas se não tem dinheiro, como vai provar o mel?
- O senhor pode me dar um frasco, não é mesmo? Têm tantos sobre a janela que um não fará falta alguma.
Naquele momento, Alfredo sorriu, torceu os olhos e disse:
- Nem que todas as flores dessa propriedade secassem, daria um deles para você. Isso custa muito dinheiro.
- Nossa, é isso que sente? Prefere mesmo que as flores sequem? É uma escolha nada sábia, senhor.
- Vá embora e não apareça mais. - disse o avarento Alfredo, enquanto voltava para dentro de casa.
O menino sumiu estrada a fora. Quando a noite caiu, o tempo mudou e um frio tremendo e fora de época chegou repentinamente. Em poucas horas começou a nevar. Alfredo acendeu a lareira de uma das oito salas e serviu-se de leite quente, pão e mel, depois sentou em frente do fogo e comeu. Sonolento, decidiu dormir. Logo que deitou, ouviu passos pela casa.
Voltou até a sala onde estava e não viu ninguém. Teve a impressão de que era na cozinha, foi até lá, conferiu e também não encontrou ninguém. Voltou para o quarto e continuou ouvindo passos, dessa vez no corredor. Andou até lá e não viu ninguém novamente. Intrigado, pegou o revólver que fora de seu pai. Ele pensou, vou matar esse menino, deve ter invadido a casa a procura de mel.
Alfredo ia de um cômodo ao outro e nada. O tempo passava e o frio só aumentava. Voltou para a cama e puxou um enorme cobertor feito com lã de ovelha, mas o frio permanecia forte. Levantou mais uma vez, acendeu a lareira que ficava em frente da cama e sentou em frente do fogo.
Foi quando a labareda chamuscou com muito mais arrojo, ele ouviu uma voz:
- Alfredo, a fome e o frio lhe farão doente e sozinho até a morte.
Deu um pulo da poltrona.
- Quem está aí? - indagou.
E nada.
- Apareça, ou eu atiro. - ameaçou empunhando o revólver.
Mas o silêncio continuava. Disparou várias vezes para todos os lados. Mesmo assim, ninguém se manifestou. A situação era tão tensa que ele não dormia mais e continuava a ouvir passos e vozes por dias e noites sem fim. O sol nunca mais apareceu sobre sua propriedade, o gelo tomou conta de tudo. As flores secaram, o mel e o dinheiro acabaram. Pouco tempo depois, Alfredo passou a bater de portão em portão, mas nunca, nunca ganhou nada de ninguém. A fome e o frio lhe fizeram doente e sozinho até a morte, tal qual foi dito.

Chapéu branco.

Passei vinte dias caçando aqueles desgraçados. A mata era fechada e cheia de minas. Quando encontrei um lugar adequado, montei tocaia, estava bem próximo da base. Comi ração e algumas raízes que tinha na mochila. Racionei a água e superei o calor. Sentei num galho bem forte, a mais de quarenta metros do chão. Minha sorte foi que me acomodei numa trama enorme que formava um tridente cruzado e razoavelmente confortável. Quebrei alguns galhos e fiz uma cama, igual de bugio. Tive muito tempo para preparar tudo.
Nesse ponto, chegar com tanta antecedência foi muito bom. Quanto mais o tempo corria, mais homens surgiam. Era uma festa de recepção. O homem vinha para festejar. Coitado. O corrimão da escada até a varanda de entrada estava com uma fita vermelha bagaceira. Muitos homens armados de fuzis posicionaram-se em um corredor da morte. Meu único receio era a demora do maldito. As nuvens estavam grossas, o céu mostrava a cara de uma tempestade daquelas. Se chovesse, teria de esperar por um momento melhor. Enquanto esperava, usava a luneta do fuzil para olhar tudo que acontecia.
Às 14h ouvi o helicóptero. Quando desceu, alguns homens saíram e fizeram uma espécie de barreira para protegê-lo. O homem vestia casaco branco, gravata preta e chapéu também branco. Os soldados recepcionaram o visitante batendo continência, levantou poeira. Respirei fundo. Deixei o cigarro sobre um galho e me preparei. Foi recebido por um homem fardado, que depois de apertar a mão do convidado parou ao lado esquerdo dele, sacou a pistola e mirou o alto. Era chegado o momento. Ele deu o primeiro e disparei logo depois.
Atingi o alvo antes do terceiro disparo do idiota ao lado dele. Ninguém percebeu a minha posição. O alvejado perdeu as pernas e caiu brutalmente. Mirei o pescoço. Decepou a cabeça. O sangue que explodiu foi lindo. Os guardas disparavam para todos os lados. Quando perceberam, o chapéu branco estava no chão, vermelho de sangue e marrom de terra. Acendi um cigarro, dei um gole na água e agüentei mais dois dias em cima daquela merda de árvore, até os caras se acalmarem. Quando voltei, ganhei uma medalha que não faz diferença aqui dentro. É por isso que tudo na vida é uma questão de posição.

O invasor.

