Fim de semana no parque.

A mamãe brigou comigo, nesse dia, ela tem essa mania. Eu havia saído tinha pouco tempo, estava em casa, fazia dois meses, depois de viver seis anos no manicômio. O doutor estava enganado, ele me dizia que em minha casa, eu seria feliz. “Cara, está velho demais para esse tipo de coisa.”. – foi o que minha mãe disse, quando comentei sobre o parque.
Ela, o seu namorado e seus amigos estavam lá em casa, numa dessas festinhas loucas. Eles bebiam, assavam uns espetinhos e usavam um monte de drogas. Então, como a mamãe não me deixou participar da junção, eu liguei a televisão e assisti ao anúncio, foi por isso que tive a idéia de pedir, “Mãe, me leva no parque?”. Era uma chance para que a gente pudesse se divertir juntos; entende? O não dela me deixou triste. O parque estava a poucas quadras de casa.
Eu pirei a cabeça e fui até lá, escondido, eu pulei a janela. Eu olhava o maquinista mexer naquela roda gigante, cheia de gente. O cara acionava botões e alavancas. Eu sempre quis andar numa dessas, mas eu nunca tive grana para fazer isso. Eu também nunca tive pais que me levassem num parque. Eu gosto de andar em uma roda gigante, mesmo sem nunca ter experimentado essa sensação. Esse tipo de passeio é bom. Eu também sei que posso ser o melhor maquinista de roda gigante do mundo inteiro, mesmo sem nunca ter comandado uma delas.
Eu também gosto de comer algodão doce, mesmo sem conhecer o gosto de um, tem coisas que a gente sempre gosta, não importa se nunca experimentamos aquilo que gostamos. Eu me sinto bem confuso. Fico feliz olhando a roda gigante, também fico triste e muitas vezes eu sinto muita raiva de quem anda numa ou pilota uma delas. Algumas vezes, eu também odeio a mamãe, o seu namorado e os amigos deles, eu detesto muita gente e execro quem come algodão doce.
Eu estava com a mão no bolso de meu casaco, com a minha garganta seca, meus olhos cheios de lágrimas e o meu queixo tremia muito. O meu coração estava bem apertado, como o de um cão que morde o próprio rabo. É assim que eu me sinto.
Quando tudo acabou, a minha pistola estava descarregada. Eu a segurava em minhas mãos. O maquinista havia caído em minha frente e sangrava no rosto. Algumas pessoas caídas perto de mim também sangravam. Muita gente corria e gritava. Lembro de ver muitas sirenes e uma porção de policiais, usando preto, empunhando armas maiores que a minha em minha direção. Um deles falava um monte de bobagens num desses alto-falantes bonitos que só os policiais têm. A roda gigante estava parada e uma galera despencava lá de cima. Elas queriam fugir, sei lá. Eu fiquei olhando tudo aquilo, sem saber o que pensar.
O advogado público que me defendeu disse que fez tudo o que podia. Eu não sei se acredito nele. A única coisa que sei é que ainda me faltam bons anos de cadeia até sair daqui e poder olhar para uma roda gigante de novo. A minha mãe disse que não vai me aceitar de volta. Eu estou cagando para isso, até porque, dessa vez, eu não a convidarei para me levar no parque. Eu juro; dessa vez, eu a matarei, vou atirar em seu namorado e todos aqueles amigos bobos que ela tem.

