Sábado.

Nos sábados o presídio ficava mais alegre. Acordei cedo. O Bartho, meu colega de cela, me conseguiu uma lâmina pra que eu pudesse fazer a minha barba. Ele também esperava visita. Por isso, desejei sorte pra ele, e fiz questão de lhe dar um cigarro como agradecimento pela peça. Ele saiu e eu comecei a me barbear, olhando a minha face naquele pedaço de espelho trincado que me mostrava pra mim mesmo, como um homem que esperava por alguém que amava. Eu ouvia no rádio uma música que eu gostava muito, “(...) A solidão é nada; Você vem na hora errada; E eu não te quero aqui (...)”. Eu me olhava no espelho e me sentia ansioso pra caralho. Tive o cuidado de não deixar nenhum fio de barba pra trás, dia de visita é uma ocasião especial, eu tinha de ser uma fortaleza pra eles. Respirei fundo e tomei o rumo do corredor.
Quando cheguei até o pátio, encontrei com o Bartho, o crioulo que dividia a cela comigo e me arregou a lâmina de barbear. Ele estava contente, sentado ao lado da mulher, e segurava uma menininha linda no colo. Ela tinha os cabelos cacheados como um feixe de luz livre e rebelde, olhos grandes, feito duas jabuticabas maduras. Então ele disse, ao tempo que eu passava, “Olha filha, esse moço aí, é o Jozz... Dá um oi pra ele.”, depois sorriu.
Ela me olhou e mostrou os dentes de cara. Eu tive de parar, fiquei de cócoras na frente dela. “Oi... Você está esperando alguém?”, perguntou ela. “Sim, estou.”, respondi. “Que bom.”, ela disse: tão carinhosa e inocente. Fiquei vidrado nela, era uma pequena ainda indefesa nesse mundo cão. Perguntei: “Quantos anos você tem?”. Ela esticou os dedinhos, apontando quatro. Achei aquilo sensacional. Correu uma lágrima de meus olhos. “Por que está chorando, Jozz?”, ela perguntou. “Quando encontro crianças lindas e espertas como você eu fico feliz demais, então eu choro.", respondi. “Você também é legal.", disse a menina. Ela pegou um pedaço de bolo e me entregou, “Come, quem fez foi a minha mãe.”. Eu agradeci e dei o fora, fiquei com vergonha das minhas lágrimas.
Cheguei até a entrada do pátio e dei de cara com um agente. Ele disse, “Fica numa boa, sem encrencas.”, depois fez um sinal de positivo. Eu apenas fiquei quieto e segui meu caminho, por que os canas adoram se impor quando estão no controle, mas era um dia especial, não dava pra estragar tudo por causa de um bosta que só queria tirar uma onda pra se sentir o cara.
Sentei num banco perto da quadra de esportes. Era tanta gente, que eu ficava olhando, tentando encontrar a Sô no meio daquela multidão. De repente, o Abutre me chamou, “Ei Jozz, venha comigo, sua mulher está procurando você.”. O meu coração disparou.
Chegamos perto da área coberta, onde ficávamos nos dias de chuva, “Olha, ali ó, aquela de branco.”, disse o abutre, apontando pra a minha garota. Cara, eu não disse nada pra ele, eu estava emocionado demais, eu apenas andei na direção dela e esqueci do Abutre. Senti um nó em minha garganta, algo que senti poucas vezes.
“Jozz!”, ela disse contente. Eu a abracei com toda a minha força. Ela segurava uma sacola e uma mochila. Ganhei um beijo doce, eu podia sentir o açúcar nos lábios dela, que se misturava ao gosto do bolo que ganhei da filhinha do Bartho. Fiquei de pau duro na hora. Eu sentia tanta saudade dela que não me contive. Coloquei a mão em sua barriga e o moleque chutou. Eu me senti tão bem.
Conversamos um bocado, fiquei tranquilo com as notícias. Falou que o neném estava muito bem, que eu não precisava me preocupar e tal. Sentamos num dos bancos. Ela me entregou um monte de coisas gostosas, nossa, eu estava com saudade de tudo, a Sô era uma grande cozinheira e uma grande garota.
Enquanto comia, ela me olhava e sorria. Eu sentia que ela era minha companheira até o fim. Mesmo um homem como eu, amolece diante de situações como essa. Pensei em acender um cigarro, mas achei melhor não, ela percebeu que levei a mão no maço que estava no bolso da minha camisa e disse, “Pode fumar, de boa, todos estão fumando aqui.”. Acendi um cigarro vagabundo, e então ela me disse, “Olha, fuma esse aqui.”, e me deu um cigarro bem melhor, mais caro. Ela trouxe três pacotes. Olhei pra ela e quase chorei. Eu tinha tantas coisas pra dizer a ela que eu nem conseguia organizar os meus pensamentos com a minha fala.
“Jozz, como está se sentindo?”. “Fica fria Sô, estou segurando numa boa.”. “Eu sei. A gente vai esperar por você... E nos sábados, viremos te visitar.”. Eu sabia que ela estava me dizendo que eu não precisava me preocupar; que podia ter certeza de que ela não me deixaria sozinho. Então eu a abracei e disse: “Amo você, amo muito.”.
O dia foi tão bom que passou depressa. Na hora do adeus, a Sô colocou sua mão em meu peito e disse ao pé do meu ouvido: “Me promete uma coisa?”. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Eu não respondi nada, fiquei só olhando pra ela. Então ela completou, “Não morre!”. Eu sorri. Ela me deixou um beijo e se foi.
Voltei pra cela com a alma renovada. Sentei na minha cama, me ajeitei ao lado da janela e fiquei ali, fumando, observando o pátio vazio. Só me restava esperar pelo próximo sábado e olhar o céu que escurecia e se preparava pra chover.

