Batente – A benção dos ovos e o milagre do machado.

Abri a janela e acompanhei a fumaça do café em choque com o ar lá de fora. Ainda bem que o inverno fica mais perto a cada dia. Pensei, como pode o frio ser aliado de um homem que procura manter o coração quente? Sorri; aquele monte de lenha bruta lá no pátio era grana, e se era grana era comida, agasalho, milho para as mulas, chocolate para o meu bem e o material escolar do Dick. Dei um gole grande e baforei o cigarro, que misturado ao resíduo do pão caseiro e a manteiga, me fez feliz. Comer é uma das melhores coisas do mundo.
Larguei a xícara na mesa, e decidi deixar meus dois tesouros dormindo, porque os dois são bem mais jovens do que eu e têm uma vida inteira para se foder. Coloquei meu moletom e catei o machado atrás da porta. Quando abri, o minuano entrou como se tomasse conta de tudo. Fechei rápido. Olhei para o céu e vi uma neblina escura – dessas grossas e pesadas que, por entre as nuvens, dá trabalho ao sol – que só rola aqui no pé da serra vacariana. Acho incrível como as coisas mudam. Dias atrás, ainda sentia o cheiro das uvas que descia lá de Caxias, Farroupilha, Garibaldi, Bento.
Logo que pisei a terra, senti meu chinelo de tiras com vergonha, por causa da sua fragilidade em defender minha pele nessa época. Embora esteja com o calcanhar rachado, fico feliz porque consegui comprar um tênis bacana para o Dick e sei que seus dedos estão quentes. Quando pensei nisso, o frio de meus pés sumiu. Sorri de novo, porque sabia que era o calor que vinha de meu coração que esquentava os meus pés. As lágrimas correram pela minha face, e cruzaram por cima de meu nariz até se aninhar em minha barba crescida. Sem desculpa, dei o primeiro golpe. A lenha partiu. E mais um, e outro e mais um, e mais outro. Quando a neblina foi embora, e o sol saiu de trás da serra tapada pelo cinza, uma nova carga de lenha estava pronta. Sentei e acendi um cigarro para recuperar o fôlego. Foi quando ouvi um motor diesel que roncava em frente de casa. Fui até lá com o machado na mão. Eram as minhas matrizes, as novas codornas, e os ovos de codorna são uma benção aqui em casa. Fiquei feliz. “Como vai, Jibão?”, “Bom dia, Blindado.”, “Jibão, não tenho a grana para pagar as codornas, tive de comprar comida e ainda tenho de ver o material escolar do Dick.”, “Não se preocupe com isso, Blindado, trocamos por lenha.” Logo que acomodei as codornas nas gaiolas e enchi os cochos, carreguei a lenha para o Jibão. Ele se foi acenando contente. E eu, eu voltei ao batente.
O monte de lenha picada crescia e crescia mais e mais, como se houvesse um fermento que o fazia inchar para o céu. O frio ia embora de meu corpo velozmente, sentia o suor aumentar e correr pelas minhas costas. Nem mesmo o minuano me fazia tremer, ou arrepiar a minha pele surrada. Não demorou muito e o moletom e a minha camisa foram parar no galho da laranjeira. Eu me sentia bem, grande. E pensar que o machado que matou um homem e me mandou para a cadeia 10 anos atrás, agora me mantém livre, feliz, quente. Enquanto limpava o suor de minha testa, rezava para que conseguisse comprar tudo o que faltava e que ainda sobrasse um trocado para consertar a sola rachada do meu velho coturno. E sem dó, as pancadas continuavam; uma seguida da outra, num compasso ritmado como os tambores do samba, que ainda gritavam lá da zona sul da cidade enquanto as pessoas se divertiam. A cor do eucalipto cerejeira que eu partia era vermelho, como o meu sangue, como o meu time de coração. Gostava de ver as vergas que se desenhavam ao fio do meu machado enquanto golpeava o meu sustento e agradecia pelo meu trabalho.
Pensava na grana que devia arranjar para comprar o milho das mulas. Sabia que tinha de correr e encontrar um agricultor disposto a me vender com prazo. Nesse caso, eles não precisam de lenha, mas quem sabe necessitem de ajuda para colher a nova safra. Acho que esse ano o milho será de ótima qualidade, porque as chuvas foram boas e os grãos certamente tiveram uma boa formação e estão mais nutritivos que nunca. Eu careço muito de minhas mulas, e agradeço a elas com milho, sal, uma boa cocheira e muito cuidado.
Acho que um homem como eu, que já pagou um 157 e um 121, está se saindo muito bem, tudo por causa do batente. Lembrei inclusive de meu falecido pai, que sempre dizia, “Ei, Blindado, tem de golpear a lenha com força, precisa fazer eco lá em Vacaria, é o único jeito de a sua vida render.” Ele tinha razão, ainda bem.
Peço que Deus me ajude e que a minha pobreza material se torne força e me mantenha longe das coisas erradas que já me fizeram tão mal. Roubar, coisa pouco ortodoxa, que jamais gostaria de repetir. Se pudesse escolher um milagre, queria que o divino transformasse o meu machado em uma ferramenta capaz de lascar mais lenha que cem lenheiros juntos, e que ele jamais vá de encontro à cabeça de alguém, como já foi um dia.