
Alencar bebia vinho todas as noites, enquanto ouvia
música clássica. Depois da última taça, quebrava a garrafa e mastigava
um pouco do vidro. As noites sulinas favoreciam o costume,
apreciado de brisa fria e lua grande. Interessante que a TV ligada
no mudo fazia contraste com o rádio enlouquecido. Por aquelas
bandas, o Programa do Grama era a melhor diversão. O locutor
era um interiorano descolado que fazia uma mistura de música
clássica com notícias policiais, comentários de ouvintes, algumas
enquetes e um pouco de rádio novela.
A vista da varanda era profunda por demais, e a primeira garrafa
já estava perto do fim. Seus lábios estavam ligeiramente dormentes e as
primeiras lambidas nos utensílios já haviam acontecido. Alencar dava
mostras de sossegado, e aproveitava sua solidão quando foi surpreendido
por uma chamada que atravessou a programação: Extra, extra,
extra: confusão na penitenciária de Sorte Crença. Ao que tudo indica,
alguns presos conseguiram fugir durante uma rebelião, que rapidamente
foi controlada. Segundo as autoridades encarregadas do caso, os melhores
homens da nossa polícia estão na caça desses delinqüentes. Esse foi o
seu Plantão Extra, sempre o primeiro.
Alencar acendeu um cigarro, com os olhos fixos no horizonte,
e a música voltou. A fumaça criava uma cortina bêbada que turvava
o seu campo de visão, deixando um clima ainda mais romântico
e doce no ar. O vinho e o abandono regavam a noite, que testemunhava
uma calmaria e um frescor de uva que tomava conta de seu
paladar e deixava o vidro ainda mais tentador.
Os olhos pareciam saltar da cara do homem levemente embriagado
que, atirado em sua cadeira de balanço, esperava o tempo
passar. Então o cão latiu. Alencar levantou e foi até o lance de escadas
que guiava para o abrigo da varanda.
Olhou na volta e nada percebeu além da ausência de seu companheiro
fiel:
– Sombra. Venha. Cadê você, garoto?
E o cão veio até os pés do dono, e deitou para receber os carinhos:
– Sombra, meu velho amigo, o que houve?
O animal punha a língua para fora enquanto roçava o pescoço
nas pernas do homem a lhe acarinhar as costas:
– Vamos; calma. Deite aqui e fique comigo – disse o homem,
apontando para o lado da cadeira de balanço.
O cachorro obedeceu e deitou no exato lugar onde lhe foi
apontado. O comedor de vidro voltou para o seu lugar e continuou
a olhar para o sem fim. De repente os arbustos que cercavam
a casa balançaram. O cão levantou e ladrou mais uma vez. Desconfiado,
Alencar passou a mão em sua espingarda calibre doze de
cano duplo, que repousava bem ao seu lado. O cachorro ficou ainda
mais nervoso, desceu para o gramado e permaneceu a abanar o
rabo, arrepiar os pelos e escancarar os poderosos dentes.
O jeito foi intervir mais uma vez:
– Sombra, já aqui!
E o canino atendeu, voltando a espichar o corpo no mesmo
lugar de antes. Enquanto isso, Alencar acompanhava calmamente
o baile dos arbustos sem demonstrar que havia percebido a situação.
A cada instante o clima ficava mais frio e tenso. O tempo ia
passando e nada saía do ventre das plantas. Os olhos do homem
percebiam que o intruso tentava contornar a casa pelo meio
das folhagens, e permaneceu seguro, esperando o momento
apropriado para agir de uma vez só. Acendeu outro cigarro e
atuou com astúcia:
– Venha Sombra!
E os dois entraram. A porta foi fechada e o cão passou a correr
próximo das janelas, como se fizesse a ronda e acompanhasse os
passos de alguém ou alguma coisa, lá fora. Alencar sentou na poltrona
ao lado do telefone, desligou o rádio, apagou as luzes e acendeu
o abajur vermelho que dividia espaço com os badulaques sobre
a pequena mesa. Dava a impressão de esperar alguma coisa,
ou alguém. Quando olhou pela vidraça, viu que uma silhueta
corria no gramado dos fundos da casa. Levantou com velocidade
da poltrona e foi para a passagem que dava acesso ao pátio.
