O bar estava cheio. “Como vai?”, ela me disse. “Vou bem.”, e me calei. “Ainda chateado comigo?” A gente não tinha nada que conversar. A escolha havia sido feita. Ela contou as estrelas em nossas fardas e me trocou pelo general. Eu consigo entender isso, mas não alcanço compreender porque ela não dá o fora de uma vez por todas. Ela faz um joguinho, sei que ela pensa em mim enquanto fode com ele, mas é claro que como a boa vadia que é, prefere a vida de dondoca que o general pode dar a ela. “Cara: vamos conversar?”, ela insistiu. “Não tenho nada para conversar.”, falei. Antes de sair pela porta, olhei para trás e ela estava lá, parada, no mesmo lugar onde falamos, olhava pra mim, como quem não acreditava no fora que levou. Fiz uma força tremenda, mas consegui resistir àqueles peitos perfeitos e me mandei.
Cheguei ao quartel, os que estavam de serviço; fumavam cigarro na guarita. “Como vai, sargento Tel?”, pergunto-me o Clipe. “Tudo certo.”, foi como respondi. “Quer um cigarro, sargento?”, disse o outro. Fiz um gesto positivo com o queixo e estendi a mão. Os novatos são assim, eles puxão o saco da gente o tempo inteiro. Enquanto o cigarro viajava, eu tentava firmar o olhar para não deixá-lo cair, eu estava numa bebedeira sem fim. Agarrei-o. Acendi com vontade e larguei uma fumaça estremecida no ar. Deixei um sinal de positivo com a mão e fui para o meu alojamento individual. Como eu disse, não sou de muita conversa e não estava a fim de papo com eles, queria mesmo ir para a minha cama. Abri a porta, tirei os coturnos e a farda. Deitei só de cueca. Peguei o uísque ao lado da cama e grudei um gole. Gosto de cowboy, e você? Então a piranha veio na minha mente. A Mole, não merecia meus pensamentos, mas de alguma forma, pensava nela mesmo sem querer pensar. Não sei explicar o que sentia exatamente, mas em todo caso, era uma mistura de rejeição, desejo e confusão. Pra ser sincero, sinto isso até hoje. E ali eu fiquei bebendo e revivendo recordações desgraçadas que só me faziam beber mais e sentir vontade de mandar uma bala no meio da cara dela.
Acordei pela manhã, com um gosto horrível na boca. Fui para o refeitório. Sentei sozinho, não queria ficar de conversa. O sanduíche de queijo, manteiga e mortadela fez um fundo no meu estômago e me ajudou a acender o primeiro cigarro sem aquela queimação ferrenha, herança daquele uísque de quinta e a bebedeira da noite anterior. Eu bebia café e fumava ao lado da porta, quando chegou o general Rom, o comedor da Mole. Fiquei em posição de continência. “Deixe de lado a forma, sargento.”, disse ele. Eu não gostava desse tipo de coisa, e o merda fazia questão de me tratar bem, como quem fingia não se importar com o que havia acontecido entre eu e ela, como se não percebesse que ela vivia se fazendo pra mim. Ele pode fingir, mas eu sei que ele sabe que não passa de um velhote babaca, que é explorado e dá vida boa para uma moleca que podia ser sua filha. Mas como eu dizia, o general aproveitou o tom informal e me destacou para treinar os novatos.
Cara, isso me deixou louco, mas, para preservar o status entre as patentes, aceitei, disfarçando um ar natural e educado. Eu sabia que essa era a forma que o velhote encontrava para se impor, e me lembrar de nossas patentes o tempo inteiro. Eu tenho pra mim, que era uma maneira sutil de me dizer, “Se der trela a ela, eu fodo você.”. O pior, é que ele fazia questão de enfatizar, cheio de hipocrisia, que só me destacava para esse tipo de treinamento, porque queria transformar os fuzileiros navais em exemplos notáveis de bravura e eficiência. Jogava pra cima de mim aquela conversinha de que eu era o cara certo para transformar babacas em soldados de verdade. Como se qualquer um pudesse ser um sniper como eu. Mas eu não caía na dele, eu podia ver a sua alma se corroendo de ódio por mim. O que o velhote queria era me rebaixar, sim por que, um sniper como eu, deveria ser aproveitado em missões mais importantes que treinar novatos. Cara, eu tenho mais missões que você imagina.
A minha vontade era mandar a hierarquia à puta que pariu e me negar a treinar os novatos. Mas para não criar problemas, tive de me portar subalternamente. Eu tinha dois dias para dar um jeito em um monte de papelada, e depois, chutar a bunda dos novatos. Passei dois dias do cão. E o ruim, era saber que a pior parte, ainda estava por vir. Fedelhos com dezoito anos são um saco. Alguns chegam aqui achando que vão arrebentar, e o resto, treme de medo o tempo inteiro e não consegue nem pronunciar uma palavra em tom claro e firme, os bostas gaguejam até para dizer, “Sim, senhor!”. Eu pensava, vou tirar o coro desses merdas, fazer com que eles chamem pelas suas mães enquanto se mijam como bebês, implorando para irem embora. Eu sabia que tinha de tirar o máximo dos caras, mas no fundo, eu sabia que era errado descontar neles as minhas frustrações. Em todo caso, sei que eles vão me agradecer por isso no futuro, por que o mundo cara, o mundo caga para você, e se acostumar com isso o mais rápido possível é o melhor jeito de suportar a merda que é a vida. Compreende?