O homem cagava de porta aberta, enquanto fumava e bebia café preto sem açúcar. Toda a manhã era assim. Adonias vivia na companhia dessa liberdade que acompanha um homem sozinho como ele. E depois, cagar de porta aberta é o máximo que um cara pode merecer. A manhã era sagrada, um momento só dele, tão íntimo que aproveitava para ler um pouco.
Era como se a estória se tornasse muito mais atraente aquela hora, por que enquanto cagava, inspirava o cheiro que brotava de suas entranhas e não sentia falta do mundo lá fora. Aqueles minutos eram de prazer, ele ria como gostava e cagava, bastante.
Olhou para a basculante rasteira do chão e viu uma sombra. Levantou um olho desconfiado, mas quando ouviu o latido sossegou. Deveria ser o Tob, fazendo graça como sempre. – pensou. Relaxado, voltou para a leitura. Quando viu o quadrinho em que a cabeça do homem rolava no chão, ficou em êxtase. Nossa! E nossa! E que legal! - pensava ele.
Adonias tinha esse gosto pelo sombrio. Era fã do Gibi das Sombras, comprava todas as edições desde os tempos de menino e guardava para ler enquanto cagava, era assim desde aquela época. Era a sua mania. De repente, um novo barulho. Alguém contornava a casa. Epa! Acho que não é o Tob. – pensou.
Desconfiado, sacou o oitão do couto, conferiu o cilindro e fez cara de feliz, como quem não se importava e voltou a ler, deixando a arma em cima da banqueta ao lado. Em poucos minutos riu de novo. Os olhos brilhavam com aquelas personagens magníficas e perversas que encontrava a cada novo quadro.
De repente, ouviu passos mais uma vez, alguém descia para o porão. Quem será? - pensou. Foi quando apagou o cigarro no suporte para o sabonete que usava de cinzeiro todas as manhãs. Raspou o cu peludo com um grande pedaço de papel higiênico e subiu as calças em dois puxões, como se acomodasse a barriga. Ele balançou a cabeça e fez cara de maldoso. Depois foi para a pia e molhou a cara.
Enquanto isso, os passos soavam mais perto que nunca. A impressão que tinha era de que o invasor caminhava com medo. Por que os passos eram lentos, cautelosos até. Nessa hora olhou para o espelho e viu a própria cara lambida com aquelas gotas de água que escorriam pela sua face como se fosse uma cachoeira. Nesse momento, Adonias se enfureceu. Quem poderia perturbar um momento desses? – pensou.
Depois, resmungou baixinho, como se falasse com ele mesmo:
- Vou te matar, seu merda. Vai se arrepender como nunca aconteceu em sua vida. – enquanto isso, seus olhos acenderam como brasa.
Sacou o revolver, beijou a arma e parou ao lado da porta. Os passos voltaram a soar. O invasor estava bem próximo. Respirou fundo e acomodou o dedo no gatilho, deixando o berro encostado no próprio rosto e apontado para cima.
Era chegada a hora do vamos ver. – pensou. A luz refletiu a sombra na porta. O desconhecido usava um casaco longo, até os joelhos. A silhueta da mão direita mostrava que o desgraçado segurava algo, como um bastão de basebol. Esperou mais um pouco. Queria investir no momento certo, que era para não dar chance.
No segundo seguinte, um sapato preto avançou pela porta. Foi um tiro certeiro, bem na nuca. O sangue explodiu até o teto. Os miolos pareciam lesmas esparramadas pelo chão úmido por causa do frio. Depois que disparou, recolheu a arma para junto do rosto mais uma vez. Precisava ter certeza de que não havia mais ninguém ali.
Passaram-se alguns segundos e nada. Respirou fundo de novo e saltou para a porta, como se fosse um soldado que avaliava o campo de combate. O porão estava vazio. Rodou o corpo trezentos e sessenta graus e mirou o interior do banheiro ao mesmo tempo em que conferia a basculante.
Viu o focinho de Tob do outro lado do vidro e se sentiu aliviado. Adonias gostava do cachorro. Olhou para o morto e deu mais dois passos até o corpo caído no chão. Com o pé direito, virou o cadáver empunhando a arma para ele. Queria ter certeza de que havia despachado o maldito.
Logo que o corpo completou o giro, Adonias riu:
- Bem feito, pilantra. - e disparou mais uma vez, só para ter certeza de novo.

Roda de Fogo.

Os rituais começavam nas noites de lua crescente e findavam ao término da lua cheia. O grupo era de adoração e ajuda mútua, crença na mãe e no pai. Os jovens eram escritores, acreditavam que permanecer fiel aos astros originava uma energia que transformava estórias em realidade, conforme as linhas que anotavam e aquilo que sentiam.
Durante o dia, cada um deles sentava ao sol e lia o que escrevia em voz baixa, sozinho. Durante a noite, reuniam-se na floresta, faziam uma grande fogueira e sentavam na volta dela. Nesse momento, cada um lia a sua estória mais uma vez, sempre em silêncio, depois ateavam o manuscrito nas chamas para que a fertilização do embrião desejado fosse em frente.
