A via expressa e o açúcar.

O Dick costumava vender pipoca e amendoim no sinal da via expressa. Lembro dele em dias de chuva, em dias de frio, em dias de calor escaldante. Ele usava roupas velhas e limpas como ele. Uma formosura de menino.
Sempre gostei desse garoto, “Hey Blindado, quer um amendoim, uma pipoca?”. Eu comprava sempre que podia, e quando eu não podia, o garoto me dava um. Ele tem oito anos e sempre foi doce como a pipoca e o amendoim que levava para o sinal.
Quando a Dona Sema estava no fim, o médico da rede pública de saúde a mandou para morrer em casa, não havia leito disponível. Eu a vi morder um pano torcido, cheia de dor, enquanto o câncer a corroia e o Dick segurava firme em sua mão. Uma tristeza só.
O Dick deitou no peito dela e eu não tive coragem de dizer nada. Eu sabia que ela merecia um caixão e uma despedida descente. O menino me olhou, “Blindado, ela se foi cara, ela se foi.”.
Eu tinha só uns trocados no bolso, a minha garganta fechou. Logo que meu amor chegou, pedi a ela que cuidasse do menino até eu voltar. Fui para casa e peguei o ferro. Andava socando o chão com o meu coturno grande e pesado.
Subi para a via expressa, acendi um cigarro. Eu sei que nem tudo que é certo é justo, e que nem tudo que é justo é certo. Mas naquele momento a minha honestidade foi para o mesmo lugar onde acabou o meu voto. Meu sangue corria fervente em minhas veias.
O carro que chegava até o sinal era importado. Não tive dúvida. Quebrei o vidro com a coronha. A moça que dirigia estava sozinha. “Passa a grana” ela entregou a bolsa, cheia de notas de cem paus, feita de algum tipo de couro caro, pelo toque eu sabia que não era sintético.
Quando cheguei de volta na casa do Dick, dei a grana para o meu amor, que foi até a funerária e comprou um caixão descente para a Dona Sema, e eu fiquei com o menino. Eu tentava não chorar, não endurecer demais. Queria respirar.
Lembro que choveu muito no final daquele dia. As pessoas iam embora do cemitério, uma a uma e o Dick ali, sem ninguém. Quando todos saíram, ele levantou a cabeça, correu para mim e me abraçou. Solei o meu ouvido no peito dele e ouvi seu coração bom. Isso me fez muito, muito bem.
Eu o peguei pela mão. Chegamos em casa e dividimos uma panela de feijão em três, só feijão. Era tudo que eu tinha, mas naquele momento, era tudo que o Dick não tinha. Ele me olhava de um jeito tão grande e meigo que eu não sei contar.
Fui até a porta e mirei minha criação de codornas. Então a minha esperança acendeu. Revistei os ninhos e encontrei duas dúzias de ovos. Eu os recolhi e os lavei na goteira da calha. Depois os levei até a beira da porta.
Olhei para o lado e vi um monte de lenha ainda por partir. Em silêncio, peguei o machado e comecei a lascar. Meus golpes eram certeiros, fortes, tinha a impressão de me vingar do mundo. Meu braço parecia crescer como fermento de pão.
A minha cabeça pensava tanta coisa e o meu coração estava feliz e ao mesmo tempo apertado como a chuva que não passava. Ainda bem que o inverno é longo e os bacanas têm lareiras enormes que precisam de muitas rachas. Todo mundo gosta de sentir calor num dia frio.
De repente olhei para o lado, porque escutava outro barulho, diferente do machado, desigual de meu coração acelerado, preocupado com o amanhã. Era o meu amor e o Dick recolhendo lenha, molhados como eu e a terra que cobria a Dona Sema. Agora somos três, e tenho mais açúcar.