Paloma e o pombo.

Ele voava. O cinzeiro encheu, em meio a uma agonia flutuante. Ela, ali, ao lado da porta grande, rodeada de roupas, jornais, livros e revistas. Havia um bando de retratos e vinis pendurados na parede branca com bolinhas negras.
Alguns segundos, outro cigarro. O ambiente turvou. Suas pernas eram finas e tortas, acompanhadas de seios magros como a vida de hoje em dia. Descabelada, mostrava um beiço derrubado até o queixo.
Suas meias arrastão chegavam perto de suas virilhas. Carregava uma cara borrada, lacrimejada aos soluços. Bebia sempre que mandava a nicotina e o alcatrão para o ar. O modo como largou seu corpo na poltrona mostrava seu transtorno, sua paranóia.
Voltou até a porta que dava para a sacada e baforou um rolo de fumaça tempestuoso de escurecer até as nuvens. Gélida em seus movimentos, ela permaneceu encarando o pombo repousado no varão de ferro. Ele balançava a cabeça com um jeito idiota e natural. A presença da moça fez com que o danado voasse em instantes.
A jovem recuou, sentou-se no chão, entre a mesa de centro, a poltrona e o abajur. Continuava fumando um no filtro do outro. Suas unhas vermelhas prole combinavam com o tom que cobria seus lábios surrados durante a noite anterior.
Inquieta, levantou-se e foi até o telefone. Assim que o pegou, devolveu o aparelho para o gancho. Mais cigarro. Passava suas mãos no rosto e piorava o que já era horrível.
Como uma barata tonta, tentou subir na guarda de ferro que rodeava a pequena e medieval sacada. Coitada, a miserável não pôde e caiu para dentro. Grudou-se ali, mais uma vez, com tudo, ela usava suas duas mãos. Tremelica, passou sua perna direita para o lado de fora, apertando a proteção como se fosse jóquei. Até que rolou o corpo.
Na queda livre, rasgava o tempo enquanto a gravidade sugava sua carcaça com mais velocidade a cada metro, a cada centímetro. Não demorou muito e Paloma se foi, numa pancada cheia de sangue. Ao tempo em que o pombo, ainda deslizava lá em cima, no alto do céu.