Nos
sábados o presídio ficava mais alegre. Acordei cedo. O Bartho, meu colega de
cela, me conseguiu uma lâmina pra que eu pudesse fazer a minha barba. Ele
também esperava visita. Por isso, desejei sorte pra ele, e fiz questão de lhe
dar um cigarro como agradecimento pela peça. Ele saiu e eu comecei a me
barbear, olhando a minha face naquele pedaço de espelho trincado que me
mostrava pra mim mesmo, como um homem que esperava por alguém que amava. Eu
ouvia no rádio uma música que eu gostava muito, “(...) A solidão é nada; Você
vem na hora errada; E eu não te quero aqui (...)”. Eu me olhava no espelho e me
sentia ansioso pra caralho. Tive o cuidado de não deixar nenhum fio de barba
pra trás, dia de visita é uma ocasião especial, eu tinha de ser uma
fortaleza pra eles. Respirei fundo e tomei o rumo do corredor.
Quando
cheguei até o pátio, encontrei com o Bartho, o crioulo que dividia a cela
comigo e me arregou a lâmina de barbear. Ele estava contente, sentado ao lado
da mulher, e segurava uma menininha linda no colo. Ela tinha os cabelos
cacheados como um feixe de luz livre e rebelde, olhos grandes, feito duas
jabuticabas maduras. Então ele disse, ao tempo que eu passava, “Olha filha,
esse moço aí, é o Jozz... Dá um oi pra ele.”, depois sorriu.
Ela
me olhou e mostrou os dentes de cara. Eu tive de parar, fiquei de cócoras na
frente dela. “Oi... Você está esperando alguém?”, perguntou ela. “Sim, estou.”,
respondi. “Que bom.”, ela disse: tão carinhosa e inocente. Fiquei vidrado nela,
era uma pequena ainda indefesa nesse mundo cão. Perguntei: “Quantos anos você
tem?”. Ela esticou os dedinhos, apontando quatro. Achei aquilo sensacional.
Correu uma lágrima de meus olhos. “Por que está chorando, Jozz?”, ela
perguntou. “Quando encontro crianças lindas e espertas como você eu fico feliz
demais, então eu choro.", respondi. “Você também é legal.", disse a
menina. Ela pegou um pedaço de bolo e me entregou, “Come, quem fez foi a minha
mãe.”. Eu agradeci e dei o fora, fiquei com vergonha das minhas lágrimas.
Cheguei
até a entrada do pátio e dei de cara com um agente. Ele disse, “Fica numa boa,
sem encrencas.”, depois fez um sinal de positivo. Eu apenas fiquei quieto e
segui meu caminho, por que os canas adoram se impor quando estão no controle,
mas era um dia especial, não dava pra estragar tudo por causa de um
bosta que só queria tirar uma onda pra se sentir o cara.
Sentei
num banco perto da quadra de esportes. Era tanta gente,
que eu ficava olhando, tentando encontrar a Sô no meio daquela multidão. De
repente, o Abutre me chamou, “Ei Jozz, venha comigo, sua mulher está procurando
você.”. O meu coração disparou.
Chegamos
perto da área coberta, onde ficávamos nos dias de chuva, “Olha, ali ó, aquela
de branco.”, disse o abutre, apontando pra a minha garota. Cara, eu não disse
nada pra ele, eu estava emocionado demais, eu apenas andei na direção dela e
esqueci do Abutre. Senti um nó em minha garganta, algo que senti poucas vezes.
“Jozz!”,
ela disse contente. Eu a abracei com toda a minha força. Ela segurava uma
sacola e uma mochila. Ganhei um beijo doce, eu podia sentir o açúcar nos lábios
dela, que se misturava ao gosto do bolo que ganhei da filhinha do Bartho.
Fiquei de pau duro na hora. Eu sentia tanta saudade dela que não me contive.
Coloquei a mão em sua barriga e o moleque chutou. Eu me senti tão bem.
Conversamos
um bocado, fiquei tranquilo com as notícias. Falou que o neném estava muito
bem, que eu não precisava me preocupar e tal. Sentamos num dos bancos. Ela me
entregou um monte de coisas gostosas, nossa, eu estava com saudade de tudo, a
Sô era uma grande cozinheira e uma grande garota.
Enquanto
comia, ela me olhava e sorria. Eu sentia que ela era minha companheira até o
fim. Mesmo um homem como eu, amolece diante de situações como essa. Pensei em
acender um cigarro, mas achei melhor não, ela percebeu que levei a mão no maço
que estava no bolso da minha camisa e disse, “Pode fumar, de boa, todos estão
fumando aqui.”. Acendi um cigarro vagabundo, e então ela me disse, “Olha, fuma
esse aqui.”, e me deu um cigarro bem melhor, mais caro. Ela trouxe três
pacotes. Olhei pra ela e quase chorei. Eu tinha tantas coisas pra dizer a ela
que eu nem conseguia organizar os meus pensamentos com a minha fala.
“Jozz,
como está se sentindo?”. “Fica fria Sô, estou segurando numa boa.”. “Eu sei. A
gente vai esperar por você... E nos sábados, viremos te visitar.”. Eu sabia que
ela estava me dizendo que eu não precisava me preocupar; que podia ter certeza
de que ela não me deixaria sozinho. Então eu a abracei e disse: “Amo você, amo
muito.”.
O
dia foi tão bom que passou depressa. Na hora do adeus, a Sô colocou sua mão em
meu peito e disse ao pé do meu ouvido: “Me promete uma coisa?”. Os olhos dela
estavam cheios de lágrimas. Eu não respondi nada, fiquei só olhando pra ela.
Então ela completou, “Não morre!”. Eu sorri. Ela me deixou um beijo e se foi.
Voltei
pra cela com a alma renovada. Sentei na minha cama, me ajeitei ao lado da
janela e fiquei ali, fumando, observando o pátio vazio. Só me restava esperar
pelo próximo sábado e olhar o céu que escurecia e se preparava pra chover.