O adeus.

Sentei na cama, junto da cabeceira e fiquei ali, olhando a chuva, notando como um papel sujo e amassado que um dia embolou um chiclete teimava em se agarrar no canto da janela, entre a parede e a persiana. O tal papel relutava contra o vento, a chuva e o seu futuro incerto, um futuro tão desconhecido como o meu. Eu olhava a rua e sentia o frescor daquele ar de subúrbio, com urina de rato, com sêmen humano e pulgas emboladas em tufos de pelos de cães surrados pela sarna. Eu via, e sentia a podridão da vida, a morte do amor por entre aqueles prédios pequenos e carcomidos pelo abandono, o mesmo abandono que assolava aquele pequeno pedaço de papel teimoso pendurado diante de meus olhos. Éramos eu, o papel, a chuva e o infortúnio, ali, abraçados.
Segurava o gelo em meu olho, e ainda sentia dificuldade para respirar, minhas costelas doíam. Não sei o que era pior, se respirar ou olhar a luta daquele papel. O papel me mostrava quanta força eu precisava ter para resistir e não morrer. Esse era o meu plano, não morrer. Entende? Era o meu último cigarro, e eu o fumava com toda a minha apreciação, naquele instante tenso, assombroso, melódico, romântico como a poesia dos anos cinqüenta. “Por que estou aqui? Eu posso apenas sumir.”, falava para mim mesmo. Só que eu era como aquele papel, eu permanecia ali, lutando contra o vento. Eu sabia que tinha de ir, mas ainda não era o momento.
Quase quatro da manhã, só eu em casa e os meus fantasmas ao meu redor. Vi uma sombra na esquina, “É ele.”, falei. Abri a gaveta e fiquei ali, esperando. Sabia que a luz que vinha do abajur chamaria a atenção dele e ele não perderia a chance de chutar a minha porta e me enfrentar mais uma vez. Ele era como um campeão covarde, que me buscava encorajado na certeza de quem sempre me venceu. Eu apenas tremia, ainda suspeitando de meu plano, mas era a minha última saída.
A porta abriu, e ele ligou a luz na sala. Eram os instantes finais para o nosso encontro. Agora era só esperar pelo chute em minha porta. Eu sentia o meu coração quase falhar, eu sentia medo, e sentia raiva, eu sentia que era o momento. Talvez um minuto ou dois, era o tempo que me separava da vida ou da morte. Engoli a seco a saliva, e senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Era tão estranho, eu chorava e ao mesmo tempo não tinha a menor chance de compreender o que rolava dentro de mim. O barulho foi grande e a porta se partiu, ele estava ali, em pé, diante de mim. A porta no chão, escangalhada. Fiquei calado. “Venha, está na hora da sua surra, verme.”, ele disse.
Eu não sei o que ele era. Não imagino de que ele era feito, sei apenas que não era um pai. Vi que o papel voou para dentro do quarto e pousou no chão, entre eu e ele. Mirei no meio de seus olhos e disparei. Ele caiu diante de mim. Olhei firme, chutei sua mão e ele não se moveu, ele já agonizava. Sem pena, disparei mais cinco vezes até esvaziar o tambor do 38 e boa parte do que carregava em meu coração. Eu venci, era de novo, só eu e o papel. Juntei aquele pedaço de papel amolado pela chuva, agora manchado de sangue e o coloquei em meu bolso, guardei a arma na mochila e saí sem fechar a porta. Era hora de ir.
Cheguei até a casa da Joana quando já amanhecia. Eu toquei a campainha, mas ninguém atendeu. “Droga!”. Queria agradecer a ela antes de partir. Coloquei minha mão na caixa do correio e encontrei o envelope. Abri para conferir, mil paus. Era muita grana, era a minha garantia. Eu nem sabia ao certo o motivo que levou Joana a me dar essa grana para que eu pudesse fugir, mas desconfio de que o seu falecido pai fosse parecido com aquele homem que me batia, ao invés de ser meu pai. Entende? Coloquei a grana no bolso e saí andando.
Parei num mercadinho fedorento e comprei um maço de cigarros. Ainda na porta, acendi mais um. Eu tinha apenas doze anos, mas já fumava e bebia como um adulto. Afinal, eu tinha de ser adulto, eu já tinha de usar os meus punhos fazia um bom tempo para me defender, fumar e beber não era nada de extraordinário para um garoto adulto como eu. Enquanto andava pela calçada descondensada eu olhava pela última vez para aquelas ruas. Eu não voltaria mais ali, nunca mais.
Parei na estação de trem, precisava escolher um destino. Mas qual? Subi no vagão de carga sem me importar com o destino e me acomodei por entre os sacos de carvão. Olhava pela fresta da porta e via a estação sendo engolida pelas colinas. Era o adeus. O momento pelo qual eu sempre esperei: a liberdade. Agora eu podia ganhar o mundo, e não me importava o futuro, sabia apenas que daquele homem eu não apanharia mais. Peguei o papel de chiclete que guardei no meu bolso e o soltei no vento. Ele finalmente seguia o seu caminho, assim como eu seguia o meu.