Quando a lenha findava, as cinzas eram repartidas em várias urnas. Cada escritor pegava um punhado dela com a mão direita. As mulheres lançavam na água e os homens ao pé das árvores. Sempre de acordo com o ponto escolhido por cada um, fosse homem, ou mulher. Isso por que, cada membro tinha um lugar só dele, especial, um refúgio que resguardava a energia do seu espírito, onde as cinzas deveriam ser depositadas.
Para evitar que esse poder fosse usado de forma indevida, era escolhida uma Madre e um Grão Mestre. Cabia a qualquer um deles, cortar uma parte de seu corpo e pingar o seu sangue no seu templo individual, lá onde residia a sua energia, caso fosse preciso deter o mal. Dessa forma os cães do bem e do mal permaneciam calmos no mundo e dentro de cada um também.
Um dia, o Grão Mestre conheceu uma garota. Foi tudo muito natural e jovial. O encontro dos dois aconteceu assim. O jovem corria pelo meio do gramado do campus da universidade, estava atrasado para a aula. Em velocidade, cruzou o chafariz, saltou sobre a cerca viva e quando virou no canto do prédio, esbarrou em Ágata. Foi uma confusão, os livros misturaram-se no chão, e o café que a moça segurava caiu sobre os escritos. Atelópodes ficou embaraçado e convidou para um café, numa tentativa de remediar-se com ela.
Durante a conversa, Atelópodes parecia mergulhar naqueles olhos tão lindos e flutuar com aquele perfume delicioso. Veio o segundo, o terceiro e no quarto, os dois acabaram na cama. Aconteceu no apartamento dela. Os jovens liam escritos de um para o outro quando ocorreu o primeiro beijo e os dois prenderam-se um ao outro.
Algum tempo depois, Atelópodes contou a respeito da Roda de Fogo. Ela achou infinitamente interessante. Foi apresentada e entrou para o grupo, tudo conforme mandava o ritual. Os escritos dela eram magníficos. Todos apreciavam por demais. Com o tempo, Ágata assumiu o cargo de Madre e o poder ficou concentrado nas mãos do casal.
Um dia, Ágata conheceu um professor muito charmoso e dormiu com ele depois de um pileque. A partir daí começaram os problemas entre Ágata e Atelópodes, o sexo não acontecia, as brigas desabrocharam e a mesquinhez e a desconfiança surgiu entre eles.
Muito enciumado, Atelópodes traiu Ágata, tal qual ela fez. Aconteceu com uma garota que conheceu num bar, também de pileque. No dia seguinte, Ágata foi sem avisar até o apartamento do namorado, pegou os dois ainda na cama. Foi uma folia, arranhões, palavrões, uma baixaria. Ágata pegou suas coisas e saiu dizendo que jamais voltaria.
Os dois permaneceram dois dias sem contato, depois conversaram e resolveram tudo. Foi decidido que o melhor a fazer era terminar o relacionamento. Tudo parecia muito bem e o aparente desfecho tranqüilizou todos os membros do grupo, pois acreditavam que a harmonia voltara para o seio da Roda de Fogo.
Mas tudo não passava de um plano horrendo. Ágata pretendia se vingar. Por isso, escreveu uma estória terrível. A qual contava que os espíritos subterrâneos viriam para a terra em forma de sombras e assassinariam todos os membros da Roda de Fogo.
Ninguém soube explicar aquela onda de crimes. Atelópodes jamais pensou que se tratasse de uma nova traição de Ágata, e foi um dos primeiros a morrer pelas armações das sombras vindas do fundo da terra. Só restou Ágata, que assumiu o papel de Madre e Grão Mestre também.
A partir daí, tornou-se alvo das sombras que ela mesma invocou. E a sua vida tornou-se um inferno. Aconteciam coisas malucas, o chuveiro dava choque, as portas prendiam o seu dedo, sofreu um acidente de trânsito muito sério, enfim, uma avalanche de infortúnios. Tudo obra das malditas entidades.
Ágata arrependeu-se, mas aquela altura, já não tinha mais com quem contar, sentia-se frágil e profundamente triste. Como remanescente do grupo Roda de Fogo, e detentora de todo o poder, pegou uma faca e cortou o próprio pulso, no exato lugar em que escolheu como seu templo individual, tal qual rezava a profecia para banir o mal.
Mas o corte foi profundo demais. Ágata sofreu uma hemorragia e morreu ali, esvaída. Olhando seu sangue pingar. Sorte que antes de cortar o pulso, escreveu uma estória, onde o bem e o mal se perdiam no fundo de um lago cor de sangue. Depois queimou o manuscrito e jogou as cinzas ali, no seu lugar, no seu lago, tal qual era preciso. E desde esse dia, o templo individual de Ágata tornou-se o coração do mundo, o único lugar onde repousa a luz e a escuridão sem brigas ou tempestades.

