Achei bonito o gesto do Dick, ele deu a mão para a menina e a ajudou a saltar a poça de água no meio da rua de terra. Eu acompanhava tudo enquanto fumava na porta de casa e esperava por ele. Chamei meu amor para ver aquela cena, ela abandonou o feijão no fogo e assim que bateu os olhos naqueles dois, me abraçou e me beijou. “Parece que ele veio de você, Blindado.”, foi o que ela me disse. Eu não falei nada, mas eu sabia que aquele elogio era um exagero, uma obra do amor, tão grande quanto o que o Dick havia feito para que a menina não molhasse seu calçado. Aliás, a coisa mais amorosa que fiz em minha vida foi adotar o Dick.
O moleque abriu um grande sorriso quando nos encontrou na porta. Ele disse, “Pai, mãe, essa é a Clara, o meu amor.”. Achei aquilo comovente, puro, limpo. A menina era filha de uma moradora lá do final da rua. A mãe dela era a Marisa, e o seu pai era o Marcelo. Não éramos íntimos, mas aqui na comunidade todo mundo sabe quem é quem. Por sorte, aquele dia o meu amor havia feito um pão de milho espetacular e eu tinha comprado um pouco de manteiga, então a gente conseguiu servir um lanche gostoso aos dois.
Deixei meu anjo cuidando do almoço e fui partir um pouco mais de lenha. Enquanto eu alvejava a madeira com o meu machado, a minha temperatura corporal aumentava e espantava aquela sensação gelada que só o minuano é capaz de fazer. Quase transpirando, tirei meu casaco, e quando me virei para pendurá-lo, vi o Dick gradeando a lenha lascada. “A sua garota é um doce.”, falei. Ele não disse nada, mas mostrou seus dentes como quem sentia um monte de coisas parecidas com as que eu sentia pela minha companheira de tantos anos. Naquele instante, eu tive mais uma prova de que o Dick crescia como um grande homem. Ele é muito melhor que eu. E qual pai não quer que seu filho seja uma boa pessoa?
Assim que terminamos com a lenha passamos para dar uma revista nas codornas. Juntamos dez dúzias de ovos, lavamos e guardamos nas caixas. Entramos em casa e aquele cheiro de feijão tomava conta de toda a cozinha. As minhas tripas roncaram. Acendi um cigarro enquanto esperava. O Dick foi lavar as mãos e o meu amor falou: “Não vai demorar.”. Embora estivesse com fome, eu não tinha pressa e apreciava um gole de pinga ao lado da janela. O Dick sentou ao meu lado, em frente ao fogão à lenha. Pediu uma cuia de mate e ficou ali, me olhando com aqueles olhos grandes. Assim que ele terminou de beber, ajudou a colocar a mesa. Ele se importava com as coisas e procurava colaborar de um jeito que me enchia de orgulho, o amor ao trabalho é uma virtude tão grande como a capacidade de amar direito nesse mundo torto.
O almoço estava maravilhoso. Deixei o Dick e meu amor em casa e fui até a cidade entregar a lenha e os ovos. A carroça estava bem cheia e as ferraduras das mulas faziam com que elas buscassem muita força para subir as lombas, porque a neblina junto da garoa deixava os paralelepípedos da rua mais lisos do que sabão. Fiquei com pena dos animais e desci, para aliviar a viagem. O frio só fazia crescer. Nem mesmo a caminhada dava conta de aquecer meus ossos. Queria chegar logo em casa. Por isso peguei outro caminho para diminuir a distância. Por ali, eu precisava atravessar o campo de futebol nos fundos da rua. Era um terreno baldio, que a gurizada transformou em diversão, ficava ao lado da casa da Clara, a namoradinha do Dick.
