Noite. Eu olhava pela janela, sentado na poltrona ao lado do abajur, ao tempo em que fumava e, imóvel, era engolido por uma meia luz sinistra que me sombreava com uma sensação desconhecida, pesada. Sentia tremores, calafrios. Havia uma garoa fina e espessa como uma cortina, que tomava conta do horizonte negro, macabro, e chamava minha atenção para além da vidraça. Percebia a pitangueira balançar, enquanto que a veneziana entreaberta rangia, e volta e meia batia, me fazendo instável. “O que há?”, dizia eu para mim mesmo.
Segundo a segundo, a minha angústia triplicava. O medo percorria minha nuca, pois estava longe de minha arma e, sem minhas pernas, alcançá-la era bem mais difícil. Eu precisava alcançá-la o mais rápido possível pra me sentir seguro. Rolei as rodas da cadeira até o criado mudo. Peguei a pistola, e por alguns instantes me senti seguro, mas logo aquela desconfiança avassaladora novamente me dominou com sua força. “Quem está aí? Apareça!”, gritei. Fiquei em silêncio por alguns instantes. Tentava ouvir qualquer barulho, e procurava por entre as sombras como quem vistoriava cada canto da casa para se certificar de quem ou o que havia ali.
Lembrei-me de Lúcifer, meu gato preto. Naquele instante, atribuí a ele a responsabilidade pelo medo que eu sentia. E na busca da tranqüilidade, falei comigo mais uma vez, “Claro, é o meu pequeno, só pode ser”. Fui atrás dele. “Venha Lúcifer, meu amor”, foi como eu o chamei. Silêncio. Algum tempo depois eu ouvi as suas pegadas, vindas da cozinha. Logo que o bichano chegou, saltou em minhas pernas. Eu o acariciei. Notei que ele também detectava aquela energia gélida e funesta no ar, mantendo-se constantemente arrepiado. Aí o meu desespero cresceu. Não era engano, imaginação minha, algo acontecia. Mas o quê?, pensava.
Rodei as rodas da cadeira mais uma vez. Seguíamos para o quarto. Quando cheguei até a porta de acesso ao corredor, olhei mais uma vez para a janela e revi a sombra da pitangueira que balançava medonha. Foi quando a porta de correr fechou sem que eu a tocasse. Apavorado, decidi recuar. Fui até o telefone. Queria ligar para a polícia. Logo que o alcancei, percebi que não havia serviço. Nessa altura, Lúcifer mostrava seus dentes, e dobrava sua espinha, pronto para investir. Peguei a Bíblia. Naquele momento, me apeguei a Deus. “O senhor é meu pastor, nada me faltará...” foi o que li. Mas o clima pesava mais a cada instante, e Lúcifer correu para trás do sofá.
Silêncio, apreensão. Pouco depois ouvi passos, e desta vez eu tinha certeza de que não era o Lúcifer. O estampido me lembrava o taco de uma bota. Ao menor sinal, vou atirar; pensei. Passaram-se instantes bem longos, e ninguém surgiu. Mesmo assim os passos continuavam a zunir em meus ouvidos. Busquei refúgio entre a mesa de jantar e um balcão antigo. Não demorou muito e Lúcifer veio ao meu encontro. Ficamos ali, esperávamos pelo pior. Lúcifer mantinha-se nervoso. Eu rezava baixinho. E nessa agonia passamos a noite. Quando o dia raiou: só me restava temer pelo escurecer.
Segundo a segundo, a minha angústia triplicava. O medo percorria minha nuca, pois estava longe de minha arma e, sem minhas pernas, alcançá-la era bem mais difícil. Eu precisava alcançá-la o mais rápido possível pra me sentir seguro. Rolei as rodas da cadeira até o criado mudo. Peguei a pistola, e por alguns instantes me senti seguro, mas logo aquela desconfiança avassaladora novamente me dominou com sua força. “Quem está aí? Apareça!”, gritei. Fiquei em silêncio por alguns instantes. Tentava ouvir qualquer barulho, e procurava por entre as sombras como quem vistoriava cada canto da casa para se certificar de quem ou o que havia ali.
Lembrei-me de Lúcifer, meu gato preto. Naquele instante, atribuí a ele a responsabilidade pelo medo que eu sentia. E na busca da tranqüilidade, falei comigo mais uma vez, “Claro, é o meu pequeno, só pode ser”. Fui atrás dele. “Venha Lúcifer, meu amor”, foi como eu o chamei. Silêncio. Algum tempo depois eu ouvi as suas pegadas, vindas da cozinha. Logo que o bichano chegou, saltou em minhas pernas. Eu o acariciei. Notei que ele também detectava aquela energia gélida e funesta no ar, mantendo-se constantemente arrepiado. Aí o meu desespero cresceu. Não era engano, imaginação minha, algo acontecia. Mas o quê?, pensava.
Rodei as rodas da cadeira mais uma vez. Seguíamos para o quarto. Quando cheguei até a porta de acesso ao corredor, olhei mais uma vez para a janela e revi a sombra da pitangueira que balançava medonha. Foi quando a porta de correr fechou sem que eu a tocasse. Apavorado, decidi recuar. Fui até o telefone. Queria ligar para a polícia. Logo que o alcancei, percebi que não havia serviço. Nessa altura, Lúcifer mostrava seus dentes, e dobrava sua espinha, pronto para investir. Peguei a Bíblia. Naquele momento, me apeguei a Deus. “O senhor é meu pastor, nada me faltará...” foi o que li. Mas o clima pesava mais a cada instante, e Lúcifer correu para trás do sofá.
Silêncio, apreensão. Pouco depois ouvi passos, e desta vez eu tinha certeza de que não era o Lúcifer. O estampido me lembrava o taco de uma bota. Ao menor sinal, vou atirar; pensei. Passaram-se instantes bem longos, e ninguém surgiu. Mesmo assim os passos continuavam a zunir em meus ouvidos. Busquei refúgio entre a mesa de jantar e um balcão antigo. Não demorou muito e Lúcifer veio ao meu encontro. Ficamos ali, esperávamos pelo pior. Lúcifer mantinha-se nervoso. Eu rezava baixinho. E nessa agonia passamos a noite. Quando o dia raiou: só me restava temer pelo escurecer.