A cortina do mal vista de uma escrivaninha.

A Segunda Guerra Mundial começou. Parece que as coisas andam feias para nossas tropas. No mar, os submarinos Alemães são quase invencíveis, eles estão nas profundezas, escondidos no inferno. Primeiro um deles identifica um de nossos comboios encarregados de resgatar e abastecer os nossos homens, depois envia um sinal via radar para seus companheiros, reúnem-se em matilha e atacam a gente. Dizem que acontece sempre pelas nossas costas. Segundo o que comentam, eles detêm um canhão muito poderoso, que causa sérias avarias em nossos cascos. Eles são chamados de lobos, acho que entendo o motivo.
Em terra, eles são terríveis, detém tanques com uma blindagem muito espessa e muita velocidade. Parece que a infantaria usa homens com lança-chamas de um incrível poder de destruição, eles incendeiam tudo. Imagino como nossos homens acabam em meio a tanta crueldade. Eu não entendo os motivos que levam uma civilização a usar a sua mente para um mau tão arrogante e sem sentido como eles. Parecem-me desalmados, eles dispõem de tantos homens na frente de batalha que é difícil de acreditar. O sentimento daquele povo é o de destruir e conquistar, eles querem o mundo inteiro aos seus pés.



Eles estão muito perto. A movimentação é grande. Existem cartazes por todos os lugares que informam as estradas que ainda encontram-se liberadas. A evacuação da cidade é mostrada como opção para aqueles que possuem parentes em lugares distantes, vistos como seguros. Todos os museus e bibliotecas estão abarrotados de caminhões que tem a missão de preservar a nossa cultura, a nossa arte. Olho no semblante das pessoas e vejo um medo terrível.
Continuamos a distribuir o nosso pasquim, com o intuito de inflamar os nossos, e de fornecer o máximo possível de informação. Estamos numa guerra e precisamos usar de tudo para evitarmos que aquele homem monstro pise aqui com suas tropas e venha promover o seu ódio por entre a minha querida Paris. Um centro mundial, de rara beleza e que sempre manteve suas portas abertas para o mundo inteiro.



Estamos com problemas de comunicação, nossas emissoras de TV e rádio estão com infinitas dificuldades para manterem-se em funcionamento. Eu não sei até quando vamos resistir. Os bombardeios continuam incessantemente. Mesmo com todos os abrigos que foram construídos, não existe espaço para toda a população. Fala-se em diminuir o estoque de comida nos abrigos para que se consiga receber mais gente. A todo o momento, chegam refugiados, sujos, feridos, doentes, nus. Deus, eu não entendo, eu juro.
Eu olho em minha volta e vejo tijolos, ferros, escombros por onde quer que eu alcance. Muitos estão fazendo de tudo para conseguir uma vaga nos abrigos. Até onde sei: crianças, mulheres e homens saudáveis têm preferência. É uma tentativa de preservar vidas para que se possa criar uma nova tropa. Estamos num momento tão delicado, que estamos obrigados a escolher quem vive e quem morre. Espero que Deus nos perdoe por isso.



Eles chegaram. Minha Paris está em preto. Há um cheiro de fumaça no ar, e uma nuvem escura no céu, como uma cortina de ferro, mais forte que os raios do sol. Tem dias que ele não se mostra. Um sinal de que a maldade está aqui. Olho da minha janela e vejo o jardim mudado, triste. As folhas e as pétalas estão cobertas por um dedo de poeira escura e fúnebre como nunca poderia imaginar.
Sinto o cheiro forte dos corpos ainda perdidos por entre os escombros. Escuto o ronco dos motores das máquinas de guerra e dos tratores de concha que empilham milhares de corpos. Agora, temos de usar uma faixa no braço que indique a nossa raça. Os Judeus usam a Estrela de David no braço, e nós, Franceses, as cores da nossa bandeira. É proibido sair na rua sem a identificação. Também precisamos usar uma faixa na porta de nossas casas com o mesmo propósito. As ordens do Terceiro Reich vão ainda mais longe, ninguém em Paris pode trancar a porta de sua própria casa. A pena para quem desobedecer qualquer uma dessas ordens é a morte.



