Cagado.

Eu tinha muitas idas e vindas. Não me importava mais com isso. Fazia uma semana que havia deixado a clínica e já estava numa festinha junkie. Os pais da Lu saíram de férias e a gente tinha uma bela casa para esquentar o final de semana.
Bebia com o Beto e fumava um baseado para baixar a pressão. Foi quando chegou a Lu, “E aí, Z, como vai tudo?”, e me agarrou e me chupou a orelha. Ela sempre foi quente. Na minha turma todo mundo trepou com todo mundo. Eu e ela já fodemos mais que os nossos pais, mas nunca namoramos, nem trocamos juras de amor.
Aos poucos a galera deu o fora. Sobramos, Lu, eu e o Beto. Fazia um tempo que não encontrava com eles. Entre o período de internação, mais os seis meses que o Beto viajou de carona por aí, e os sumiços da Lu, somava quase um ano. O tempo voa. Sou louco demais eu acho, ou talvez o tempo realmente corra mais depressa para mim.
Estava por fora das piadas, dos acontecimentos e dos jogos malucos da Lu. A danada sempre foi do tipo que inventava doideiras para se divertir com o pessoal. Naquela noite, ela queria jogar um tal de Cagado, sua mais nova invenção. Eles diziam, “Cara, é sensacional esse jogo.”.
Ela colocou uma bala no 38 que era do seu pai. Fechou os olhos e contou até doze. Caiu no Beto, apontou para ele e serviu duas doses de uísque. Os dois falaram juntos, “Uma para ter coragem e outra para não errar.”. Depois disso, ela perguntou, “Qual é a cor da minha tanga?”, e riu; “Vermelha.”, disse o Beto. E a Lu atirou, bem no meio da cara dele. Foi uma loucura, eu pirei, “Hey, que merda é essa!”, eu queria levar o Beto para o hospital, mas aí, a Lu apontou a arma para mim e disse, “Senta, cagado.”.
Ela serviu as duas doses, falamos juntos, “Uma para ter coragem e outra para não errar.”. Bebemos num gole só, como tinha de ser. A Lu apontou aquele cano para a minha cara. Eu olhava para o canal por onde a bala sai e pensava, “Cagado.”. Ela perguntou, “Quem é o meu amor?”. Eu tremia, e a Lu contava até doze, mais uma vez, era o tempo que eu tinha para responder. Enrolei a língua, não sei, eu travei. Não abri a boca. Quando ela apertou o gatilho, gritei. A arma estava descarregada. Ela começou a rir, enquanto dizia, “Calma Z, eu não mataria o meu amor.”.
Aproveitei e dei o fora. A Lu estava maluca, maluca demais.