As confissões de um soldado – parte II.

Pode parecer estranho para você, mas esses remédios que tomo o dia inteiro me deixam lerdo, com sono, eu me sinto um idiota, um cara que não diferencia a realidade do dope total. Sei que preciso evitar esse monte de porcarias que me enfiam goela abaixo sem trégua, por que esse é o único jeito de recuperar a minha lucidez. Acho que só mesmo quem já foi encharcado de remédios fortes é capaz de entender o que um coquetel desses pode fazer em sua cabeça. Tem horas que eu penso que o meu cérebro vai estourar, como uma granada.
Em todo o caso, você pode confiar em mim, por que remédios, descargas elétricas e tantos outros modos de tratamento me parecem muito mais com tortura e manipulação do que um tratamento. Pelo que vejo ninguém melhora por aqui, eu nunca fiquei sabendo que esse ou aquele ganhou alta. Isso me parece estranho. Você acha isso estranho?
Nos últimos dias, desde que parei de tomar os remédios e passei a anotar as coisas que eu sinto, eu tenho a impressão de que estou numa cadeia. Acho que o governo teme que eu saia daqui e vá abrir a minha boca por aí. Já ando desconfiado de que o objetivo aqui é enlouquecer e não curar. Entende? Eu acho que esse tipo de coisa é uma monstruosidade tremenda. Conheço boa parte dos internos, cinco deles eram do meu grupo e posso garantir que qualquer um deles merecia uma medalha de honra, conforto e assistência pelos seus atos heróicos para com o nosso país. Eu acho que a política fode com tudo, até com as forças armadas.
Todos nós deixamos suor e lágrimas no campo de batalha, deixamos tudo pra trás em nome de uma nação, e agora estamos aqui, dopados e esquecidos, enquanto o governo diz o que quer sobre a gente. Tenho consciência de que tenho neurose de guerra, mas qualquer um teria se recebesse uma ordem do comando para explodir um campo de prisioneiros e depois participar de uma cerimônia em nome dos mortos.
Somos fuzileiros, não somos políticos. Eu odeio quando burlam as informações e querem te obrigar a participar desse tipo de circo. Eu tenho pena daquelas mães que recebem aquela cartinha montada no computador, que diz que o soldado tal, seu filho, foi morto em ação, mas que nada apagará a sua coragem e a sua dedicação pelo país. Cascata. Isso tudo é uma conversa fiada. E sinceramente, acho que estourar os seus camaradas a mando do governo é tão torpe quanto deixar homens mofando aqui dentro.
É foda, mas por entre tantas medalhas e condecorações, as palmas vão sempre para um bando de políticos disfarçados de fuzileiros que pensam que podem enganar todo mundo o tempo todo, mas ninguém consegue enganar a todos por todo o sempre. É fácil armar uma lona e encher o picadeiro de palhaços, quando na verdade o que está em jogo é só poder. Para eles, estourar os próprios homens, cem homens, cem fuzileiros dos seus não significa nada, desde que seus objetivos sujos sejam alcançados.

