Uma cabeça na lixeira.


Acendi um cigarro e continuei na janela, protegido pela escuridão da noite. Ela também fumava, e quando soltava fumaça, parecia que seu nariz era uma turbina de avião. Notei que ela olhava de um lado para o outro e que carregava uma mochila. Ela era bonita e estava descalça, e isso me pareceu bem romântico. Vidrei nela, como quem procurava desvendar o seu corpo e a sua alma.
Fiquei excitado. Senti que o meu pau levantou latejando enfurecidamente. Em torpor, pensei loucuras com ela. Contagiado por essas idéias: saí das sombras e fui até a sacada. Assim que apareci, ela percebeu a minha presença, e ficou ali, sentada, me olhando. Pensei, Ela está dando mole.
Dei um gole no uísque, e movimentei o copo de um lado para o outro, fiz círculos com ele em minha mão, queria mostrar a ela que havia um homem bebendo ali. Eu tinha a inocente esperança de que ela notasse o barulho dos cubos de gelo atritando-se com as paredes do copo e se sentisse atraída. Por mim, pela bebida, pela oportunidade.
Não demorou e ela atravessou a rua. Pensei, Deu certo! Assim que ela chegou ao passeio, algo chamou minha atenção: o seu vestido estava manchado de vermelho, bem na altura de seus seios. Pensei, Ela está ferida, e aproximei-me da proteção da mureta para ver melhor.
Ela tirou seu cabelo do rosto, então eu percebi que ela estava suja de sangue em toda a sua linda face. “Precisa de ajuda?”. Ela não respondeu e permaneceu ali, parada, me olhando. “O que houve?”, perguntei mais uma vez. Foi quando ela deu um passo para trás, e revelou-me uma faca coberta de sangue em suas mãos. Eu fiquei petrificado. Então ela me pediu, “Posso subir?”.
Com medo, tranquei tudo. Depois peguei minha arma. Fiquei imóvel por alguns segundos, sem saber o que fazer. Corri na janela novamente, e não a vi. Pensei, ela vai forçar a minha porta. Tentei o telefone, estava mudo. “Tempo maldito.”, falei. Pensei, Tenho de impedi-la. Respirei fundo, desci e fiquei no breu do corredor, protegido pela porta que dava acesso até a rua. Dei uma vasculhada nas redondezas e mais uma vez não a encontrei. Pensei, Ela está de tocaia, e espera por mim. Pensei de novo, Será que ela é um demônio a me procurar?
Passou-se um tempo, e quando enfrentei o meu pavor, abri a porta e cheguei até o passeio. A chuva era fina e forte. Os pingos escorriam pela minha face e eu tremia de medo e de frio. Quando olhei para o lado, tive uma surpresa, havia uma cabeça de homem na lixeira. Era jovem, moreno, e vertia sangue em seus orifícios. “Deus pai.”, falei, e depressa fiz o sinal da cruz. Fixei nele o meu olhar, e o horror que vi nos olhos dele, não era maior do que aquele que percorria o meu corpo e disparava o meu coração.