A Fazenda das Rosas.

A notícia da herança chegou de surpresa. A carta foi um misto de tristeza e oportunidade. Julia não saía mais com as amigas por falta de dinheiro. Andava entediada e concordou com a mudança. Achava que era uma oportunidade mesmo para ela. Levaria uma vida mais amena no campo e poderia estudar quando tudo serenasse.
Maria, sua mãe, também pensava que era o melhor a fazer. Guilhermina nunca foi flor que se cheire, como dizem por aí, mas a herança parecia uma reparação pelos maus tratos de antigamente. Ela viveu muitos anos com a tia. Depois que sua mãe faleceu de tuberculose. Guilhermina era a parenta mais próxima. A única em condições financeiras para assumir sua guarda.
O retorno era a única saída, mais uma vez. A relojoaria de Paulo, seu esposo, era inviável, os relógios muito antigos e de grande valor. Com a crise, as vendas estavam baixíssimas. O aluguel da sala comercial estava atrasado. O preço da alimentação pela hora da morte. As dificuldades cresciam.
Mudaram em poucos dias. Deram adeus aos amigos. Entregaram as mercadorias da relojoaria como pagamento aos credores e tomaram o caminho da Fazenda das Rosas. No dia da partida, fazia muito frio pela manhã. A vida é assim mesmo, a desgraça de um é a sorte do outro.
Paulo nunca cuidou de ovelhas, mas sabia que contava com a ajuda da família e dos empregados. A propriedade abrigava mais de três mil matrizes. Os campos eram gramados em sua maioria. A realidade financeira muito boa. Toda a produção era aproveitada. A lã, a carne, o sêmen dos machos, as crias e as fêmeas de excelente qualidade. Estava tudo pronto, era só tocar em frente.
Enquanto cortavam a estrada, o rádio embalava a viagem. A região era linda, e o clima ficou mais leve. Surgiram algumas brincadeiras e sorrisos durante o percurso. As ondulações do terreno e as infinitas planícies ao pé das elevações mostravam um verde exuberante. Enchia os olhos de qualquer um e regava a esperança.
Quando se aproximaram da porteira, Paulo parou o carro no alto de uma coxilha. A visão era mais magnífica ainda. A entrada era coberta por roseiras vermelhas. Um mar de beleza. Encantaria qualquer um, fosse desalmado ou perdedor.
- Que coisa mais linda. Eu nunca vi isso antes. – Julia não conteve a emoção e quebrou o silêncio.
- Eu tenho de admitir, é muito mais bonita do que eu imaginava. O que me diz Maria? – falou o marido.
- Parece que foi ontem que saí daqui.
Assim que chegaram até a sede, o capataz João veio receber os herdeiros:
- Bom dia, minha gente. Vamos chegando.
Entre uma taça de vinho e outra, Paulo acertou tudo com seu João e acalmou-se mais ainda. O capataz era um homem atento e um excelente administrador.
- Dona Guilhermina se amargurou demais quando perdeu a filha queimada. Uma brasa do fogão caiu no umbigo da criança. Sua tia passou a vida inteira muito doente. Alguns fofoqueiros diziam que ela foi possuída pelo espírito da filha que não vingou. Coisa de gente maldosa. Quando dona Guilhermina engravidou, ficou mal falada na região e nunca conseguiu casamento. Eu me lembro das brigas com a sua esposa, quando dona Maria era uma garotinha. Mas fazer o quê, não é mesmo? Passado é passado. E precisamos tocar a vida para frente. Por isso, fique descansado, pode contar comigo sempre. – remendou no final.
- Obrigado João. Agradeço por tudo. O salário fica como combinado. Mantenha-me informado sobre tudo.
- Pode deixar patrão, se está com o João, está em boas mãos. Agora, com sua licença, tenho muito para fazer. Passar bem. – enquanto colocava o chapéu.
Saiu. Julia interveio:
- Gostei dele. Parece um homem honesto. Fiel e muito trabalhador.
- Ele sempre foi ótimo. Entende tudo de ovelhas! – exclamou Maria.
- Eu também senti firmeza no homem. – concordou o marido.
Anoiteceu, estavam exaustos por causa da viagem. A casa um tanto quanto empoeirada. Dava a impressão de que o sol raramente entrava. A falecida não dava muita audiência para a paisagem lá fora. A arrumação ficou para o dia seguinte. Afinal de contas, tratava-se de um recomeço. Tinha muito trabalho pela frente.
Julia foi para o quarto. Sentiu um frio imenso. Mas achou natural. Acendeu a vela. Abriu as persianas. Fechou o vidro. Arredou a cortina. Rezou e dormiu.
Enquanto isso, Paulo e Maria conversavam no quarto:
- Deite em meu ombro e trate de dormir. Na fazenda, o dia começa cedo.
- Eu sei. Boa noite querido. – disse a esposa enquanto beijava o rosto do marido.
Duas horas depois, Julia acordou. Havia sonhado. Viu o espírito de uma menina com a barriga toda queimada e olhos macabros.
Ela chamava assim:
- Oi, meu amor.
Transtornada, esticou o braço. Pegou a jarra com água. Foi quando aconteceu a obsessão. Sentiu uma agulhada frontal na cabeça e uma mordida na alma. Assim que tocou no utensílio, o mesmo estourou.
- A maldade reina. O fogo queima e sempre queimará. – disse Julia, enquanto ria sem parar.
Apertava os dedos com tanta força que cravou as unhas em suas próprias em suas mãos. Levantou da cama. Viu os lençóis e a camisola sujos do sangue que escorria pelos seus braços. Riu. Apoiou-se na parede e tateou até encontrar porta. Achou o banheiro. Entrou. Abriu a torneira. Jorrou sangue.
Calou. Franziu a face. Cerrou os dentes com muito mais ódio. Sentia prazer. Saiu do banheiro. Chegou ao corredor. Percebeu que a parede ardia com as chamas. Riu. Notou que o fogo fazia um desenho que imitava seu toque. Daí para frente, ela tocava em tudo.
- Ainda bem que chegou minha querida. Estava tão sozinha aqui. Venha, vamos queimar tudo. – Julia gritava desesperada.
Era o mesmo espírito que possuiu tia Guilhermina durante anos. Enquanto tudo se consumia no fogo, Julia correu para o meio do campo de rosas.
Ela pulava de alegria e dizia, enquanto arrancava as roseiras:
- Eu odeio. Renego a luz. Desdenho a paz. Sou dor e muito fogo.
As chamas eram tão fortes que seus pais não tiveram a menor chance. Foi uma noite inteira de horror. O fogo consumiu todas as instalações da fazenda. Seu João e os empregados também morreram queimados. Uma manifestação perversa e implacável.
No dia seguinte, Julia acordou suja de barro, sangue, pétalas de rosas, esterco de animais e muito carvão. Dormiu no meio do campo destruído. Cheio de ovelhas mortas. Olhou ao redor. Sorriu. Ficou em pé.
- Eu sou o fogo, a morte e a obsessão. – gritou.
Correu. Julia sumiu no mundo. Jamais foi encontrada. Ninguém sabe explicar o que realmente aconteceu na Fazenda das Rosas. A única certeza é o cheiro forte de carne queimada, que nunca mais saiu daquele lugar.