As confissões de um soldado.

Desde que comecei a anotar as coisas, percebo que fico mais calmo e tem vezes que me lembro de coisas boas como o algodão doce que comi com a Leila. Estou me esforçando o mais que posso para me recuperar da minha neurose de guerra – acho que ainda sou um fuzileiro – e escrever me deixa mais ávido e eu consigo pensar em fingir que tomei os remédios, quando na verdade os joguei na privada. Primeiro eu os escondo em algum lugar e depois, quando a enfermeira vai embora, eu os despacho para o esgoto. Mas enfim, hoje eu quero falar do algodão doce e da Leila, e não do meu tratamento.
Naquele dia ela estava carinhosa e me convidou para ir até o parque ver o carrossel. Até estranhei, ela raramente fazia essas coisas. Eu havia chegado do mar, depois de quarenta dias em missão, treinando novatos. Eu os ensinava a matar e sobreviver, no mar, na terra, no ar. A marinha é assim, completa, por que você parte em navio e depois chega a qualquer lugar. Os fuzileiros são os melhores grupos de qualquer força armada nacional, porque para ser um fuzileiro, você precisa se tornar um soldado completo, e para ser um sniper como eu, você precisa entender a morte e perder coisas que você ama. Entende?
A gente havia completado a última expedição que formou um novo esquadrão de atiradores de elite. Um atirador de elite liquida com um equipamento de grande alcance e de amplo poder de fogo, basta que você escolha a posição correta e o calibre certo, você pode arrombar a cabeça do soldado, ou a blindagem do equipamento operado pelo soldado inimigo. Entende? Bem, eu cheirava a mar, a peixe, a bosta, a mofo de porão de navio e a sovaco. Tinha a impressão de que a minha farda poderia andar sozinha de tanta sujeira e suor. Nesse tempo, a minha cabeça até que funcionava bem.
Espero que me desculpe se pareço confuso, mas o fato é que tenho dificuldade de concentração. O caso é que todos os problemas que tenho, são decorrentes de uma neurose militar. Entende? Acho que não, mas tudo bem. Eu sei que não sou mais o que fui, ou quem sabe, ainda seja. Acho até que ainda sou o tenente da minha divisão, porque ainda não dei baixa e estou aqui, nessa casa bonita, tão cheia de horror. Pra falar a verdade, isso aqui se confunde com uma casa e se mistura com uma base e parece uma prisão. É um lugar louco, afastado. Estou aqui porque sei demais e fiz muito pelo governo. Entende? Eu tenho saudade do tempo em que tinha uma casa para voltar e uma esposa para reencontrar. A Leila era o meu porto.
Naquele dia, eu cheguei de surpresa, como sempre, um fuzileiro nunca sabe quando vai voltar, não exatamente, e a sua família nunca tem noção da sua missão, nem da sua localização. Essas incertezas acabam com um amor, acredite. Por que existem romances demais para que a sua mulher leia, filmes melosos de amores inseparáveis e pessoas idiotas para dizerem bobagens para quem você ama. Entende? A Leila deixou cair o sorvete de suas mãos quando me viu abrir a porta. Ela ficou feliz, e correu para me abraçar e me arrastar para a nossa cama. O parque foi uma idéia dela, e eu, mesmo cansado, dolorido e morto de sono, concordei em ir.
Ela usava um vestido novo, muito bonito, ela havia mudado até o seu corte de cabelo, e todos a olhavam passeando comigo. Claro que eu usava a minha farda. No começo, ela dizia que achava romântico. E eu acreditava nisso com toda a minha fé. Vê-la a rodar naquele carrossel era a coisa mais linda do mundo. Comemos pipoca, namoramos a luz do luar e eu me sentia bem. Quando chegamos em casa, acabamos na cama mais uma vez. Eu tinha folga de dez dias, e a Leila estava empolgada com a idéia, mas no meio da noite, o telefone tocou e eu tive de sair em nova missão. Era uma ordem e eu tinha de cumprir. Antes de sair, deixei um bilhete em cima da mesa da sala, ao lado do que havia sobrado do algodão doce da noite passada, “Eu tenho de ir, querida. Até breve. Com amor, sempre.”. É bonito, e é cruel, mas acho que nem todo o algodão doce do mundo pode adocicar uma decepção como essa.