Mirou a maçaneta e abriu a porta com a arma engatilhada, em
posição de disparo:
– Quem está aí?
Recebeu em resposta somente silêncio.
– Não vou repetir. Na próxima vou soltar o cão. E se não aparecer
com as mãos para o alto, vou atirar.
Nesse momento, um homem vestindo um uniforme do exército
e um longo casaco preto nasceu do seio dos arbustos, os braços
levantados:
– Não atire. Sou de paz.
– Qual é o seu nome?
– Jorge, senhor.
– E o que faz por aqui, uma hora dessas?
– Estou de passagem, amigo. Quero apenas um copo de água
e algo para comer.
– Então fique aí mesmo. Vou ver o que posso conseguir. E não tire o
olho dele, Sombra – disse, dirigindo-se ao cachorro – Se o engraçadinho
se mexer, de um jeito nele e mostre que não queremos palhaços por aqui.
Quando Alencar voltou para a cozinha, o cão fez cara de mal
e pregou os olhos no visitante que, imóvel, não encarava o cachorro.
Enquanto isso, o comedor de vidro fez um prato cheio com
arroz e feijão e entregou ao pedinte. Depois serviu um copo de
água e lhe alcançou os talheres.
Assim que deu a primeira garfada, o cão sentou na soleira da
porta e aos poucos a situação foi serenando:
– Disse que estava de passagem. Para aonde vai?
– Para o norte. Estou à procura de trabalho. Um amigo disse
que posso me dar bem por aquelas bandas.
– Quer atravessar o estado andando?
– É que perdi o último ônibus.
– Então quer me convencer de que resolveu ganhar a estrada
a pé só por que perdeu um ônibus? Corta essa.
– Isso mesmo, senhor. Homens como eu estão acostumados
com a vida dura.
– O que quer dizer com vida dura?
– Nada, senhor. Apenas que estou habituado com as dificuldades
de um homem pobre, é só.
– Bem, amigo, então essa é a sua noite de sorte.
– É mesmo? Por quê?
– Se quiser pode pernoitar aqui. Tomamos um vinho e batemos
um papo. O que acha?
– Eu agradeço a sua generosidade, mas não posso aceitar.
– Ora, vamos. Aceite.
– O senhor deve estar de brincadeira... Afinal nem me conhece...
– Meu filho, se eu não o ajudar, levarei a fama de cruel, mas se ofereço
hospitalidade, ganho indiferença. Vamos. Deixe de bobagens.
– Mesmo assim eu agradeço.
– Vai Sombra – ordenou Alencar – e o cão correu até o homem,
parou e depois rosnou, dando a entender que podia mordê-lo
ao menor sinal de Alencar.
– Calma. Não quis ofender.
– Então sente Sombra – e o cão mais uma vez atendeu.
– Fico feliz que tenha compreendido quem manda aqui –
continuou – Agora vamos tomar um vinho.
O hóspede levantou e seguiu Alencar até a varanda, que já
servia uma taça e a entregava a Jorge:
– Vamos, experimente.
– É delicioso.
– Obrigado.
– O vinho me é companheiro sempre.
– Deve ser um homem sozinho, assim pressuponho.
– Todos são. Não é mesmo?
– Acho que sim. De um jeito ou de outro temos apenas a nós
mesmos. É difícil confiar nas pessoas em dias como os de hoje.
Mas desembuche, homem: por que estava andando sozinho?
– Eu não posso contar.
– Pois eu digo que pode. Garanto que não sou um homem
melhor que você, confie em mim.
– Qual é o seu nome?
– Alencar.
– E o que está pretendendo?
– Nada, Jorge. Apenas companhia para uma taça de vinho.