Uma noite de chuva para uma mulher com um pouco de sorte.

Era 19h quando Ernesto viu o tempo fechar. Havia uma barra escura no horizonte, parecia uma névoa maligna que vinha capturar a cidade. Correu para fechar as janelas, recolheu as roupas, tudo. Depois voltou para a poltrona que ficava ao lado da janela. Sentava ali diariamente, para ler, ver, escrever, pensar e esperar o tempo passar. O chá estava bem quente e a fumaça que flutuava pelo ar fazia inúmeras caras de espíritos enfurecidos enquanto se espalhava pelo ambiente.
Ernesto grilou os olhos, parecia um presságio.
Entre um gole e outro, pegou o maço de cigarros, acendeu, baforou, então lembrou: onde está a Mole? – aquela gata nojenta.
Ele chamou:
- Mole; cadê você, garota?
E nada.
Impaciente, deixou o chá sobre a mesinha que abrigava o cinzeiro, o cortador de unhas e todas aquelas bugigangas que guardamos perto de onde passamos muito tempo. Estava um pouco bagunçada, cheia de cinzas de cigarro e alguns papéis amassados.
O cigarro entre seus dedos fazia o papel de ampulheta, como se contasse o tempo de procura pela odiosa e querida Mole. Vasculhou todos os lugares possíveis e não encontrou a danada. Passou um bom tempo, deu para acabar o cigarro, cansar de andar pela casa e ainda lembrar de fazer um lanche.
Ernesto pensava: foda-se, gata nojenta.
Foi até a cozinha, fez um sanduíche e um café. Comeu, acendeu outro cigarro e voltou para a mesma poltrona. Então o vento começou a assoviar no beiral da casa, dava medo. Como não havia o que fazer, Ernesto cruzou a perna e permaneceu a olhar pelo vidro da grande janela ao lado da sua aconchegante poltrona onde sentava.
De pingo em pingo o tempo fechou mais ainda. A luz que vinha do poste dava um efeito bonito para a caída da chuva misturada ao vento louco que deixava rastros bonitos. Os pingos eram tão grossos que era possível perceber imagens que formavam fundos cheios de efeitos. Era um duelo, dentro de casa a fumaça do cigarro e lá fora a tempestade, uma mais atraente que a outra.
O telhado de zinco fazia um barulho enorme, como se Deus jogasse água de balde aqui para baixo. As janelas balançavam, as vidraças tremiam e os relampejos lá fora completavam a cena de filme de terror. Tudo tão lindo. Ernesto adorava olhar tempestades e filmes assim.
Mesmo encantado com a força da natureza, volta e meia a Mole voltava a sua cabeça. Já era tarde e a tempestade não passava e a gata também não aparecia. Ernesto permaneceu ali, ele sabia que a Mole poderia chegar a qualquer momento, e que ela ficaria parada no parapeito da janela, olhando pelo vidro e fazendo cara de quem exigia entrar, comer e se aquecer. Por isso Ernesto sentia a convicção de que não podia sair dali, por que tinha de esperar a nojenta.
Lá pelas tantas, percebeu que duas pessoas vestindo capa de chuva desciam pela rua. Olhou com mais atenção e notou que era um casal. Ernesto estava no escuro e contava com a camuflagem das sombras, por causa da pouca iluminação que o poste de luz em frente ao seu portão emanava para dentro de sua sala. Era um efeito divinal e perfeito, que o encobria e permitia que ele espiasse sem que pudesse ser encontrado pelos olhos do casal lá fora.
Ernesto era curioso, escravo da Mole, mas discreto. Ele gostava de ver, mas odiava ser visto. O vento e a chuva quebraram os guarda-chuvas do casal, e os dois resolveram que o melhor a fazer era abandoná-los, afinal de contas um guarda-chuva quebrado não serve para nada, imagine dois no mesmo estado. A dupla parou no prédio em frente, para que a marquise protegesse aos dois da chuva e da ventania forte. De repente, o homem sacou algo do bolso. Ele virava para a parede do prédio e quando virava para a rua, passava a mão no nariz.
Ernesto pensou rápido: isso é cocaína.
Continuou olhando e percebeu que os dois estavam usando. Não deixava de ser engraçado, saber que ele sabia exatamente o que o casal estava fazendo. Achava-se esperto, afinal de contas, o homem e a mulher pensavam que estavam escondidos e protegidos, mas Ernesto sabia tudo que acontecia.
Era uma sensação do tipo: peguei vocês.
De repente e não mais que de repente, os dois começaram a discutir. Certamente por que a droga que alterava a mente colaborou para que a agressividade dos dois aflorasse. Afinal de contas, a situação molhada e medonha lá de fora já era motivo suficiente para acabar com sanidade de qualquer um que estivesse encharcado e sem humor. Imagine tudo isso potencializado pelo uso de cocaína. Só podia dar merda mesmo.
Os dois se agarraram, a mulher parecia tentar meter a mão no bolso do casaco do homem. Lógico que procurava alguma coisa. Outra bucha, ou sei lá. A chuva violenta e o vento deixavam riscos brancos e desorientados que dava credibilidade para a cena de terror que abrilhantava os olhos de Ernesto.
Então, aconteceu um disparo. Nesse exato momento a Mole chegou toda molhada no parapeito da janela. Ernesto não podia abrir, por que se fizesse isso delataria a sua presença curiosa ao matador. Ele permaneceu quieto. A mulher caiu na calçada e o homem ouviu os miados da gata. Ernesto inclinou o corpo ainda mais para trás, para que ficasse ainda mais envolto pelas sombras. O assassino olhou e olhou de novo e para todos os lados e saiu.
Então Ernesto abriu a janela e a Mole entrou. Ela correu para o seu prato. Ernesto levantou todo cheio de cuidado e mesmo no escuro achou o pacote de ração e serviu a gata companheira e nojenta. Depois voltou para a janela, foi quando percebeu que o corpo da mulher havia sumido.
Pensou: meu Deus, cadê o corpo?
E a campainha do portão tocou. Era a mulher, segurando nas grades. Seus olhos estavam fundos e escorria muito sangue de seu abdômen.
Ernesto ficou em pânico e pensou mais uma vez: e agora?
Pensou mais um pouco, hesitou novamente e a campainha tocou mais uma vez.
Ela estava exausta, visivelmente passando mal. Em contraponto, Ernesto ouvia o barulho dos dentes da Mole quebrando a ração enquanto comia tudo. E ele ali, naquela situação. Foi quando a polícia chegou e atendeu a mulher. Assim que a viatura saiu levando a ferida, Ernesto respirou fundo, aliviado.
Acendeu um cigarro e pensou: que noite linda, que tempestade, que cena, que coisa.
Então a gata veio até a sala e parou bem ao lado das pernas de Ernesto que fumava sentado.
Ele a olhou nos olhos e disse:
- Vem. – enquanto batia com a palma da mão sobre sua cocha.
E ela saltou sobre seu colo, enrolou-se no próprio corpo e dormiu, enquanto que Ernesto permaneceu ali, pensando em como foi esperto naquela noite.
Mas quem chamou a polícia? – era a sua única dúvida.
Foi quando acendeu mais um cigarro e pensou aliviado: ainda bem que não sou o único curioso dessa rua.
Afinal de contas, Ernesto adorava ver, mas odiava ser visto, quanto mais se envolver.

A importância das coisas.

- O cheiro de cebola está ótimo.
- Eu também gosto assim, bem passada.
- Tome mais um gole, essa pinga é boa.
- Eu gosto.
- Eu sei. Agora me diga, por que matou a vadia?
- Deu vontade.
- Você é um sacana, primeiro fodeu o cu da coitada, depois a matou... Seu verme. – disse sorrindo.
- Precisa aprender a cuidar das vagabundas. E depois, ela mordeu o meu caralho, bem que ela mereceu.
- Olhando daqui, parece que atirou a queima roupa.
- E foi mesmo, bem no meio dos olhos, que era para não restar dúvida.
- O que vamos fazer com o resto do corpo?
- Calma, ainda nem começamos a comer. Aliás, que parte dela você quer?
- Sei lá, acho que os peitos... Não faz diferença para mim.
- Isso não é verdade, a menos que não seja um matador de verdade.
- Por que diz isso?
- Simples, para mim, tudo é importante. Agora coma, e cale a boca.

Mamãe não dormiu em casa.