Hoje fomos humilhados em praça pública. Obrigados a assistir o desfile da vitória desses malditos cães selvagens. Eles mostram todo o seu armamento e nos olham com ar de superioridade. Percebo como examinam a nossa alma. Estamos saudando aquele demônio em forma de homem como se a gente fosse como ele.
Estamos vencidos, mas não derrotados. Foi o que senti quando olhei um de nossos soldados ao lado de um oficial Alemão. O invasor o olhava com arrogância enquanto apontava uma arma para o nosso homem. Era uma cena muito feia aos meus olhos, no entanto, quando vi o francesinho miúdo encarando o invasor olho no olho, me senti reconfortado.



Continuamos a distribuir o nosso pasquim. A fiscalização é enorme e o regime é totalmente totalitário. Não temos liberdade para nada. Existem obras literárias, arte e cultura deles por todos os lugares. Eles invadem até nossas escolas e temos de rezar conforme a cartilha deles.
Encontramo-nos semanalmente em lugares secretos, para discutirmos os rumos da nossa resistência, do nosso ativismo. Embora estejamos com as botas deles sobre a gente, ainda não nos entregamos. E segundo o que sei, já conquistamos vitórias importantes, na frente de batalha. Os focos de resistência não param de surgir e atacar aqueles vermes. Eles não terão trégua. A nossa força, vem da tristeza em nosso âmago.



A minha Paris foi liberta. O povo está nas ruas, e embora toda a destruição que vejo, percebo que um novo tempo recomeça. Estamos prontos para florescer, tal qual o meu jardim, que parece sentir a bonança. Acho que as cinzas farão da nossa nação, o berço de um renascimento mundial. É isso que sinto. É nisso que acredito com todo meu fervor.
Sabemos que Berlim está prestes a ser invadida. Até onde sei o inimigo está cercado, muito avariado e perdeu muitos de seus veteranos de guerra. Pelo visto, eles não contam com homens experientes e sofrem do cansaço de infinitas batalhas duras e prolongadas. Sinto que essa guerra está próxima do fim. Tomara Deus que eu esteja certo.



Recebi informações importantes. Viramos a guerra. O mundo inteiro está livre do Nazismo. Os aliados estão em Berlim. Os tiranos experimentam o gosto da derrota e a maldade que o mundo sentiu. Até onde sei, eles estão mais derrotados do que qualquer nação.
Segundo as notícias que chegam, Hitler se matou. Eu lembrei-me daquele soldado Frances enquanto assistíamos os Alemães tripudiarem da gente. Eu jamais morreria pelas minhas próprias mãos. Eu teria o mesmo brio que o nosso soldado mostrava ao encarar aquele porco que lhe apontava uma arma. Sei que não deveria nutrir e externar esse tipo de sentimento, mas estou feliz com a vingança.

