Um presente para alguém.

De volta. Subia a lomba numa chuva danada enquanto recordava meus últimos dias e pensava neles, pensava em muita coisa, misturava os tempos, presente, passado, futuro. Minha boca estava amarga. Por causa dos dias que passei longe do meu barraco, no interior. Foram cinco dias comendo sanduíche de mortadela.
Fazia tempo que não ia até a capital. Um lugar grande, cheio de gente, que traz um turbilhão para dentro de mim. Lá eu passei boa parte da minha vida. Senti fome, ganhei amigos, perdi algumas batalhas e puxei uma cadeia comprida, 157. Fiz questão de passar em frente do Central. Estranho, dessa vez eu não chorei olhando aquelas muralhas. Saca, de tempos em tempos você precisa rever os seus passos e relembrar quem você é, ou foi, não sei dizer.
A viagem não foi inspirada em bons motivos, em memórias legais para que eu pudesse revivê-las. Quem me levou para a capital foi o Dick, meu menino, como o chamo. Quando vi meu amor no hospital, dei-lhe um adeus e pedi que se cuidasse se pudesse. Que não saísse de perto do Dick. Passei uns trocados a ela e tive de partir.
Cara, eu queria trocar de lugar com ele. Sei que ele ainda sorri naquela cama, e peço que ele nunca feche a cara. Deixei aquele quarto cheio de desenhos, todos feitos lá. Foi como a gente passou esses cinco dias. Eu desenhava, ele ria, e eu chorava por dentro e sorria por fora. O Dick é adotado cara. Uma sorte e um azar.
Engraçado, lá eu olhava as linhas de ônibus e me lembrava de todos aqueles lugares. Eu sabia onde era a rodoviária, onde ficava a boca, onde se comprava carros por preço de banana, onde as putas abriam as pernas. Eu sabia tudo. Eu só não sabia onde encontrar uma medula para ele.
E eu ali, subindo a lomba, de volta a minha vila de agora. As pessoas me paravam e perguntavam, “Blindado, como está o seu garoto?”; outros diziam, “Blindado, meu velho, a gente fez um exame cara, queremos ajudar o Dick.”. Eu agradecia e chorava. É uma pena. Na capital, os meus queridos estavam mortos, presos. Loucura, coisa de cão doido. Eles não podiam fazer um teste. Não era para ser assim, nem no passado, nem hoje, nem aqui no interior, nem na capital.
Quando cheguei em casa, encontrei os ovos das codornas lavados e embalados. A lenha estava seca, bem guardada e as mulas que puxam a carroça, bem alimentadas. Elas estavam com saudade. Eu também. Olhei nas prateleiras e vi os doces do Dick. Comi um de amendoim. Chorei.
Amanhã, vou entregar a lenha para as cooperativas que secam soja, milho, trigo, essas coisas que eu pensava que vinham em caixinhas como as de leite. São eles e os restaurantes finos que compram os ovos das minhas codornas e me ajudam a ganhar a vida.
É uma pena que antes mesmo de colocar o pé em casa, tenha cruzado por pessoas com fome, viciados e mortos. O abandono é igual em qualquer parte. A gente anda vendo morte, enquanto deseja encontrar vida em qualquer canto. Se eu pudesse fazer algo por alguém, eu faria. O meu exame saiu, e espero que a minha medula ajude alguém, do mesmo jeito que espero que a medula de alguém ajude o meu Dick. Que deixe o sorriso nos olhos dele, e que não faça o meu amor chorar.
Quando penso que fiquei em casa tanto tempo, sem nunca pensar nisso, sinto raiva de mim. Eu não sou bom, cara, eu sei disso. Se eu fosse, teria dado esse presente para alguém, antes de precisar de uma caixa com ele lá dentro, saca? Eu quero brincar de Deus, e mudar o que errei.
Eu mataria por uma medula. Eu peço, “Encontre uma medula para o Dick, e eu faço o serviço por você.”.