O clima de parcimônia foi relaxando a todos, e o cão de
guarda deitou aos pés de seu dono e permaneceu quieto, olhando
para o hóspede:
– Costuma acolher todos que passam por aqui, Alencar?
– Ninguém passa por aqui.
– É mesmo? Por quê?
– Não sei ao certo. Mas acredito que seja por causa do isolamento.
Estamos no meio do nada.
– É, eu percebi.
– Conhece essas bandas?
– Não. É a primeira vez que passo por aqui.
– E de onde você vem?
– Sou do leste. Augusta do Sul. Já ouviu falar?
– Estava na cidade quando houve a rebelião? – continuou,
ignorando a pergunta do outro.
– Sim, estava.
– E você ficou com medo?
– É claro. Foi por esse motivo que resolvi me mandar. A cidade
estava agitada. Então preferi partir, ao invés de dormir num
lugar tomado de bandidos e pessoas desconfiadas.
– Eu compreendo. Fez muito bem.
– Já perdi tempo demais nessa vida com esse tipo de coisa, e
não quero mais me envolver em confusão.
– E de que tipo de confusão você está falando, Jorge?
– Brigas, mulheres, bebida, desconfiança, essas coisas.
– Eu sei como é. Minha esposa morreu cheia de conhaque
vagabundo na cabeça. Ela também nunca confiou em mim.
– Mas que droga. Eu lamento.
– Não precisa se preocupar. Ela não prestava.
– Há quanto tempo sua esposa faleceu?
– Hoje são 18 dias de seu enterro.
– Eu sinto muito. Deve estar muito triste e sozinho por esses
dias, não é mesmo?
– É o tipo de coisa que posso superar. Além do mais, aquela
vadia não valia à pena.
– Vocês se amavam?
– Acho que eu a amava, mas essa é outra estória que, por hora,
não quero relembrar. Compreende?
– É lógico que sim. Desculpe se fui inconveniente.
– Não tem importância Jorge. Agora tome mais um
pouco de vinho.
– Obrigado. Mas me diga Alencar, sempre morou aqui?
– Sim. Passei minha vida cuidando dessas terras.
– É um homem de sorte. Gosta daqui?
– Muito. Mas o que eu queria mesmo era viajar com o circo.
Só que meu pai não me deu apoio, e nunca fui bem recebido nas
companhias circenses. O tempo passou e cá estou.
– Eu também tive sonhos. Mas fui embora cedo de casa. As
coisas lá saíram um tanto quanto tortas, e o jeito foi me mandar e
fazer por mim mesmo.
– Caiu no mundo com que idade, Jorge?
– Eu tinha oito anos na época.
– Nossa! Um garoto com essa idade, sozinho pelas ruas. Isso
foi uma loucura! Você não teve medo?
– Eu não tive muita escolha. E depois, a minha família e eu
somos um tanto quanto diferentes. Achei melhor sair. Odeio ser
mandado, controlado, humilhado, maltratado. Essas coisas.
– Você cresceu nas ruas ou foi adotado?
– Preferi viver sozinho e sem teto. Nunca consegui me relacionar
muito bem com as pessoas.
– Eu compreendo você. Acho que ninguém vale a pena, realmente.
– A minha família teve muito dinheiro, Alencar. Mas minha
mãe ficou doente e meu pai acabou morto por causa de suas dívidas
de jogo. A fortuna foi perdida, em meio à desconfiança, ao
vício e, claro, à ganância.
– Mas que azar.
– Não lamente. Acho que foi até um pouco de sorte. Nunca
servi para essa vida convencional e careta de rico que aparece em
colunas sociais. Gosto da minha liberdade. Entende?
– Não se sentia bem antes, quando tinha dinheiro e estava
perto da sua família?
– Sempre fui tratado como um esquisito que só causava transtorno.
Eles não estavam dispostos a lutar por mim e me ajudar, como
precisava na época. Eu era só uma criança, mas eles me olhavam com
raiva. A bem da verdade, nunca houve amor entre a gente.
– Pensa que sua família o rejeitou?