- Papai, por que a mamãe não dormiu em casa?
- Eu não sei filha.
- Ela foi embora?
- Eu não sei. Mas vamos rezar para que ela volte logo. Agora vai brincar.
- Está bem, papai.
Nesse momento o telefone tocou:
- Alô.
- Bom dia, é o senhor London?
- Sim, é ele.
- Bem senhor, aqui é o delegado Bono. Como vai?
- Bom dia delegado. Alguma novidade?
- Gostaria que viesse até a delegacia. Precisamos conversar.
- Ok. Estarei aí em breve.
O telefone voltou para o gancho.
Em seguida chamou as crianças:
- Jane, Pablo, venham aqui.
- O que foi papai? – perguntou o garoto.
- Tenho de sair, quero que cuide da sua irmã.
- Certo, pode deixar.
Então a menina interrompeu:
- O que houve papai, alguma notícia da mamãe?
- Eu não sei filha. O papai vai dar uma saída, mas logo volta. Por isso, quero que obedeça ao seu irmão. Ok?
- Tudo bem, eu fico com o Pablo.
Então o homem saiu.
Quando chegou a delegacia, foi logo entrando, acompanhado de um dos detetives:
- Olá, delegado.
- Aceita um café?
- Não, obrigado.
- Senhor London, gostaria de rever o seu depoimento.
- Pois muito bem. Eu e a Lóris decidimos passar o final de semana em nossa cabana nas montanhas. Ela estava estressada, e queria relaxar.
- Que horas partiram?
- Por volta das nove da manhã, no sábado.
- Algum acontecimento extraordinário durante o vôo?
- Nenhum. Lóris estava feliz com a viagem.
- E por que seus filhos não acompanharam vocês?
- Eles estavam com o avô. Como o senhor já confirmou.
- Ok. O que fizeram, logo que chegaram até a cabana?
- Bem, passeamos pela mata e fomos até a cachoeira, Lóris adorava aquele lugar, foi onde noivamos.
- E depois?
- Bem, depois voltamos até a cabana e preparamos um peixe.
- E o que mais?
- Almoçamos, depois dormimos um pouco. Acordamos, tomamos um vinho, jantamos panquecas, depois voltamos para a cama.
- Vocês discutiram?
- Eu já disse que não. Éramos um casal feliz.
- E depois?
- Quando acordei, Lóris havia sumido.
- Certo, assine aqui e pode ir.
London saiu da delegacia, tomou o carro e seguiu, sem saber que a polícia havia instalado nele, um aparelho de rastreamento por satélite. Passou no clube, bebeu um uísque, foi até o mercado, comprou algumas coisas para o jantar e voltou para casa.
Quando chegou o telefone tocou:
- Alô.
- Olá, delegado.
- Como sabia que era eu?
- Eu tenho uma bina, esqueceu? Já falamos sobre isso.
- Bem, quero que venha mais uma vez para a delegacia.
- Eu acabei de sair daí delegado, conversamos faz pouco tempo. Que brincadeira é essa?
- É que tenho novidades.
London desligou o telefone e viu os filhos parados na escada que levava para o andar de cima da casa.
Pablo perguntou:
- O que foi papai?
- Eu não sei filho. A polícia insiste em me interrogar. – falou enquanto abraçava aos dois.
- O senhor vai até a delegacia?
- Sim, mas antes, quero deixá-los com o avô de vocês.
- Por que, papai, acha que vai demorar para voltar? – perguntou a filha Jane.
- Acho que é o melhor a fazer. Mas quero que saiba querida, eu amo você e o seu irmão. Assim como amo a mãe de vocês. – enquanto os abraçava mais uma vez.
Quando saíram, a casa estava tomada por jornalistas, que cercaram o carro, mas o senhor London não parou. Logo que chegaram à casa do avô, mais jornalistas.
Um deles se aproximou:
- Senhor London, o senhor é o principal suspeito pelo sumiço de sua mulher, o que tem a dizer sobre isso?
Ele não respondeu uma palavra e saiu guiando as crianças para dentro.
Enquanto isso os jornalistas insistiam:
- Senhor London... senhor London...
Ele continuou calado. Assim que entrou na casa, seu pai veio até a porta.
Irritado, explodiu com os jornalistas:
- Saíam daqui, seus urubus. Estão assustando os meus netos, e depois, meu filho não é um monstro. Estão acusando um cidadão sem provas. Saíam daqui. – depois fechou a porta com raiva.
Ele caminhou até a sala:
- Meu filho o que é isso? E onde estão as crianças?
- Subiram para o quarto.
- Meu filho, o que houve nas montanhas?
- Eu não sei pai, mas eu não matei a Lóris. Eu a amava.
- O delegado ligou aqui, e disse que você não voltou para a delegacia.
- Papai; estou aqui, vim trazer as crianças, só isso. Estou indo até a delegacia agora mesmo.
- Meu filho, confie em Deus.
- Obrigado pai.
Quando o portão abriu, London saiu voando, mas não foi para a delegacia e tomou a perimetral da cidade em alta velocidade. O dispositivo avisou ao delegado que rapidamente juntou sua equipe e saiu em perseguição ao fugitivo. Houve trocas de tiros e o senhor London foi capturado quarenta quilômetros além do limite urbano.
Quando chegaram até a delegacia, o delegado intimou:
- Senhor London, veja essas fotos.
O homem pegou as imagens, e caiu aos prantos. As fotografias mostravam Lóris degolada, nua e cheia de hematomas pelo corpo.
Então o delegado indagou:
- O que significa isso senhor London? Essas fotos foram encontradas junto do corpo de sua mulher. E as suas digitais identificadas na máquina fotográfica e na faca que encontramos toda suja de sangue, também junto ao corpo. O que tem a dizer sobre esses fatos?
- Eu não sei delegado, não me lembro de nada disso.
- Bem senhor; terei de prendê-lo. Os fatos estão todos contra o senhor.
- Posso ligar para a minha família?
- Pode, mas depois será transferido imediatamente para uma penitenciária de segurança máxima, e aguardará o seu julgamento em regime fechado.
- Tudo bem, mas quero falar com os meus filhos primeiro.
- Ok. – confirmou o delegado enquanto alcançava o telefone.
London discou:
- Alô, papai; quero falar com as crianças.
- O que houve meu filho?
- Eu não sei, mas quero falar com as crianças.
- Tudo bem, eu chamo. Um instante só.
Então o avô afastou o telefone e chamou:
- Crianças, desçam aqui, o pai de vocês está no telefone:
Os netos desceram, estavam assustados, visivelmente abalados.
O avô passou o telefone:
- Oi papai. – disse a menina, enquanto segurava o telefone entre ela e o irmão, para que os dois escutassem.
- Oi querida. O seu irmão está aí com você?
- Sim, estou. – respondeu o garoto.
- Meus filhos, o papai está ligando para dizer que ama vocês dois.
E os dois responderam ao mesmo tempo:
- A gente também te ama papai.
London começou a chorar e desligou. Em seguida foi algemado e levado para a cadeia. Assim que chegou a sua cela, sentou e permaneceu chorando muito. Foi quando seu pai chegou com o advogado.
E o homem perguntou:
- Meu filho, foi você?
- Eu não sei pai.
- Tudo bem, falamos quando estiver melhor. E não se preocupe com as crianças, cuidarei muito bem delas.
- Obrigado pai.
Assim que o velhote saiu da cela, o advogado colocou um frasco sobre a mesa.
London olhou nos olhos dele e disse:
- Obrigado.
Ele tomou todos os comprimidos. O coquetel foi tão forte que London caiu no sono imediatamente. O advogado bateu a porta e foi embora. E o senhor London, nunca mais acordou. As crianças ficaram com o avô. A menina Jane se suicidou aos treze anos com uma navalha de barbear. O avô morreu pouco tempo depois de AVC. Pablo tornou-se engenheiro florestal, vendeu a cabana da família e nunca se casou. Morreu bêbado aos vinte e nove anos em sua casa na cidade de Forte Louis. O delegado foi promovido, e hoje, está enterrado junto do corpo de sua mulher na pequena cidade de Loren Draw, depois de dedicar a sua vida a polícia. O advogado do senhor London tornou-se uma celebridade, e até hoje é convidado de jornais e programas sensacionalistas de rádio e televisão para falar a respeito do caso. Ele ficou conhecido como o homem do mistério. Até hoje, ninguém relacionou qualquer envolvimento dele na morte de seu cliente. E o senhor London tornou-se conhecido por todo o estado, é lembrado como o famoso assassino da cabana.