Eu e o Carl.

O Carl estava mais louco do que o normal e não parava de brincar com a minha pistola. Ele estava chateado com o fim do seu namoro com a Ruth. O lance deles ferrou por que ele a pegou fodendo com Bread, seu colega na faculdade. Volta e meia ele me ligava e me pedia algumas das minhas boas porcarias. Aquela noite, ele queria pepita. Saca? Eu levei uma das mais lindas pra ele. Ela pesava umas 50g. Era amarelada e compacta como um meteorito espacial. Quando ele colocou seus olhos em cima dela, ele pirou a cabeça. O cara não parava de fumar. Eu já havia largado a universidade tinha um tempo e a gente conversava sobre como as coisas andavam por lá. Eu raramente aparecia no campus, pra não chavecar entende? Eu era só um suposto viciado que largou os estudos e sumiu, e fazer uma entrega dessas em outro lugar que não fosse na casa do Carl seria muita burrice. Papo vai, papo vem, disse a ele, “Cara, esquece essa mina e parte pra outra.”. Mesmo assim, ele continuava naquele papo xarope e eu resolvi que ia dar o fora. Então, antes de sair, o Carl entrou numas de comprar a minha máquina. Eu relutei um bocado, mas o cara havia se encarnado nela. Só que meu, eu não podia passar uma peça daquelas pra ele. “Cara: sai dessa... Você não precisa dela. O que você quer, é mais uma pepita dessas aqui.”, em seguida puxei um punhado delas e mostrei pra ele. Eram quase tão grandes quanto a primeira que ele comprou. Saca, eu sou um comerciante, e tenho de saber vender o meu produto. Entende? Ele me entregou um bolo de notas, que eu contei rapidamente e achei um montante razoável. Então eu entreguei duas delas a ele. Daí pra frente o Carl não tinha mais noção da coisa e já estava com a ponta do seu nariz toda queimada. Aquele cachimbo fervia como os seus miolos. Eu já havia dado uns tecos numa escama de primeira e sentia meus dentes amortecidos como há muito tempo não acontecia. Então eu percebi que era hora de dar o fora, e aproveitei que o Carl já não falava mais e só fumava pra me escafeder dali. Guardei a pistola e saí. As nuvens estavam pesadas e os primeiros pingos de chuva já haviam começado enquanto eu caminhava tranquilamente por entre a sombra das árvores do passeio quando fui puxado por alguém. Cara, quando percebi que era o Carl, eu relaxei, mas ele estava doido, ensandecido. “Devolve a minha arma.”, ele disse. Eu logo vi que aquele papo era paranóia dele e levei numa boa, mas ele não aceitou e veio pra cima de mim. Cara, que chave. O cara não parava de gritar e tentava me agarrar como um zumbi daquele filme, Piratas do Caribe. Aí não teve jeito, eu tive de queimar o Carl. Acho foda esse tipo de parada. Só que meu, era eu ou ele. Entende?

Uma cabeça na lixeira.