Chegou o dia. De cara vi um mirradinho, cheio de espinhas e cabelo cor de fogo. Ele me parecia com vergonha de existir. Naquele momento eu pensei, o que um porcaria desses está fazendo aqui? Fiquei em silêncio por alguns segundos e me dediquei a olhar um a um. Eu tinha de fazer cada moleque daqueles aprender a matar e viver. Que merda! Posso ensinar um novato a atirar, mas não posso me livrar de meus fantasmas assim, na base da bala. Num tiro seco.
Cheguei ao quartel, os que estavam de serviço; fumavam cigarro na guarita. “Como vai, sargento Tel?”, pergunto-me o Clipe. “Tudo certo.”, foi como respondi. “Quer um cigarro, sargento?”, disse o outro. Fiz um gesto positivo com o queixo e estendi a mão. Os novatos são assim, eles puxão o saco da gente o tempo inteiro. Enquanto o cigarro viajava, eu tentava firmar o olhar para não deixá-lo cair, eu estava numa bebedeira sem fim. Agarrei-o. Acendi com vontade e larguei uma fumaça estremecida no ar. Deixei um sinal de positivo com a mão e fui para o meu alojamento individual. Como eu disse, não sou de muita conversa e não estava a fim de papo com eles, queria mesmo ir para a minha cama. Abri a porta, tirei os coturnos e a farda. Deitei só de cueca. Peguei o uísque ao lado da cama e grudei um gole. Gosto de cowboy, e você? Então a piranha veio na minha mente. A Mole, não merecia meus pensamentos, mas de alguma forma, pensava nela mesmo sem querer pensar. Não sei explicar o que sentia exatamente, mas em todo caso, era uma mistura de rejeição, desejo e confusão. Pra ser sincero, sinto isso até hoje. E ali eu fiquei bebendo e revivendo recordações desgraçadas que só me faziam beber mais e sentir vontade de mandar uma bala no meio da cara dela.
Acordei pela manhã, com um gosto horrível na boca. Fui para o refeitório. Sentei sozinho, não queria ficar de conversa. O sanduíche de queijo, manteiga e mortadela fez um fundo no meu estômago e me ajudou a acender o primeiro cigarro sem aquela queimação ferrenha, herança daquele uísque de quinta e a bebedeira da noite anterior. Eu bebia café e fumava ao lado da porta, quando chegou o general Rom, o comedor da Mole. Fiquei em posição de continência. “Deixe de lado a forma, sargento.”, disse ele. Eu não gostava desse tipo de coisa, e o merda fazia questão de me tratar bem, como quem fingia não se importar com o que havia acontecido entre eu e ela, como se não percebesse que ela vivia se fazendo pra mim. Ele pode fingir, mas eu sei que ele sabe que não passa de um velhote babaca, que é explorado e dá vida boa para uma moleca que podia ser sua filha. Mas como eu dizia, o general aproveitou o tom informal e me destacou para treinar os novatos.
Cara, isso me deixou louco, mas, para preservar o status entre as patentes, aceitei, disfarçando um ar natural e educado. Eu sabia que essa era a forma que o velhote encontrava para se impor, e me lembrar de nossas patentes o tempo inteiro. Eu tenho pra mim, que era uma maneira sutil de me dizer, “Se der trela a ela, eu fodo você.”. O pior, é que ele fazia questão de enfatizar, cheio de hipocrisia, que só me destacava para esse tipo de treinamento, porque queria transformar os fuzileiros navais em exemplos notáveis de bravura e eficiência. Jogava pra cima de mim aquela conversinha de que eu era o cara certo para transformar babacas em soldados de verdade. Como se qualquer um pudesse ser um sniper como eu. Mas eu não caía na dele, eu podia ver a sua alma se corroendo de ódio por mim. O que o velhote queria era me rebaixar, sim por que, um sniper como eu, deveria ser aproveitado em missões mais importantes que treinar novatos. Cara, eu tenho mais missões que você imagina.
A minha vontade era mandar a hierarquia à puta que pariu e me negar a treinar os novatos. Mas para não criar problemas, tive de me portar subalternamente. Eu tinha dois dias para dar um jeito em um monte de papelada, e depois, chutar a bunda dos novatos. Passei dois dias do cão. E o ruim, era saber que a pior parte, ainda estava por vir. Fedelhos com dezoito anos são um saco. Alguns chegam aqui achando que vão arrebentar, e o resto, treme de medo o tempo inteiro e não consegue nem pronunciar uma palavra em tom claro e firme, os bostas gaguejam até para dizer, “Sim, senhor!”. Eu pensava, vou tirar o coro desses merdas, fazer com que eles chamem pelas suas mães enquanto se mijam como bebês, implorando para irem embora. Eu sabia que tinha de tirar o máximo dos caras, mas no fundo, eu sabia que era errado descontar neles as minhas frustrações. Em todo caso, sei que eles vão me agradecer por isso no futuro, por que o mundo cara, o mundo caga para você, e se acostumar com isso o mais rápido possível é o melhor jeito de suportar a merda que é a vida. Compreende?
Chegou o dia. De cara vi um mirradinho, cheio de espinhas e cabelo cor de fogo. Ele me parecia com vergonha de existir. Naquele momento eu pensei, o que um porcaria desses está fazendo aqui? Fiquei em silêncio por alguns segundos e me dediquei a olhar um a um. Eu tinha de fazer cada moleque daqueles aprender a matar e viver. Que merda! Posso ensinar um novato a atirar, mas não posso me livrar de meus fantasmas assim, na base da bala. Num tiro seco.