Belo Zebu.

O matador usava uma caveira de touro na frente da face. Um casaco amarelo e longo, cheio de bolsos para guardar facas e balas. Ele cavalgava um muar negro, forte, que cuspia fogo e matava a grama onde pisava. Não tinha coração nem alma, só fome de sangue e tristeza. Não conhecia o perdão nem o arrependimento, era seco, viril, monstruoso, feio e sozinho.
Galopava pelos pastos sempre que a lua cheia aparecia, e levava medo de porteira a porteira. Suas bombachas listradas e esfarrapadas da guerra cheiravam morte e saco sujo. Suas botas raladas e descascadas da geada carregavam barro de todo esse sul. O seu hálito era ruim, por que os seus dentes eram podres de tanto mascar fumo e roer ossos de carniça. Dele ninguém fugia.
Sempre que chegava a uma fazenda, primeiro incendiava os pastos, depois matava os animais. A galponagem era toda pintada com o sangue dos bichos mortos. Os idosos eram arrastados pela estrada até o fim, de encruzilhada a encruzilhada. Os meninos eram castrados e levados em sua garupa para trabalhar em sua fazenda como escravos. Os senhores das estâncias, bem, esses eram empalados e esfaqueados como porcos. E as meninas eram possuídas e depois atiradas nos poços onde o gado bebia água.
Assim que a carnificina terminava, ele percorria as capelas em busca de mais um trago de cachaça. Escolhia onde iria beber e depois, arrombava a porta, matava os moradores e servia-se de tudo que queria. Era demoniacamente abusado e pervertido. Depois de beber, dançava como um louco; batia as esporas sobre o balcão e sempre, sempre voltava. Dizem que ele nunca perdia a trilha por onde passava, por causa do carreiro feito pelas patas do seu grande muar gelado.
Era do tipo que retornava a todas as estâncias por onde assombrava. E chegava mais impiedoso que nunca quando conhecia o lugar, ele não tinha medo de voltar, por que precisava de sangue e cachaça, de terror e almas. Era só a lua cheia renascer que ele aparecia. Nessas noites de dor e medo, os homens os velhos se escondiam dentro de suas casas, trancavam as portas e as janelas, e mandavam as mulheres e as crianças para o meio do mato. E mesmo assim, muitos da mesma família morriam, por que aqueles que sobravam hoje; faleciam amanhã, com a próxima lua cheia e a volta do malvado.

Circo de horrores.

A mureta estava toda suja de barro e recados escritos. Matheus estava encostado ali, olhando o pente de sua pistola. O vento levava a fumaça do cigarro para longe, era tão bonito. Enquanto carregava a arma, pensava em não desistir, mesmo por que, de que adiantaria desistir? Era o que ele se perguntava. As respostas chegavam a sua cabeça como novas perguntas e mais nada. Ele ria, ele chorava. Estava de olhos sujos de noite, medo e vontade. Ele babava, comeria a garganta de qualquer um naquele momento. Não sabia por que queria matar, só sabia que desejava matar mais que tudo.
Assim que carregou a arma, subiu os olhos, e viu uma menina de chapéu vermelho passando pelo outro lado da rua. Ele poderia matá-la, poderia não matá-la, poderia matar qualquer um. Não importava quem era, ou por que motivo fosse. Afinal de contas, todos vão para o céu um dia. Era isso que Matheus pensava. A sua única certeza.
A vida era tão bandida com ele, e tão colorida, cheia de ursinhos e canções infantis, era uma confusão. Na sua cabeça os brinquedos apareciam sorrindo e rodeando os seus ouvidos o tempo todo. Ele não sabia dizer o que sentia. Ele não imaginava por que queria fazer aquilo. Ele não sabia, ele não achava respostas, ele não se importava.
Sentia um misto que imitava um circo feliz, um picadeiro de horror. Parecia um circo, um parque de diversões, cheio de pipoca e músicas legais. Via o carrossel cheio, via-se comendo algodão doce, sentia-se feliz, sentia-se triste, ele nunca foi ao parque, ele nunca soube o que era verdade e o que era mentira, o que era medo, o que era coragem, o que era maldade e o que era bondade. Ele não sabia, ele não tinha certeza.
Quando o cigarro acabou, ele correu até o bar sujo que ficava na esquina. O balcão estava cheio de pessoas com a boca engordurada, barriga cheia e cabeça vazia. Matheus queria ter a cabeça vazia, mas não tinha. Ele queria estar com a cabeça cheia, mas não estava. Ele sacou a arma, atirou na menina de vermelho e não parou mais de atirar, para todos os lados, para dentro e para fora do bar.
Enquanto ele disparava, as pessoas corriam, gritavam na rua, ele sentia-se no meio de uma brincadeira, no meio de uma guerra, no meio dos anjos e dos santos. Ele sentia-se aprisionado num buraco escuro, cheio de fantasias de palhaços e demônios nus, ele não sentia, ele não sabia. Era tudo, um universo macabramente infantil.
No momento em que a polícia chegou, ele estava sentado no meio fio, brincando com as tampinhas de garrafa, com a boca toda suja de doces. Ao seu lado havia um pote de sorvete pela metade, sujo de sangue e quebrado, Matheus estava quieto, calmo, parado, sentado, ouvindo os anjos e só.
Quando a sirene rodou em sua frente ele riu, e esticou o dedo indicador, apontando para aquelas luzes coloridas e bonitas. Ele ficou em pé, e a polícia apontou as armas, e um homem falou ao alto-falante:
- Mãos na cabeça e fique parado.
Mas ele não parou, ele queria pegar aquela luz vermelha, tão bonita, tão barulhenta, então os tiros começaram de novo, e Matheus também morreu.