– Com certeza sim. Nunca tive atenção de ninguém. Quando
percebi que não importava para eles, deixei todos para trás e
dei o fora para fazer a minha vida do meu jeito e pelas minhas
próprias forças.
– E você nunca os procurou?
– Jamais tive vontade. Eles nunca me aceitaram como sou
de verdade.
– Interessante as semelhanças entre as nossas vidas, não
acha Jorge? Somos dois homens abandonados e sozinhos. Um
brinde a nós.
E os dois tocaram as taças de vinho pela metade, fazendo tintin.
– Então, Alencar, pensa em se casar novamente?
– Eu não quero mais esse tipo de coisa. Agora tenho outros sonhos.
– E quais são eles?
– Gosto de beber meu vinho nessa varanda, até cair. E depois,
cagar com a porta do banheiro aberta é a melhor coisa da vida.
Riram, já embriagados.
– Eu compreendo. A gente se acostuma com a solidão, não é
mesmo Alencar?
– De certo modo, sim.
– Então por que impediu que eu fosse embora?
– Eu não sei ao certo. Acho que foi só uma gentileza.
– Claro. Mas deve ter cuidado com isso. As pessoas são capazes
de tudo.
– É por isso que estou começando a te admirar Jorge.
– Por que diz isso? Eu sou o estranho aqui. Essa é a sua casa.
– Justamente por isso. Além do que, eu posso ser muito pior
do que você.
– Quem sabe? Mas um homem que me oferece um vinho tão
bom não pode ser uma pessoa tão má. E depois, eu também posso
estar armado.
– É possível, mas o cão é meu. E isso é uma vantagem que
tenho em relação a você. Além do mais, essas terras são minhas.
Posso atirar quando quiser e alegar invasão de propriedade.
– Então, proponho outro brinde. A nós.
– Gosto do seu senso de humor.
– Obrigado. Você é um ótimo anfitrião.
– Quer dizer que não vai mais partir?
– Quem sabe? Ainda não tenho certeza.
– Pois eu acho que ficará muito bem por aqui. E depois, eu digo
quem entra e quem sai, e quando entra e quando sai. Entendeu?
– Claro que sim. Aprecio a sua hospitalidade. E esta é a fazenda
mais linda que já vi.
– Então vamos. Beba mais um vinho.
– Obrigado. E os seus animais, onde estão?
– No abrigo. Eu os recolho todas as noites por causa das onças.
– Deve travar boas lutas com elas, não?
– Às vezes. A última filha da mãe que adentrou nesses pastos
está na parede – disse Alencar, apontando o dedo para trás, onde a
pele do animal repousava, como um enfeite, sob a lareira.
– É uma pele bonita. Pelo visto era grande.
– E furiosa. Quando vi aqueles olhos, a minha alma gelou.
– Eu imagino. Estava perto da casa?
– Atirei da varanda, uns doze dias atrás. Acertei o olho da
desgraçada. Ela caiu dura.
– Pelo visto você vive com essa doze na mão...
– Nos últimos 18 dias não me afastei um segundo dessa
arma, e não pretendo mais ficar longe dela. Digamos que não
tenho motivos para fazer isso. Essa é minha casa e minha fazenda.
Eu sou a lei por esses pastos. E por isso sou o único que usa
armas por aqui.
– Eu compreendo.
Fez-se um rápido silêncio, e o fazendeiro continuou:
– O que você pensa sobre território, Jorge?
– Muitas coisas. E você?
– Eu acredito que cada homem é senhor do seu.
– Isso é liberdade, Alencar. É como chamo este direito. O
maior presente que um homem pode ter é ser senhor de sua
própria vida.
– Gostei de você Jorge. Acho que vamos nos dar muito bem.
– Eu espero que sim. E acredito que somos confiáveis por demais.
– É verdade. Eu concordo. Vamos completar esses copos –
disse, já derramando mais vinho para dentro das taças.
– Posso fazer uma pergunta, Alencar?
