Theory Of Evolution
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Eles queriam rebater a Teoria da Evolução, mas eis que ela surge. O nome da autora do vídeo é Cristina e ela é Romena. Esse vídeo é sobre a iniciativa de Kir...
Animal de rua.
Posted on 12:45 by Afobório.
Um dia me vi sujo, sozinho. Não me lembrava de quem era ou de onde vim e para aonde ia. Precisei sentar e aprender tudo mais uma vez. Como uma criançinha indefesa. Tateei o mundo sem proteção. Mas aprendi a viver desse jeito. Quando perguntam minha idade, repondo que tenho oito anos. Eles não crêem. Isso não me incomoda. Esse é o tempo que conta a partir do dia que acordei aqui.
Hoje, minha vida é abundante em meio a tudo que é considerado lixo. Eu já não sei o que carregava dentro de mim. Não imagino como será meu amanhã. Vivo o presente. As pessoas que moram pelas ruas são um mistério que estou aprendendo a conhecer ao mesmo tempo em que me encontro comigo mesmo.
Gostei de ver os dias como me são agora. Sou abstrato aos olhos das pessoas limpas. Acostumei-me. É o que desejo e me cai bem, o podre e o abandono. Meus pensamentos são destilados na loucura. Tenho a impressão de que escolhi isso tudo. Mas não sei mais nada sobre meu passado. Isso ficou em algum lugar que não sei qual é.
O agora me agrada. Pela primeira vez em minha vida, estou vivendo de pedaços de papel onde escrevo coisas. Vou ao mesmo bar todas as noites, para ganhar algumas moedas do pessoal que enche a cara nas mesas. Entrego um poema, um conto, o que ganho me serve. É pouco para eles e muito para mim.
O dia é mais amarrado, ninguém tem um humor leve. Sei disso porque as pessoas não andam do meu lado na rua, a maioria vai para longe. Mas o tratamento melhora durante a noite, a droga e o álcool deixam o pessoal mais tranqüilo, interativo, então eles consomem o que escrevo, nem que seja por caridade.
Vivendo assim, nesse paraíso, passei a beber cachaça quente, no bico. Aprendi a aproveitar cada gole que raspa minha garganta. Aprecio porque sei que fazer isso dissolve algo em mim. Não sei se a bebida abate o bom ou o ruim, só o que sinto é uma mutação.
Com tudo que me é, fiz alguns amigos na rua. O mais engraçado deles, conheci no mesmo viaduto onde durmo até hoje. Seu nome é Lolo. Tinha dias que ele me contava que era um astronauta. Noutro ele competia na Fórmula 1. Às vezes era justiceiro. Mecânico. Médico. Policial. E até piloto de avião.
Já fazia um tempo que não via o Lolo. Por isso me surpreendi. Naquela manhã, o trânsito estava bem complicado. Assim que abri os olhos descobri os dedões dele perto de minhas fuças. Era o mesmo Lolo. Fedia como eu e como sempre.
Logo ouvi aquela gargalhada de fantasma. Característica dele.
- Como vai Andaré? – não sei por que ele me chamava assim, no entanto, não fazia diferença.
- Como as moscas – respondi e sorri – Aceita uma bala de menta?
- Obrigado. – esticou a mão e pegou.
- Como estão seus dentes?
- Assim. – escancarou os beiços e deu aquele sorriso que me deixou pasmo.
- Não se preocupe, logo os seus estarão assim também. E se tudo der certo, vai trabalhar comigo no shopping grande, ali do lado da praça da polícia. Saca?
- Claro, eu fico agradecido. – respondi.
- Educação é uma coisa boa. Coisa que o sorveteiro ali da esquina não tem. Não existe cadeira para sentar na sorveteria dele. Lá no shopping, a gente valoriza muito a educação dos funcionários.
- Claro. – concordei.
- O pessoal capota carros para que o seguro dê um novo. Correm como foguetes. Quando eu olho aqueles faróis eu fico cego. Quem dorme em viaduto tem sete vidas, igual gato. É por isso que sou importante para o exército nacional das forças unidas. Eu comando todos eles. E também mando nos carros porque sou o maior presidente de todo o shopping.
- Eu sei. Você é o cara.
- Me diga uma coisa. Bebeu muito ontem à noite?
- Bastante, tanto que apaguei. – confessei.