Afobórios

238. (1) A beleza das bestas. (1) A cortina do mal vista de uma escrivaninha. (1) A dona do rio. (1) A fazenda das rosas. (1) A fome e a ordem no meio de uma guerra. (1) A fome e a vontade de comer. (1) A importância das coisas. (1) A lavoura de ópio. (1) A maldição do pardal. (1) A menina. (1) a morte (1) A morte esperava e viu tudo. (1) A mulher acordou e olhou seu homem. (1) A mulher dos mortos. (1) A mãe do mal. (1) A seção. (9) A sombra do muro. (1) A tempestade e os ratos que beiram os valos. (1) A via expressa e o açúcar (1) A visita do padre e a sua maldição. (1) A última mordida. (1) A última vez. (1) Abutres e cães. (1) Afobórios (185) Animal de rua. (1) Antes de dormir. (1) Aos olhos de um pobre homem na laje. (1) As confissões de um soldado – parte II. (1) As confissões de um soldado. (1) As flores. (1) As moscas. (1) Assassinos S/A Vol. II (1) Azul. (1) Balaclava. (1) Batente – A benção dos ovos e o milagre do machado. (1) Belo Zebu. (1) Betão (1) Bichos escrotos. (1) Biografia suja. (1) Blindado (3) Boca fechada. (1) Bêbado (1) Cagado. (1) Cais. (1) Camaleão. (1) Carlos detinha um poder curioso. (1) Chapéu branco. (1) Cigarros para a mamãe. (1) Circo de horrores. (1) Clarão. (1) Como chamar o capeta. (1) Conta-gotas (1) Contos (2) Coração açucarado. (1) Criaturas no banheiro. (1) Dante e as baratas. (1) Dante e o paradigma do universo. (1) Dante explica. (1) Dentro de mim. (1) Devaneios viciados (1) Distimia. (1) Diário de um amotinado. (1) Diário de um esquizofrênico. (5) Diário de um matador. (3) Diário triste. (1) Doce Janela. (1) Dois dias até o lixo. (1) Ele se chama Don Francis. (1) Entre quatro paredes. (1) Especial. (1) Estância tristeza. (1) Eu (1) Eu e o Carl. (1) Eu e o meu defensor (1) eu leio a sua sorte. (1) Eu nunca fui bom. (1) Eu também te amo. (1) Eu vim do inferno para derrubar o céu. (1) Experiência fantástica. (1) Fiapos do meu fim. (1) Fim de semana no parque. (1) Foi só o tempo de tomar um trago. (1) Guardanapos. (1) Hidroponia. (1) Imagine uma criatura moderna. (1) Infiel. (1) Inocência romântica. (1) Joana. (1) Jorge não tem a cabeça e planta flores mortas. (1) Jornais no parque. (1) Lançamento - Carta aos amigos e leitores. Livre para ser preso (1) Livre para ser preso (2) Livre para ser preso. Prefácio. (1) Lobo ao mar (1) Mais dois no mundo zero. (1) Mamãe não dormiu em casa. (1) Manequins e gatos. (1) Matar e viver. (1) Medonho. (1) Menino (1) Meu anjo é a morte e a chuva. (1) Michel está salvo. (1) Mistério (1) Na companhia do medonho. (1) Nenhuma paz. (1) No escuro. (1) No meio do matagal. (1) Notas rápidas. (5) O adeus. (1) o amor e a morte. (1) O beijo da morte. (1) o Charle e eu. (1) O confesso de uma noite última. (1) O conselho. (1) O copo cheio de Joice. (1) O céu da boca do jovem vigário. (1) O delírio. (1) O diário. (1) O dono do medo. (1) O duelo. (1) O escuro. (1) O espantalho do amor. (1) O fantasma de Ismael. (1) O fio da navalha. (1) O iguana do 208. (1) O invasor. (1) O maior homem do mundo. (1) O pastor maldito. (1) O primeiro dia. (1) O pó da arena. (1) O reencontro de Jack e Charles. (1) O silêncio de Josef. (1) O sonho da bola. (1) O trem e a barragem. (1) O velho e o viajante. (1) O ventre da terra (1) O último corpo (1) Os amores de Ane Cannel. (1) Os crimes da limusine eram sepultados na masmorra. (1) Os dias de Jack e o casarão. (1) Os dois milagres de Sete. (1) Os galos e a Gloria. (1) Os noivos. (1) Os versos do menino Abel. (1) Paloma e o pombo. (1) Patos para um homem de ferro. (1) Poema (1) Poema alado. (1) Poema da clausura em receio. (1) Prado escaravelho. (1) Primeiro amor. (1) Publicação. (7) Punhal. (1) Punk nunca morre. (1) Pés fortes para um coração bom. (1) Quando um presidente foi embora. (1) Quatro olhos. (1) Queima de arquivo: uma linha letal. (1) Quem é ela? (1) Recordações de uma guerra. (1) Roda de Fogo. (1) Romance 32. (1) rouco e louco. (1) Satisfeito. (1) Selvagens. (1) Sem ter para onde ir. (1) Sete dias. (1) Sobreviver sem enlouquecer é uma sorte. (1) Sombras por todo o céu. (1) Sonhe Golias. (1) Suicida. (1) Sábado. (1) Toque maldito. (1) Trecho (1) Trecho do Livro (1) Tremelique. (1) Tristes como eu. (1) Um diamante no estômago. (1) Um favor para Dona Flor. (1) Um furo no sol. (1) Um matador em casa. (1) Um novo nome para um garoto. (1) Um número para o rei. (1) Um passeio aos oito anos. (1) Um pouco de sujeira para a sorte (1) Um presente para alguém. (1) Uma cabeça na lixeira. (1) Uma capela para o diabo. (1) Uma carona para a morte. (1) Uma estória. (1) Uma noite com o Diabo. (1) Uma noite de chuva para uma mulher com um pouco de sorte. (1) uma noite feita de muita carniça. (1) Uma nova vida. (1) Urubu de velório. (1) Voadores no controle. (1) Voe asas curtas. (1) Willy pancas. (1) À espera de Magali. (1) À espera de um amor. (1)