Acendi um cigarro e continuei na janela, protegido pela escuridão da noite. Ela também fumava, e quando soltava fumaça, parecia que seu nariz era uma turbina de avião. Notei que ela olhava de um lado para o outro e que carregava uma mochila. Ela era bonita e estava descalça, e isso me pareceu bem romântico. Vidrei nela, como quem procurava desvendar o seu corpo e a sua alma.
Fiquei excitado. Senti que o meu pau levantou latejando enfurecidamente. Em torpor, pensei loucuras com ela. Contagiado por essas idéias: saí das sombras e fui até a sacada. Assim que apareci, ela percebeu a minha presença, e ficou ali, sentada, me olhando. Pensei, Ela está dando mole.
Dei um gole no uísque, e movimentei o copo de um lado para o outro, fiz círculos com ele em minha mão, queria mostrar a ela que havia um homem bebendo ali. Eu tinha a inocente esperança de que ela notasse o barulho dos cubos de gelo atritando-se com as paredes do copo e se sentisse atraída. Por mim, pela bebida, pela oportunidade.
Não demorou e ela atravessou a rua. Pensei, Deu certo! Assim que ela chegou ao passeio, algo chamou minha atenção: o seu vestido estava manchado de vermelho, bem na altura de seus seios. Pensei, Ela está ferida, e aproximei-me da proteção da mureta para ver melhor.
Ela tirou seu cabelo do rosto, então eu percebi que ela estava suja de sangue em toda a sua linda face. “Precisa de ajuda?”. Ela não respondeu e permaneceu ali, parada, me olhando. “O que houve?”, perguntei mais uma vez. Foi quando ela deu um passo para trás, e revelou-me uma faca coberta de sangue em suas mãos. Eu fiquei petrificado. Então ela me pediu, “Posso subir?”.
Com medo, tranquei tudo. Depois peguei minha arma. Fiquei imóvel por alguns segundos, sem saber o que fazer. Corri na janela novamente, e não a vi. Pensei, ela vai forçar a minha porta. Tentei o telefone, estava mudo. “Tempo maldito.”, falei. Pensei, Tenho de impedi-la. Respirei fundo, desci e fiquei no breu do corredor, protegido pela porta que dava acesso até a rua. Dei uma vasculhada nas redondezas e mais uma vez não a encontrei. Pensei, Ela está de tocaia, e espera por mim. Pensei de novo, Será que ela é um demônio a me procurar?
Passou-se um tempo, e quando enfrentei o meu pavor, abri a porta e cheguei até o passeio. A chuva era fina e forte. Os pingos escorriam pela minha face e eu tremia de medo e de frio. Quando olhei para o lado, tive uma surpresa, havia uma cabeça de homem na lixeira. Era jovem, moreno, e vertia sangue em seus orifícios. “Deus pai.”, falei, e depressa fiz o sinal da cruz. Fixei nele o meu olhar, e o horror que vi nos olhos dele, não era maior do que aquele que percorria o meu corpo e disparava o meu coração.

Um pouco de sujeira para a sorte, a morte, o Charle e eu.