- Eu percebi. Tive de matar o monstro sozinho. Fiquei preocupado com o barulho das pedradas, eu não queria que você acordasse durante a confusão.
- Matou um monstro?
- Sim, matei sim. Ele usava uma gravata vermelha e um terno. Parou o carrão alado aqui do lado. Estava com um fósforo na mão. Eu cheguei bem na hora.
- Matou ele a pedradas...
- Foi.
- Me mostre o monstro.
- Os caras já o carregaram. Chegaram de ambulância e tudo. Aquela da cruz. Mas tem muito sangue ali. – disse, enquanto apontava para o outro lado da faixa que vizinhava com a parede do viaduto.
- Vamos até lá.
Levantamos. Lolo esticou o braço, abriu bem os dedos da mão e passou a gritar:
- Parado. Investigador. Investigador de polícia. - e os motoristas frearam, sobraram palavrões, mas conseguimos passar para o lado de lá. O Lolo imitou com perfeição.
Chegamos. Lolo mostrava com o indicador. Olhei para o chão e vi o concreto. Não havia nada ali.
- Viu só. Eu sou um ótimo caçador de monstros. Agora preciso ir. Está no meu turno. Vou trabalhar lá no cinema do shopping. Eles pagam um milhão pelo serviço. Preciso chegar logo.
Lolo foi embora e me deixou rindo, sozinho, sujo e com fome. Lembro que bebi cachaça para forrar o estômago. Eu sempre faço isso. Eu gosto de beber ao mesmo tempo em que como pão, mas nesse dia eu não tinha nenhum pedaço. Apodreci mais uma vez. E permaneci embriagado durante dias.
Acordei com o guarda que chutava minha perna. Contaram-me que Lolo foi atropelado. A polícia chegou até mim porque encontrou um conto meu no bolso dele. Queriam saber se era parente. Eu disse que sim. Inventei um nome, Andaré Santos. Ele vai ganhar uma placa com esse nome lá no cemitério. Ao menos não foi enterrado como indigente, e sei onde posso falar com ele durante as tardes de bebedeira.
O pessoal mais antigo, que dorme por aqui, diz que o Lolo foi taxista. E também, que ele bebia duas garrafas de uísque por dia enquanto dirigia. Um dia, ele se envolveu num acidente. Ele caía de bêbado aquela noite. Parece que aconteceu no mesmo lugar onde ele me disse que havia matado o monstro para me salvar. Segundo fiquei sabendo, esse desastre custou à vida de uma mãe e uma filha ainda de colo. Coitado do Lolo. Foi morto onde matou.
Eu continuo aqui, igual um animal de rua.
Hoje, minha vida é abundante em meio a tudo que é considerado lixo. Eu já não sei o que carregava dentro de mim. Não imagino como será meu amanhã. Vivo o presente. As pessoas que moram pelas ruas são um mistério que estou aprendendo a conhecer ao mesmo tempo em que me encontro comigo mesmo.
Gostei de ver os dias como me são agora. Sou abstrato aos olhos das pessoas limpas. Acostumei-me. É o que desejo e me cai bem, o podre e o abandono. Meus pensamentos são destilados na loucura. Tenho a impressão de que escolhi isso tudo. Mas não sei mais nada sobre meu passado. Isso ficou em algum lugar que não sei qual é.
O agora me agrada. Pela primeira vez em minha vida, estou vivendo de pedaços de papel onde escrevo coisas. Vou ao mesmo bar todas as noites, para ganhar algumas moedas do pessoal que enche a cara nas mesas. Entrego um poema, um conto, o que ganho me serve. É pouco para eles e muito para mim.
O dia é mais amarrado, ninguém tem um humor leve. Sei disso porque as pessoas não andam do meu lado na rua, a maioria vai para longe. Mas o tratamento melhora durante a noite, a droga e o álcool deixam o pessoal mais tranqüilo, interativo, então eles consomem o que escrevo, nem que seja por caridade.
Vivendo assim, nesse paraíso, passei a beber cachaça quente, no bico. Aprendi a aproveitar cada gole que raspa minha garganta. Aprecio porque sei que fazer isso dissolve algo em mim. Não sei se a bebida abate o bom ou o ruim, só o que sinto é uma mutação.
Com tudo que me é, fiz alguns amigos na rua. O mais engraçado deles, conheci no mesmo viaduto onde durmo até hoje. Seu nome é Lolo. Tinha dias que ele me contava que era um astronauta. Noutro ele competia na Fórmula 1. Às vezes era justiceiro. Mecânico. Médico. Policial. E até piloto de avião.