Quando cheguei até a frente do barraco do Marcelo, parei para acender um crivo e não pude deixar de ouvir a briga. Eu não sabia que ele batia na mulher e cagava para a filha. Deu para sentir o cheiro do crack que vinha pela sua janela entreaberta. Naquele momento, eu não sabia o que fazer, mas naquele instante, o meu coração passou a berrar, “Desce; porra!”, e eu apeei. Bati na porta. “Vá embora, Blindado.”, reconheci a voz do Marcelo. “Marcelo, o que está havendo aí?”, perguntei. “Isso não é da sua conta.”, ele disse, enquanto colocava a sua cara para fora.
A Marisa aproveitou a distração do marido e correu para fora de casa com a Clara nos braços. As duas estavam muito assustadas. E mais uma vez, eu não sabia o que dizer; o que fazer. Então o Marcelo saltou para fora com uma faca na mão. Eu vi tudo preto em minha frente, e quando voltei a mim, avistei o Marcelo caído no chão, com o meu machado cravado em sua cabeça. Foi quando percebi que o meu braço sangrava muito. Eu havia recebido um golpe de faca. As gotas de sangue caíam como chuva. Em pouco tempo estava cheio de gente na volta. Vi quando meu amor e o Dick corriam em minha direção. Angustiada, minha companheira lavou meu braço ao tempo em que se dividia em atenções, entre eu, a Clara e sua mãe. No impulso, o Dick correu e chutou o corpo do Marcelo, ele sentia muita raiva, que triste.
Não demorou muito e a polícia chegou. Eu senti medo. O cana foi gentil comigo, “Não vou te algemar.”. Eu fiquei um tanto quanto nervoso na delegacia. “Diga a verdade, só.”, observou o delegado. Naquele momento, engoli um caroço, grande como um cadeado que se apossava da minha garganta. Eu pensava na prisão, e essa possibilidade me subtraía, me assassinava. Então eu comecei a falar, “Aquele verme queria matar a mulher e a filha.”.
Quando cheguei, encontrei o Dick e a Clara, abraçados. Ela chorava e ele cuidava dela com todo o seu amor. “Pai, você é um herói.”, “Obrigado, tio.”. Naquele momento eu chorei, chorei muito. Para um homem como eu, que já teve tantos problemas com a lei, ser aliviado daquela forma, é uma benção tão grande como a de um pássaro que recebe o céu de volta. A liberdade me fez feliz como a Marisa, mãe da Clara, que agora via suas asas curtas crescendo e tinha certeza de que voaria de novo.
O moleque abriu um grande sorriso quando nos encontrou na porta. Ele disse, “Pai, mãe, essa é a Clara, o meu amor.”. Achei aquilo comovente, puro, limpo. A menina era filha de uma moradora lá do final da rua. A mãe dela era a Marisa, e o seu pai era o Marcelo. Não éramos íntimos, mas aqui na comunidade todo mundo sabe quem é quem. Por sorte, aquele dia o meu amor havia feito um pão de milho espetacular e eu tinha comprado um pouco de manteiga, então a gente conseguiu servir um lanche gostoso aos dois.
Deixei meu anjo cuidando do almoço e fui partir um pouco mais de lenha. Enquanto eu alvejava a madeira com o meu machado, a minha temperatura corporal aumentava e espantava aquela sensação gelada que só o minuano é capaz de fazer. Quase transpirando, tirei meu casaco, e quando me virei para pendurá-lo, vi o Dick gradeando a lenha lascada. “A sua garota é um doce.”, falei. Ele não disse nada, mas mostrou seus dentes como quem sentia um monte de coisas parecidas com as que eu sentia pela minha companheira de tantos anos. Naquele instante, eu tive mais uma prova de que o Dick crescia como um grande homem. Ele é muito melhor que eu. E qual pai não quer que seu filho seja uma boa pessoa?