– Faça. Depois vejo se respondo ou não.
– Sua boca está toda machucada. O que houve?
– Eu mastigo vidros.
– E por quê?
– Porque eu gosto. Desde pequeno fui assim. Nada que me
coubesse na boca saía ileso de meus dentes.
– É por isso que tem um cão desses, com uma mandíbula
tão grande?
– Aprecio o poderio da dentadura dessa raça. Veja como os
caninos são salientes e desenvolvidos. Um animal desses me provoca
até inspiração.
– Ele tem qualidades pastoris?
– A especialidade dele é a luta. É capaz de segurar um touro
sozinho. É muito forte e, quando cerra os dentes, não solta
nunca mais.
– Acredito. Quem o treinou?
– Eu e os outros cachorros da fazenda.
– Quantos são, ao total?
– Doze. E estão espalhados pelo pátio e pelos galpões da estância.
– Pelo jeito tem medo de assaltos...
– Eu não tenho medo. Só não tolero engraçadinhos que invadem
minhas terras.
– Então por que não me deixa partir?
– Eu já disse que gostei de você.
– Claro, eu entendi. Não me leve a mal. Acalme-se.
– Eu estou calmo. Mas você só vai sair daqui quando eu deixar.
E se fizer tudo o que digo ninguém vai se machucar.
– Eu sei, somos amigos, não há motivos para brigas.
– É bom que assim seja. Esse cão é mais poderoso que um jacaré.
– Qual é a base genética da linhagem. Você conhece?
– Ele tem cruza com o diabo.
Ambos riram uma risada estranha, quase desconfortável. E
serviram-se de mais vinho.
Jorge ficou olhando para o bicho, que permanecia na mesma
posição de quando deitou. Então Alencar percebeu a admiração
do outro pelo animal, e entendeu aquilo como um sinal de profundo
respeito. A idéia o deixou mais altivo e confiante.
– Como disse Jorge, se ficar quieto e seguir minhas instruções,
não haverá problema. Entendeu bem? Está em minhas
terras e eu sou a autoridade aqui.
– E você confia tanto assim nesse cão? Ao menos tem
certeza de que tem controle suficiente sobre ele para mantê-lo
tão próximo?
– Sim. Os cachorros não atacam o dono.
– Claro que não. Mas acho que, além disso, eles são senhores
de suas vidas e decisões, e estão livres para escolher entre dominar
ou ser dominado.
– Alcance a sua perna – disse Alencar, inesperadamente.
– O que pretende fazer?
– Se não fizer o que estou mandando, vou atirar na sua cabeça.
– Tudo bem, tudo bem. Não vamos brigar. Mas afinal, o que
houve com você?
Enquanto falava, o homem entregou a perna e Alencar o acorrentou,
prendendo o pé do hóspede ao pescoço do cão.
Depois olhou para Jorge e indagou:
– Você não se sente seguro?
– Depende da situação – respondeu, sorrindo desconfiado.
– Ele não atacará. A menos que tente fugir. Fique perto dele e
estará a salvo de qualquer um. Menos de mim, é claro.
– Tudo bem. Só que eu não posso viver preso ao seu cão.
– Não discuta comigo Jorge. Como meu hóspede, deve respeito
a minha casa e as minhas decisões.
– Ora, vamos, o que deu em você? Sou seu convidado, esqueceu?
– Me desculpe Jorge. Mas daqui para frente apenas siga minhas
ordens. Caso contrário, terei de atirar em você.
– Tá certo. Mas enquanto isso, fale mais de sua esposa.
– Uma vadia que me traiu e resolveu entrar de cabeça numa
garrafa de conhaque. Morreu bêbada.
– É mesmo? Puxa vida. Eu nem sei o que dizer.
– Que tal abrir o jogo? Estava preso, não é mesmo Jorge?
– Posso responder se me contar a relação que a sua cabeça faz
entre sua mulher e seu território.
– Esta é minha casa, e a partir do momento que alguém entra
aqui, essa pessoa passa a fazer parte da minha vida. E na minha
vida sou eu quem faz as perguntas. Entendido?