Já fazia um tempo que não via o Lolo. Por isso me surpreendi. Naquela manhã, o trânsito estava bem complicado. Assim que abri os olhos descobri os dedões dele perto de minhas fuças. Era o mesmo Lolo. Fedia como eu e como sempre.
Logo ouvi aquela gargalhada de fantasma. Característica dele.
- Como vai Andaré? – não sei por que ele me chamava assim, no entanto, não fazia diferença.
- Como as moscas – respondi e sorri – Aceita uma bala de menta?
- Obrigado. – esticou a mão e pegou.
- Como estão seus dentes?
- Assim. – escancarou os beiços e deu aquele sorriso que me deixou pasmo.
- Não se preocupe, logo os seus estarão assim também. E se tudo der certo, vai trabalhar comigo no shopping grande, ali do lado da praça da polícia. Saca?
- Claro, eu fico agradecido. – respondi.
- Educação é uma coisa boa. Coisa que o sorveteiro ali da esquina não tem. Não existe cadeira para sentar na sorveteria dele. Lá no shopping, a gente valoriza muito a educação dos funcionários.
- Claro. – concordei.
- O pessoal capota carros para que o seguro dê um novo. Correm como foguetes. Quando eu olho aqueles faróis eu fico cego. Quem dorme em viaduto tem sete vidas, igual gato. É por isso que sou importante para o exército nacional das forças unidas. Eu comando todos eles. E também mando nos carros porque sou o maior presidente de todo o shopping.
- Eu sei. Você é o cara.
- Me diga uma coisa. Bebeu muito ontem à noite?
- Bastante, tanto que apaguei. – confessei.
- Eu percebi. Tive de matar o monstro sozinho. Fiquei preocupado com o barulho das pedradas, eu não queria que você acordasse durante a confusão.
- Matou um monstro?
- Sim, matei sim. Ele usava uma gravata vermelha e um terno. Parou o carrão alado aqui do lado. Estava com um fósforo na mão. Eu cheguei bem na hora.
- Matou ele a pedradas...
- Foi.
- Me mostre o monstro.
- Os caras já o carregaram. Chegaram de ambulância e tudo. Aquela da cruz. Mas tem muito sangue ali. – disse, enquanto apontava para o outro lado da faixa que vizinhava com a parede do viaduto.
- Vamos até lá.
Levantamos. Lolo esticou o braço, abriu bem os dedos da mão e passou a gritar:
- Parado. Investigador. Investigador de polícia. - e os motoristas frearam, sobraram palavrões, mas conseguimos passar para o lado de lá. O Lolo imitou com perfeição.
Chegamos. Lolo mostrava com o indicador. Olhei para o chão e vi o concreto. Não havia nada ali.
- Viu só. Eu sou um ótimo caçador de monstros. Agora preciso ir. Está no meu turno. Vou trabalhar lá no cinema do shopping. Eles pagam um milhão pelo serviço. Preciso chegar logo.
Lolo foi embora e me deixou rindo, sozinho, sujo e com fome. Lembro que bebi cachaça para forrar o estômago. Eu sempre faço isso. Eu gosto de beber ao mesmo tempo em que como pão, mas nesse dia eu não tinha nenhum pedaço. Apodreci mais uma vez. E permaneci embriagado durante dias.
Acordei com o guarda que chutava minha perna. Contaram-me que Lolo foi atropelado. A polícia chegou até mim porque encontrou um conto meu no bolso dele. Queriam saber se era parente. Eu disse que sim. Inventei um nome, Andaré Santos. Ele vai ganhar uma placa com esse nome lá no cemitério. Ao menos não foi enterrado como indigente, e sei onde posso falar com ele durante as tardes de bebedeira.
O pessoal mais antigo, que dorme por aqui, diz que o Lolo foi taxista. E também, que ele bebia duas garrafas de uísque por dia enquanto dirigia. Um dia, ele se envolveu num acidente. Ele caía de bêbado aquela noite. Parece que aconteceu no mesmo lugar onde ele me disse que havia matado o monstro para me salvar. Segundo fiquei sabendo, esse desastre custou à vida de uma mãe e uma filha ainda de colo. Coitado do Lolo. Foi morto onde matou.
Eu continuo aqui, igual um animal de rua.