Assim que terminamos com a lenha passamos para dar uma revista nas codornas. Juntamos dez dúzias de ovos, lavamos e guardamos nas caixas. Entramos em casa e aquele cheiro de feijão tomava conta de toda a cozinha. As minhas tripas roncaram. Acendi um cigarro enquanto esperava. O Dick foi lavar as mãos e o meu amor falou: “Não vai demorar.”. Embora estivesse com fome, eu não tinha pressa e apreciava um gole de pinga ao lado da janela. O Dick sentou ao meu lado, em frente ao fogão à lenha. Pediu uma cuia de mate e ficou ali, me olhando com aqueles olhos grandes. Assim que ele terminou de beber, ajudou a colocar a mesa. Ele se importava com as coisas e procurava colaborar de um jeito que me enchia de orgulho, o amor ao trabalho é uma virtude tão grande como a capacidade de amar direito nesse mundo torto.
O almoço estava maravilhoso. Deixei o Dick e meu amor em casa e fui até a cidade entregar a lenha e os ovos. A carroça estava bem cheia e as ferraduras das mulas faziam com que elas buscassem muita força para subir as lombas, porque a neblina junto da garoa deixava os paralelepípedos da rua mais lisos do que sabão. Fiquei com pena dos animais e desci, para aliviar a viagem. O frio só fazia crescer. Nem mesmo a caminhada dava conta de aquecer meus ossos. Queria chegar logo em casa. Por isso peguei outro caminho para diminuir a distância. Por ali, eu precisava atravessar o campo de futebol nos fundos da rua. Era um terreno baldio, que a gurizada transformou em diversão, ficava ao lado da casa da Clara, a namoradinha do Dick.
Quando cheguei até a frente do barraco do Marcelo, parei para acender um crivo e não pude deixar de ouvir a briga. Eu não sabia que ele batia na mulher e cagava para a filha. Deu para sentir o cheiro do crack que vinha pela sua janela entreaberta. Naquele momento, eu não sabia o que fazer, mas naquele instante, o meu coração passou a berrar, “Desce; porra!”, e eu apeei. Bati na porta. “Vá embora, Blindado.”, reconheci a voz do Marcelo. “Marcelo, o que está havendo aí?”, perguntei. “Isso não é da sua conta.”, ele disse, enquanto colocava a sua cara para fora.
A Marisa aproveitou a distração do marido e correu para fora de casa com a Clara nos braços. As duas estavam muito assustadas. E mais uma vez, eu não sabia o que dizer; o que fazer. Então o Marcelo saltou para fora com uma faca na mão. Eu vi tudo preto em minha frente, e quando voltei a mim, avistei o Marcelo caído no chão, com o meu machado cravado em sua cabeça. Foi quando percebi que o meu braço sangrava muito. Eu havia recebido um golpe de faca. As gotas de sangue caíam como chuva. Em pouco tempo estava cheio de gente na volta. Vi quando meu amor e o Dick corriam em minha direção. Angustiada, minha companheira lavou meu braço ao tempo em que se dividia em atenções, entre eu, a Clara e sua mãe. No impulso, o Dick correu e chutou o corpo do Marcelo, ele sentia muita raiva, que triste.
Não demorou muito e a polícia chegou. Eu senti medo. O cana foi gentil comigo, “Não vou te algemar.”. Eu fiquei um tanto quanto nervoso na delegacia. “Diga a verdade, só.”, observou o delegado. Naquele momento, engoli um caroço, grande como um cadeado que se apossava da minha garganta. Eu pensava na prisão, e essa possibilidade me subtraía, me assassinava. Então eu comecei a falar, “Aquele verme queria matar a mulher e a filha.”.
Quando cheguei, encontrei o Dick e a Clara, abraçados. Ela chorava e ele cuidava dela com todo o seu amor. “Pai, você é um herói.”, “Obrigado, tio.”. Naquele momento eu chorei, chorei muito. Para um homem como eu, que já teve tantos problemas com a lei, ser aliviado daquela forma, é uma benção tão grande como a de um pássaro que recebe o céu de volta. A liberdade me fez feliz como a Marisa, mãe da Clara, que agora via suas asas curtas crescendo e tinha certeza de que voaria de novo.