Foi uma sorte. A morte do velho Charle me rendeu a sua espelunca. Eu nunca havia pensado em ter um boteco sujo para desalmados feito eu. Jamais imaginei que ele falasse a verdade naquelas horas. Achava que ele queria que eu o comesse e pronto. O coitado passou a ter prazer de outro jeito desde que a sua próstata o deixou brocha e amargo. Ele era um tanto rabugento, mas foi generoso comigo. Aproveitei-me dele o quanto pude, eu precisava beber e comer de vez enquanto, e sinceramente, um delinqüente da literatura como eu, que tem uma boca suja como a minha, não tem condições nem mesmo de beber ou comer. Porque as moedas que junto com meus textos sempre valeram menos do que o meu pau. Quando fui jovem, descolava mulheres carentes e sozinhas. Mas depois que minha barba e meu cabelo ficaram brancos, a minha barriga também cresceu; o meu saco espichou e o meu pau também caiu de produção. Então elas me abandonaram. Ao menos o velho Charle gostava do meu corpo e do meu sexo.
Quando o encontrei, ele já fedia junto dos litros de cachaça, cheio de moscas lambendo a sua carne fria. Fazia dias que eu não o via. E naquela manhã, eu precisava de um copo de rum e um pastel gorduroso para enganar o meu pulso falho e as minhas tripas doentes de fome. Eu queria beber e comer, e não imaginei encontrar o velho Charle desse jeito. Depois que o vi, fiquei sem ação por um tempo, mas algo acendeu dentro de mim e eu ao menos o lavei, troquei-o de roupas e o encomendei para debaixo da terra, como devia. Não nego que assim que despachei o cadáver tratei de arranjar um maçarico para abrir o seu cofre. Eu tinha de fazer isso, porque eu esperava encontrar algum dinheiro. Mas quando dei de cara com aquele amontoado de notas e o testamento, reconheço que fiquei engasgado. Afinal, nem mesmo a minha mãe importou-se comigo e deixou-me naquele orfanato imundo a mercê daqueles padres infames e depravados, que me obrigavam a entregar-lhes meu membro ereto para que o chupassem até a exaustão. Ao menos o Charle e eu nunca pregamos um sermão enfatizando o certo e o errado. Somos tortos desde o nascer, mas somos honestos, mesmo que tenhamos passado todas as nossas vidas entregues a todo o tipo de sacanagem e contravenção. Não nego que tenho pequenos furtos em minha ficha, e uma passagem por tráfico, mas como disse, eu sempre soube quem era e nunca menti sobre mim, e o velho Charle também. E a única certeza que tenho em minha vida, é que um homem precisa de coragem para se conhecer e se assumir como ele realmente é.
Hoje tenho onde dormir, onde beber e ainda ganho uns trocados, além de estar livre do aluguel por todo o sempre. Ao menos agora, posso ficar tranqüilo aqui em Havana, porque como comerciante, se é que posso me dizer assim, não terei mais de me preocupar com a deportação. Posso ficar aqui, entre esses prédios demolidos que a pobreza transformou em cortiços para todo o tipo de animais. Sim, os desalmados como eu são como répteis, vagabundos relaxados ao sol enquanto aquecemos nosso sangue em busca de um pouco de vontade, nem que seja para andar duas ou três quadras em busca de um pouco de rum ou alguns ovos para enganar o estômago.
Esse casarão é imenso, e pelo que vi na escritura foi herança de família. Essa semana, falei com algumas mulatas sem vergonha e acertei com elas um trabalho. Eu as deixarei morar nos infinitos quartos espalhados por esses três andares em troca de cinqüenta por cento de tudo que elas faturarem com seus corpos. Pode não ser um negócio bem visto, mas ao menos é rentável. Não temo repreensões celestiais porque vivo como um demônio por entre dragões sujos e mesquinhos como a maioria dos santos e beatos. E nem mesmo me importa que me chamem de Judas, ou de qualquer coisa que julguem pesada o suficiente para designar um réptil faminto e sujo como eu. Eu sou alguém que se conhece por dentro, e posso dizer que sexo, bebidas e dinheiro me interessam sempre. Desde que isso chegue até mim, pelo caminho mais sujo e desafortunado possível. Afinal de contas, um ser como eu, precisa apodrecer por entre a sujeira e os répteis, antes mesmo de morrer.       

Voe asas curtas.