Afobórios

238. (1) A beleza das bestas. (1) A cortina do mal vista de uma escrivaninha. (1) A dona do rio. (1) A fazenda das rosas. (1) A fome e a ordem no meio de uma guerra. (1) A fome e a vontade de comer. (1) A importância das coisas. (1) A lavoura de ópio. (1) A maldição do pardal. (1) A menina. (1) a morte (1) A morte esperava e viu tudo. (1) A mulher acordou e olhou seu homem. (1) A mulher dos mortos. (1) A mãe do mal. (1) A seção. (9) A sombra do muro. (1) A tempestade e os ratos que beiram os valos. (1) A via expressa e o açúcar (1) A visita do padre e a sua maldição. (1) A última mordida. (1) A última vez. (1) Abutres e cães. (1) Afobórios (185) Animal de rua. (1) Antes de dormir. (1) Aos olhos de um pobre homem na laje. (1) As confissões de um soldado – parte II. (1) As confissões de um soldado. (1) As flores. (1) As moscas. (1) Assassinos S/A Vol. II (1) Azul. (1) Balaclava. (1) Batente – A benção dos ovos e o milagre do machado. (1) Belo Zebu. (1) Betão (1) Bichos escrotos. (1) Biografia suja. (1) Blindado (3) Boca fechada. (1) Bêbado (1) Cagado. (1) Cais. (1) Camaleão. (1) Carlos detinha um poder curioso. (1) Chapéu branco. (1) Cigarros para a mamãe. (1) Circo de horrores. (1) Clarão. (1) Como chamar o capeta. (1) Conta-gotas (1) Contos (2) Coração açucarado. (1) Criaturas no banheiro. (1) Dante e as baratas. (1) Dante e o paradigma do universo. (1) Dante explica. (1) Dentro de mim. (1) Devaneios viciados (1) Distimia. (1) Diário de um amotinado. (1) Diário de um esquizofrênico. (5) Diário de um matador. (3) Diário triste. (1) Doce Janela. (1) Dois dias até o lixo. (1) Ele se chama Don Francis. (1) Entre quatro paredes. (1) Especial. (1) Estância tristeza. (1) Eu (1) Eu e o Carl. (1) Eu e o meu defensor (1) eu leio a sua sorte. (1) Eu nunca fui bom. (1) Eu também te amo. (1) Eu vim do inferno para derrubar o céu. (1) Experiência fantástica. (1) Fiapos do meu fim. (1) Fim de semana no parque. (1) Foi só o tempo de tomar um trago. (1) Guardanapos. (1) Hidroponia. (1) Imagine uma criatura moderna. (1) Infiel. (1) Inocência romântica. (1) Joana. (1) Jorge não tem a cabeça e planta flores mortas. (1) Jornais no parque. (1) Lançamento - Carta aos amigos e leitores. Livre para ser preso (1) Livre para ser preso (2) Livre para ser preso. Prefácio. (1) Lobo ao mar (1) Mais dois no mundo zero. (1) Mamãe não dormiu em casa. (1) Manequins e gatos. (1) Matar e viver. (1) Medonho. (1) Menino (1) Meu anjo é a morte e a chuva. (1) Michel está salvo. (1) Mistério (1) Na companhia do medonho. (1) Nenhuma paz. (1) No escuro. (1) No meio do matagal. (1) Notas rápidas. (5) O adeus. (1) o amor e a morte. (1) O beijo da morte. (1) o Charle e eu. (1) O confesso de uma noite última. (1) O conselho. (1) O copo cheio de Joice. (1) O céu da boca do jovem vigário. (1) O delírio. (1) O diário. (1) O dono do medo. (1) O duelo. (1) O escuro. (1) O espantalho do amor. (1) O fantasma de Ismael. (1) O fio da navalha. (1) O iguana do 208. (1) O invasor. (1) O maior homem do mundo. (1) O pastor maldito. (1) O primeiro dia. (1) O pó da arena. (1) O reencontro de Jack e Charles. (1) O silêncio de Josef. (1) O sonho da bola. (1) O trem e a barragem. (1) O velho e o viajante. (1) O ventre da terra (1) O último corpo (1) Os amores de Ane Cannel. (1) Os crimes da limusine eram sepultados na masmorra. (1) Os dias de Jack e o casarão. (1) Os dois milagres de Sete. (1) Os galos e a Gloria. (1) Os noivos. (1) Os versos do menino Abel. (1) Paloma e o pombo. (1) Patos para um homem de ferro. (1) Poema (1) Poema alado. (1) Poema da clausura em receio. (1) Prado escaravelho. (1) Primeiro amor. (1) Publicação. (7) Punhal. (1) Punk nunca morre. (1) Pés fortes para um coração bom. (1) Quando um presidente foi embora. (1) Quatro olhos. (1) Queima de arquivo: uma linha letal. (1) Quem é ela? (1) Recordações de uma guerra. (1) Roda de Fogo. (1) Romance 32. (1) rouco e louco. (1) Satisfeito. (1) Selvagens. (1) Sem ter para onde ir. (1) Sete dias. (1) Sobreviver sem enlouquecer é uma sorte. (1) Sombras por todo o céu. (1) Sonhe Golias. (1) Suicida. (1) Sábado. (1) Toque maldito. (1) Trecho (1) Trecho do Livro (1) Tremelique. (1) Tristes como eu. (1) Um diamante no estômago. (1) Um favor para Dona Flor. (1) Um furo no sol. (1) Um matador em casa. (1) Um novo nome para um garoto. (1) Um número para o rei. (1) Um passeio aos oito anos. (1) Um pouco de sujeira para a sorte (1) Um presente para alguém. (1) Uma cabeça na lixeira. (1) Uma capela para o diabo. (1) Uma carona para a morte. (1) Uma estória. (1) Uma noite com o Diabo. (1) Uma noite de chuva para uma mulher com um pouco de sorte. (1) uma noite feita de muita carniça. (1) Uma nova vida. (1) Urubu de velório. (1) Voadores no controle. (1) Voe asas curtas. (1) Willy pancas. (1) À espera de Magali. (1) À espera de um amor. (1)