Um pouco de sujeira para a sorte, a morte, o Charle e eu.

Foi uma sorte. A morte do velho Charle me rendeu a sua espelunca. Eu nunca havia pensado em ter um boteco sujo para desalmados feito eu. Jamais imaginei que ele falasse a verdade naquelas horas. Achava que ele queria que eu o comesse e pronto. O coitado passou a ter prazer de outro jeito desde que a sua próstata o deixou brocha e amargo. Ele era um tanto rabugento, mas foi generoso comigo. Aproveitei-me dele o quanto pude, eu precisava beber e comer de vez enquanto, e sinceramente, um delinqüente da literatura como eu, que tem uma boca suja como a minha, não tem condições nem mesmo de beber ou comer. Porque as moedas que junto com meus textos sempre valeram menos do que o meu pau. Quando fui jovem, descolava mulheres carentes e sozinhas. Mas depois que minha barba e meu cabelo ficaram brancos, a minha barriga também cresceu; o meu saco espichou e o meu pau também caiu de produção. Então elas me abandonaram. Ao menos o velho Charle gostava do meu corpo e do meu sexo.
Quando o encontrei, ele já fedia junto dos litros de cachaça, cheio de moscas lambendo a sua carne fria. Fazia dias que eu não o via. E naquela manhã, eu precisava de um copo de rum e um pastel gorduroso para enganar o meu pulso falho e as minhas tripas doentes de fome. Eu queria beber e comer, e não imaginei encontrar o velho Charle desse jeito. Depois que o vi, fiquei sem ação por um tempo, mas algo acendeu dentro de mim e eu ao menos o lavei, troquei-o de roupas e o encomendei para debaixo da terra, como devia. Não nego que assim que despachei o cadáver tratei de arranjar um maçarico para abrir o seu cofre. Eu tinha de fazer isso, porque eu esperava encontrar algum dinheiro. Mas quando dei de cara com aquele amontoado de notas e o testamento, reconheço que fiquei engasgado. Afinal, nem mesmo a minha mãe importou-se comigo e deixou-me naquele orfanato imundo a mercê daqueles padres infames e depravados, que me obrigavam a entregar-lhes meu membro ereto para que o chupassem até a exaustão. Ao menos o Charle e eu nunca pregamos um sermão enfatizando o certo e o errado. Somos tortos desde o nascer, mas somos honestos, mesmo que tenhamos passado todas as nossas vidas entregues a todo o tipo de sacanagem e contravenção. Não nego que tenho pequenos furtos em minha ficha, e uma passagem por tráfico, mas como disse, eu sempre soube quem era e nunca menti sobre mim, e o velho Charle também. E a única certeza que tenho em minha vida, é que um homem precisa de coragem para se conhecer e se assumir como ele realmente é.
Hoje tenho onde dormir, onde beber e ainda ganho uns trocados, além de estar livre do aluguel por todo o sempre. Ao menos agora, posso ficar tranqüilo aqui em Havana, porque como comerciante, se é que posso me dizer assim, não terei mais de me preocupar com a deportação. Posso ficar aqui, entre esses prédios demolidos que a pobreza transformou em cortiços para todo o tipo de animais. Sim, os desalmados como eu são como répteis, vagabundos relaxados ao sol enquanto aquecemos nosso sangue em busca de um pouco de vontade, nem que seja para andar duas ou três quadras em busca de um pouco de rum ou alguns ovos para enganar o estômago.
Esse casarão é imenso, e pelo que vi na escritura foi herança de família. Essa semana, falei com algumas mulatas sem vergonha e acertei com elas um trabalho. Eu as deixarei morar nos infinitos quartos espalhados por esses três andares em troca de cinqüenta por cento de tudo que elas faturarem com seus corpos. Pode não ser um negócio bem visto, mas ao menos é rentável. Não temo repreensões celestiais porque vivo como um demônio por entre dragões sujos e mesquinhos como a maioria dos santos e beatos. E nem mesmo me importa que me chamem de Judas, ou de qualquer coisa que julguem pesada o suficiente para designar um réptil faminto e sujo como eu. Eu sou alguém que se conhece por dentro, e posso dizer que sexo, bebidas e dinheiro me interessam sempre. Desde que isso chegue até mim, pelo caminho mais sujo e desafortunado possível. Afinal de contas, um ser como eu, precisa apodrecer por entre a sujeira e os répteis, antes mesmo de morrer.