– Sei.
– Agora, quero que responda se estava cumprindo pena ou não.
– Isso não muda as coisas para você. E só por isso vou responder:
sim, eu estava cumprindo pena.
– E por que mentiu?
– Achei que não entenderia.
– O que foi que você fez?
– Eu matei uma menina.
– Por quê?
– Eu queria a boneca dela, mas ela não emprestava!
Quando Jorge começou a falar, seus olhos encheram-se de brasa e,
apesar de continuar calmo, dava para perceber que estava transtornado.
– E como você a matou?
– Com um cadarço. Eu a peguei pelo pescoço e apertei até ela
parar de respirar.
– E como você foi preso?
– Fui cercado e não tive escolha.
– E por isso acha que tenho medo de você?
– Acho que não, Alencar. Somos amigos. Não somos?
– Penso que estamos construindo a nossa amizade.
– Então por que estou preso a esse cão se somos dois amigos
bebendo?
– É só uma precaução. Vai evitar que faça bobagens. E depois,
a polícia deve estar atrás de você.
– Você vai me entregar?
– Não, claro que não. Como meu convidado, basta que fique
bebendo comigo e não haverá problema nenhum. E depois, Sombra
é um excelente cão, vai manter nós dois em segurança.
– Espero que sim.
– Mas me diga, por que você queria a boneca dela?
– A Cindy prometeu casar comigo. Foi meu primeiro
e único amor, e olha que eu só tinha oito anos! Mas Sofia,
aquela menina insuportável, não desgrudava dela! A gente
não tinha privacidade!
– O que quer dizer com privacidade?
– Você sabe como são essas coisas. Cindy era uma garota
quente. E fomos flagrados fazendo amor no quarto da pentelha.
– E quem descobriu vocês dois juntos?
– Foi ela, a Sofia. Entrou no quarto sem bater e viu a gente
transando. Ela quis tomar a Cindy de mim. E disse que iria contar
para todo mundo, inclusive para os meus pais.
– Foi por isso que saiu de casa, então?
– Também. Eles não entendiam o nosso amor. Queriam separar
a gente.
– E você matou outras crianças?
– Sim. Fui crescendo e matando, por vontade e por necessidade.
Mas por que está perguntando tantas coisas?
– Como hóspede, precisa me falar ao seu respeito. Essa é uma
casa de família. Compreende?
– É claro. Por isso o vinho é tão bom.
– E por falar em vinho, sirva-se.
– Obrigado. A propósito, sinto muito pelo circo. É muito
ruim não conseguir o que se quer.
– Ah, esses artistas são um bando de idiotas. Só reconhecem
o próprio umbigo. Foi por isso que criticaram o meu incrível número
quando os procurei.
– É uma pena. Nunca vi alguém comer vidro igual a você.
– E eu nunca vi alguém beber tanto vinho.
E eles riram.
Foi Jorge quem retomou a palavra:
– A sua esposa também fez uma grande desfeita, pelo jeito.
– É, ela fez. E foi por isso que mudei. Não tolero mais desordem
dentro de minhas terras desde que isso aconteceu.
– Sente falta dela?
– Eu não quero falar sobre isso.
– É claro. Entendo. Eu também tinha muita dificuldade de
admitir os meus desejos e o meu amor por bonecas de pano. Mas
depois que fui condenado, aprendi que não faz diferença e assumi
a minha preferência por elas. Mesmo porque as mulheres sempre
abandonam seus homens e vão embora.
– Isso faz sentido, Jorge. Então compreende os motivos pelos
quais não pode sair, não é?
– É claro que sim. Entrei em seu território sem pedir licença e
você me perdoou por isso. Agora temos uma dívida. Estou certo?
– Certíssimo. Que bom que entendeu as coisas. É tão difícil
encontrar alguém lúcido nos dias de hoje...
– Também acho.
Alencar serviu novamente as taças, secando de vez a garrafa
de vinho, e já alcançou o braço até o balcão para pegar outra.
