Sete dias.

A fumaça turvava o ambiente. O garçom de longe, escorado no balcão bebia o seu conhaque. Eu apreciava um charuto, ela preferia o cigarro. Estava visivelmente nervosa, mantinha seus cotovelos apoiados na mesa e juntava as mãos com o crivo entre seus dedos turbulentos. Seus cabelos longos caíam pelos ombros e escorriam pelo seu colo, até tapar seus seios completamente. Ela mais batia a cinza do que fumava. Eu tentava levar as coisas no meu tempo, falava somente quando percebia que não havia ninguém por perto ou de olho na gente. Tenho experiência no ramo. Entre uma brecha e outra, ela me dizia, “Eu tenho as fotos; veja, essa é a amante.”, eu apenas fiz um sinal de positivo. “Então, fará o serviço?”, perguntou-me. Novamente concordei com a cabeça. Eu raramente falo nessas horas.
Ela foi. Eu fiquei. Pedi mais uma dose de gim. Planejava passo a passo, sem a menor pressa. Havia dito a ela que faria na melhor oportunidade, no entanto, avisei-lhe de que não levaria mais do que sete dias para que o desgraçado fosse liquidado. Ela não me exigiu nenhum tipo específico de aniquilação, por causa do preço. Deu-me o pagamento via correio e adiantado, como sempre peço para que os clientes façam. Havia recebido a carta com o valor, no dia anterior. É o meu método, entende? Sequei o copo num gole grande e chamei ao garçom para que me servisse uma cerveja e incluísse o preço do casco.
Cheguei e pendurei a foto do cara com a amante no meu varal, como não lavo roupas em casa, tinha de dar uma utilidade para ele. É uma espécie de agenda, se é que você me entende. Fui para a cama. Deixei apenas o abajur ligado, acendi mais um charuto e arredei a cortina para ver os pingos na luz do poste da rua. Gosto de fazer isso, um homem solitário como eu precisa se distrair com freqüência, e coisas bobas como pingos de chuva são uma ótima alternativa. Coloquei o cinzeiro no parapeito da janela e ali eu fiquei até terminar o charuto. Pensava na maneira como faria. Tinha de ser quando ele estivesse sozinho, ou ao menos, precisava poupar sua amante. Matar a amante é algo precipitado, por que automaticamente levanta a suspeita de crime passional. Eu não podia colocar a minha cliente em risco.
No dia seguinte, fui até o tal posto de gasolina que sua esposa me disse que eu o encontraria, “Ele vive lá, ela é a caixa.”. Quando cheguei, ele ainda não havia dado as caras, mas ela já trabalhava. Fiquei ali um tempão, acompanhando as coisas. Sentei num banco do outro lado da rua e me fiz de desocupado. Não demorou muito e o cachorro chegou, cheio de charme, falando com todo mundo, mexendo no seu cabelo, fazendo pinta com seus óculos escuros. Era o tipo, meninão fora de questão. Em pouco tempo ele estava de pé, no caixa, cheio de intimidades com ela. 1h00 depois, os dois saíram juntos e foram até um motel de quinta categoria. Saíram de lá, já era tarde, quase 23h00 da noite. Comi dois sanduiches e matei quatro ou cinco charutos durante a minha campana, dentro da caranga, ouvindo som dos anos 60. Depois ele a deixou em casa.
Assim eu passei seis dias, sem fazer nenhum contato com a minha cliente e sem despertar suspeitas. Segui aquele verme e a sua amante sem pestanejar, eles não fugiram de mim um só minuto. Eu sabia que o sétimo dia era perfeito. O bonitão faria academia no final do dia. Ele corria até lá. Chegava suado, com os braços de fora, e aproveitava-se da situação para expor-se ao maior número de mulheres possível. O cara era tão galinha que podia viver de milho e mais nada.
Estava na frente da casa do bonitão. Vi quando minha cliente saiu para lecionar. Não demorou muito e o filho de uma mãe saiu. Usava uma camiseta branca, regata, calção preto e tênis. Gente, ele se achava, nunca vi um cara tão vaidoso, acho que ele poderia comer qualquer coisa que se mexesse, desde que ouvisse um elogio. Enquanto ele corria com aquele estilo Balboa, eu o acompanhava de longe com o meu Cupê preto. Levantei a garrafa de cerveja, cheia de gasolina, tampada com aquela maçaroca de pano. Logo que toquei o molotov, lembrei-me da amante, “Obrigado, e tenha um bom dia.”, foi ela quem me vendeu a gasolina, que ironia. Não acha? Aproximei-me dele quando o desgraçado parou na esquina para olhar para a bunda de uma dessas meninas gostosas que também corria. Cretino, pensei, e na mesma hora, parei o carro aproveitando os seus minutos de distração, grudei o fogo e lancei sobre ele. O bagulho explodiu na calçada e eu arranquei com o carro. Fiquei olhando ele se debater pelo retrovisor até eu sumir pela rua. Foi uma morte feia, muito merecida.