Um novo nome para um garoto.

Quando a campainha tocou, Ulisses estava na sala, perdido em seus afazeres de professor. Levantou e foi até a porta. Abriu e não avistou ninguém. Ele correu os olhos pelo corredor em direção ao lado que ficava a janela e também não encontrou ninguém. Assim que devolveu o olhar para o lado onde ficava o elevador, percebeu que o mesmo estava descendo.
Estanho! – pensou ele.
Logo que olhou para baixo, encontrou a caixa. Era negra, com um grande laço no topo.
O professor ficou surpreso:
Ora, uma caixa! – exclamou Ulisses.
Ele a tomou nos braços e fechou a porta. Levou-a até a mesa da sala e retirou o cartão que vinha colado na tampa.
Estava escrito:
Não abra!
Ulisses fez cara de quem não havia entendido.
Afinal de contas, quem manda uma caixa de presente para alguém e observa para que a pessoa não abra? E por quê? E por que eu? – indagava-se.
Estranho! – pensou novamente.
Enquanto isso, a chaleira avisou, o chá estava pronto. Serviu, acendeu um cigarro e voltou para a sua escrivaninha e seus afazeres. Era final de semestre, tinha milhares de textos para avaliar, trabalhos de alunos para revisar, provas para corrigir, enfim, era uma tarde tumultuada de trabalho. Mesmo assim, Ulisses fazia um grande esforço para desviar a atenção da encomenda e prestar atenção total no trabalho. Parecia que a caixa chamava. Foi quando Ulisses parou tudo.
Depois disse:
- Ok, maldita curiosidade, vou abrir.
Andou até a caixa, sentou, colocou a mão no laço e pensou em puxar, mas por algum motivo, hesitou. Nem ele mesmo sabia por que estava agindo daquela maneira. Colocou seu ouvido na caixa e não ouviu nada. Balançou e nada de novo.
Mas que merda! – pensou Ulisses.
Seus dedos coçavam de tanta curiosidade.
Mas afinal de contas, que diabo de caixa é essa? – pensou novamente.
Então ele tomou coragem, respirou fundo, abriu o laço e quando retirou a tampa, explodiu. Foi tão forte que a sua cabeça estourou junto com a bomba. E quando a polícia chegou, não havia nada, nenhuma prova que pudesse apontar o responsável por toda aquela destruição.
A imprensa falava do acorrido aos quatro ventos. A opinião pública pressionava, e a situação incomodava a equipe de investigação.
Foi quando chegou uma carta explicando tudo:
Olá, miseráveis. Estou escrevendo essa carta por que não posso deixar de assumir o que fiz. Explodi aquele merda, e sabe por que fiz isso? Por que o desgraçado do professor Ulisses me fez usar um chapéu de burro. Agora, tenho certeza de que descobrimos quem é o burro.
Atenciosamente, Luthor Beng.
A repercussão foi enorme. Não se falava em outra coisa na cidade. A polícia foi até a casa do menino. Bateram na porta e ninguém abriu. Insistiram, e nada.
Então o comandante deu a ordem:
- Derrubem a porta.
Assim que a porta caiu, uma nova bomba explodiu. Essa, ainda mais forte do que aquela que detonou no apartamento do professor Ulisses, e os policiais voaram aos pedaços e pelos ares. E desde então, Luthor Beng deixou de existir, e passou a se chamar Luthor Bomb.

Dante e as baratas.

- Bom dia.
- Olá senhor Dante.
- Está tão alegre doutora, viu um passarinho verde?
- Bem, a vida tem percalços, precisamos aprender com eles. Não é mesmo senhor Dante?
- É claro. Podemos começar quando quiser.
- Bem, como se sente de volta a sua cela?
- Frio. Mas em casa.
- Fico feliz senhor.
- Não deveria. Mas identifico a sua forma de ver as coisas.
- O que reencontrou em sua cela?
- Minhas baratas.
- Supostamente não deseja uma dedetização, eu presumo?
- Obviamente que não. As baratas estão para o universo assim como o esgoto.
- Sei...
- Espantada doutora? Não acho que essa seja uma grande revelação. Mas tudo bem, a euforia é uma característica dos seres humanos.
- Digamos que não conheço ninguém além do senhor que fica feliz por encontrar uma barata em casa, como o senhor disse, mas tudo bem.
- Acho que a armadura que cobre aqueles corpos é fantástica. Estão sempre cintilando, além disso, a cor é magnífica.
- Aprecia mais as baratas ou os humanos?
- As baratas. Por que nem a bomba atômica teve a capacidade de matá-las. São organizadas, fortes, e reproduzem-se tão rápido quanto evoluem. Um exemplo aos rasos de nossa espécie. Acho que se prestássemos mais atenção nas baratas e menos na televisão evoluiríamos consideravelmente.
- Entendo...
- É verdade, doutora, pense comigo, certamente recebeu uma educação convencional, como a maioria, mas eu, que vivi sozinho por toda a minha vida, tive a opção de escolher, isso me salvou.
- Por que afirma isso?
- Raciocine comigo. A evolução é pertinente ao universo desde que ele existe. Quando pequena seu pai, sua mãe, certamente ensinaram que as baratas eram desprezíveis, obviamente que as vê dessa forma. Mas se a sua educação recomendasse as baratas e não o ser humano, provavelmente sentiria as coisas dessa forma. Esse é o paradigma. Compreende?
- Certo. São os valores.
- Exato. Agora doutora, quero voltar para a minha cela. Acredito que tenha muita coisa para estudar e analisar.
- Ok senhor Dante. É como combinamos, o senhor fala quando e quanto quiser.
- Exatamente exato.
- Passar bem.
O assassino levantou da cadeira.
E a doutora deu a ordem:
- Guarda, acompanhe o senhor Dante até a cela.