– Então, como se sentiu na cadeia, Jorge?
– Sozinho, como sempre. Alguns faziam sexo comigo. Ajudava,
por que lá não havia boneca nenhuma.
– Você ficou longe dos seus brinquedos?
– Eu não tinha brinquedo algum, apenas a Cindy. E ela foi
embora quando fui preso. Os outros companheiros da cadeia
me disseram que ela estava vivendo com outro homem, um carcereiro,
ao que parece. Ela era muito temperamental, parecia
uma mulher de verdade.
– Ela te largou?
– Sim. E para me vingar, matei um dos carcereiros, colega do
danado que me tomou Cindy.
– E como fez isso?
– Com uma escova de dente. Eu a enterrei garganta abaixo.
Ele engasgou com o próprio sangue. Depois soltei um peso da academia
em sua cabeça.
– E o que aconteceu com você?
– Me trancaram na solitária. E me bateram. Depois fui julgado
e condenado mais uma vez.
– E acha que somos diferentes por quê?
– Ninguém é totalmente igual ou diferente Alencar, o
que muda é como os fatos acontecem e o que cada um escolhe.
Você, por exemplo: por que continuou a comer vidro por
todos esses anos, mesmo sabendo que não integraria nenhuma
companhia circense?
– Sempre gostei do gosto que o sangue deixa na boca.
– E o que seu pai pensava a respeito dessa coisa de você
comer vidro?
– Meu pai sempre me chamou de maluco. Pelo menos teve
coragem de dizer o que realmente pensava ao meu respeito, olhando
nas minhas fuças.
– E sua mulher? Também lhe dizia o que realmente pensava
ao seu respeito?
– Infelizmente sim. Aquela idiota não sabia me respeitar
como um marido merece. Ainda bem que fui avisado.
– E quem contou tudo para você?
– Eu tenho muitos amigos dentro da minha cabeça, Jorge.
– E que amigos são esses?
– Não sei ao certo. Mas eles me contam muitas coisas.
– E o que mais eles disseram?
– Que minha esposa me traía com o frentista do posto, lá da
cidade. E que os dois safados rolavam pelo meio do campo, em minhas
terras. E que a minha mulher bebia por que queria me deixar,
como a boa vaca que sempre foi.
– E o que você fez com o frentista?
– Matei.
– E o que aconteceu depois?
– A minha esposa continuou bebendo. Na verdade, começou
a beber muito mais. Até que um dia morreu. Pior que ainda
tive de providenciar o velório e o óbito daquela desgraçada. Ao
menos estou livre.
– As mulheres são loucas mesmo. Cheias de problemas e
de patologias.
A essa altura, os homens já estavam bem bêbados e a conversa
fluía constante, devido à empolgação do álcool.
– Acho que poderíamos comer um pouco. O que acha, Jorge?
Minhas tripas estão roncando.
– Você dá as ordens por aqui, esqueceu? Vamos lá.
Voltaram para a cozinha. Jorge e o cão foram na frente, e
Alencar ficou na retaguarda, com a espingarda calibre doze apontada
para as costas do seu refém que caminhava na sua frente. A
mesa estava farta e os dois sentaram frente a frente.
Foi o anfitrião quem interrompeu o jantar:
– Vou ao banheiro. E você, não tente fugir.
Assim que Alencar saiu, Jorge esticou o braço e alcançou
uma gaveta sem chamar atenção do cão. Espichou o olho e avistou
a faca de cortar carne. Sorrateiro, escondeu a lâmina no
bolso interno do seu casaco e voltou a comer. Enquanto isso,
no banheiro, Alencar pegou mais uma caixa de balas que guardava
escondida no meio de um armário cheio de badulaques, e
a colocou em seu bolso.
Queria prevenir-se com munição.
E assim que guardou as balas, voltou para a cozinha, puxando
as calças para cima e fazendo aquele olhar gentil:
– Então, o que está achando da minha hospitalidade?