Devaneios viciados: A tempestade e os ratos que beiram os valos.

O tempo fazia barulho. Olhava pela janela e via o horizonte escuro. As árvores balançavam com muita força. Eu tinha a impressão de que o demônio roncava, e ao tempo em que os pingos batiam na vidraça trincada, o rádio tocava um blues antigo, desses que fazem com que você se sinta numa lavoura de algodão. Eu nutria uma melancolia, uma agonia, uma loucura, como se viajasse num navio de cristal em meio aquela tempestade e um pouco de ópio que matava minha fome e minha dor estomacal. A energia esparramada no céu era tão grande que ecoava em meu âmago.
Enquanto cambaleava torto em sonhos, um pneu flutuava ladeira abaixo; arrastado pela água que encharcava meus monstros de viciado. As latinhas chegavam aos montes, rodeadas pelos pedaços de papelão, embalagens plásticas de todo o tipo, e sem falar nos móveis escangalhados que encalhavam em minha porta.
Eu não me importava nem mesmo com a água que entrava. “Quando o céu secar, eu cuido disso.”, resmungava, entre um gole de cana e outro, que acompanhavam meu crivo, meus doces. Doce, é assim que chamo minhas bolas, o único açúcar que conheço. O barbitúrico, o ópio, o álcool, o tabaco vagabundo, as prostitutas viciadas em pedra e o infortúnio me mantêm por entre esse mundo de cacos que me cerca e me afoga devagar.
Sentado, cabeça longe, ouvia e via a vizinhança criar um estardalhaço, enquanto tentavam salvar seus restos. Mesmo assim, eu não esboçava nenhuma reação, eu não salvo nem a mim, nem aos outros, não tenho essa vocação. Olho a minha volta e não sei o motivo que os mantém de pé; eles me parecem como ratos, tentando salvar pedaços de quinquilharias tão destroçadas como essa cidade sem sorte e os desdentados que se aninham por esses becos úmidos e pútridos.
Queimei meu dedo com a brasa do crivo, notei, mas não chorei. Sou um roedor anestesiado, acostumado com a dor dos desgraçados, uma queimadura a mais, não fazia diferença em meu inferno. Então, aquela batida aconteceu, deu um barulho tremendo. Naquele instante, lembrei de quando a polícia arrombou minha porta e me jogou por entre aquelas grades que alijam animais sujos e sem princípios como eu.
Abri e não vi ninguém, nenhuma farda, colete, nada, só a tempestade a me encantar e inebriar meus pensamentos, mas quando mirei o chão, tive de rir. O cadáver estava em estado de decomposição bem avançado. Não sabia quem era; como havia morrido. Quando chove, é assim, as tempestades trazem de volta aqueles que já estão nas profundesas do valo, que rodeado pelo matagal, guarda tudo e todos daqui. Um depósito de sujeira, sêmen e violência.
Tomei um gole, engoli duas bolas, a água passava de um palmo de altura e invadia a casa inteira com mais volume que antes e empurrou o morto para o centro de minha sala. Sentei ao sofá rasgado, molhado, não sabia o que fazer, eu não tinha nada, além de meu corpo para dar aquele cadáver. Alguém gritou lá de fora, “Precisa de mim?”, era um homem-rato. Eu não respondi, apenas sorri amarelo, depois vomitei, ao tempo em que ele se foi sem resposta.
Olhava aquele peludo indo embora, com suas costas carregadas feito mula, era uma coisa impressionante, a obstinação daqueles infelizes. Eu não sentia motivo algum para partir, ratos como eu, acabam sempre na beira dos valos, na miséria, e com sorte morrem loucos, atolados de merda até a garganta.