Achei bonito o gesto do Dick, ele deu a mão para a menina e a ajudou a saltar a poça de água no meio da rua de terra. Eu acompanhava tudo enquanto fumava na porta de casa e esperava por ele. Chamei meu amor para ver aquela cena, ela abandonou o feijão no fogo e assim que bateu os olhos naqueles dois, me abraçou e me beijou. “Parece que ele veio de você, Blindado.”, foi o que ela me disse. Eu não falei nada, mas eu sabia que aquele elogio era um exagero, uma obra do amor, tão grande quanto o que o Dick havia feito para que a menina não molhasse seu calçado. Aliás, a coisa mais amorosa que fiz em minha vida foi adotar o Dick.
O moleque abriu um grande sorriso quando nos encontrou na porta. Ele disse, “Pai, mãe, essa é a Clara, o meu amor.”. Achei aquilo comovente, puro, limpo. A menina era filha de uma moradora lá do final da rua. A mãe dela era a Marisa, e o seu pai era o Marcelo. Não éramos íntimos, mas aqui na comunidade todo mundo sabe quem é quem. Por sorte, aquele dia o meu amor havia feito um pão de milho espetacular e eu tinha comprado um pouco de manteiga, então a gente conseguiu servir um lanche gostoso aos dois.
Deixei meu anjo cuidando do almoço e fui partir um pouco mais de lenha. Enquanto eu alvejava a madeira com o meu machado, a minha temperatura corporal aumentava e espantava aquela sensação gelada que só o minuano é capaz de fazer. Quase transpirando, tirei meu casaco, e quando me virei para pendurá-lo, vi o Dick gradeando a lenha lascada. “A sua garota é um doce.”, falei. Ele não disse nada, mas mostrou seus dentes como quem sentia um monte de coisas parecidas com as que eu sentia pela minha companheira de tantos anos. Naquele instante, eu tive mais uma prova de que o Dick crescia como um grande homem. Ele é muito melhor que eu. E qual pai não quer que seu filho seja uma boa pessoa?
Assim que terminamos com a lenha passamos para dar uma revista nas codornas. Juntamos dez dúzias de ovos, lavamos e guardamos nas caixas. Entramos em casa e aquele cheiro de feijão tomava conta de toda a cozinha. As minhas tripas roncaram. Acendi um cigarro enquanto esperava. O Dick foi lavar as mãos e o meu amor falou: “Não vai demorar.”. Embora estivesse com fome, eu não tinha pressa e apreciava um gole de pinga ao lado da janela. O Dick sentou ao meu lado, em frente ao fogão à lenha. Pediu uma cuia de mate e ficou ali, me olhando com aqueles olhos grandes. Assim que ele terminou de beber, ajudou a colocar a mesa. Ele se importava com as coisas e procurava colaborar de um jeito que me enchia de orgulho, o amor ao trabalho é uma virtude tão grande como a capacidade de amar direito nesse mundo torto.
O almoço estava maravilhoso. Deixei o Dick e meu amor em casa e fui até a cidade entregar a lenha e os ovos. A carroça estava bem cheia e as ferraduras das mulas faziam com que elas buscassem muita força para subir as lombas, porque a neblina junto da garoa deixava os paralelepípedos da rua mais lisos do que sabão. Fiquei com pena dos animais e desci, para aliviar a viagem. O frio só fazia crescer. Nem mesmo a caminhada dava conta de aquecer meus ossos. Queria chegar logo em casa. Por isso peguei outro caminho para diminuir a distância. Por ali, eu precisava atravessar o campo de futebol nos fundos da rua. Era um terreno baldio, que a gurizada transformou em diversão, ficava ao lado da casa da Clara, a namoradinha do Dick.
Quando cheguei até a frente do barraco do Marcelo, parei para acender um crivo e não pude deixar de ouvir a briga. Eu não sabia que ele batia na mulher e cagava para a filha. Deu para sentir o cheiro do crack que vinha pela sua janela entreaberta. Naquele momento, eu não sabia o que fazer, mas naquele instante, o meu coração passou a berrar, “Desce; porra!”, e eu apeei. Bati na porta. “Vá embora, Blindado.”, reconheci a voz do Marcelo. “Marcelo, o que está havendo aí?”, perguntei. “Isso não é da sua conta.”, ele disse, enquanto colocava a sua cara para fora.
A Marisa aproveitou a distração do marido e correu para fora de casa com a Clara nos braços. As duas estavam muito assustadas. E mais uma vez, eu não sabia o que dizer; o que fazer. Então o Marcelo saltou para fora com uma faca na mão. Eu vi tudo preto em minha frente, e quando voltei a mim, avistei o Marcelo caído no chão, com o meu machado cravado em sua cabeça. Foi quando percebi que o meu braço sangrava muito. Eu havia recebido um golpe de faca. As gotas de sangue caíam como chuva. Em pouco tempo estava cheio de gente na volta. Vi quando meu amor e o Dick corriam em minha direção. Angustiada, minha companheira lavou meu braço ao tempo em que se dividia em atenções, entre eu, a Clara e sua mãe. No impulso, o Dick correu e chutou o corpo do Marcelo, ele sentia muita raiva, que triste.
Não demorou muito e a polícia chegou. Eu senti medo. O cana foi gentil comigo, “Não vou te algemar.”. Eu fiquei um tanto quanto nervoso na delegacia. “Diga a verdade, só.”, observou o delegado. Naquele momento, engoli um caroço, grande como um cadeado que se apossava da minha garganta. Eu pensava na prisão, e essa possibilidade me subtraía, me assassinava. Então eu comecei a falar, “Aquele verme queria matar a mulher e a filha.”.
Quando cheguei, encontrei o Dick e a Clara, abraçados. Ela chorava e ele cuidava dela com todo o seu amor. “Pai, você é um herói.”, “Obrigado, tio.”. Naquele momento eu chorei, chorei muito. Para um homem como eu, que já teve tantos problemas com a lei, ser aliviado daquela forma, é uma benção tão grande como a de um pássaro que recebe o céu de volta. A liberdade me fez feliz como a Marisa, mãe da Clara, que agora via suas asas curtas crescendo e tinha certeza de que voaria de novo.