Desde que comecei a anotar as coisas, percebo que fico mais calmo e tem
vezes que me lembro de coisas boas como o algodão doce que comi com a Leila. Estou
me esforçando o mais que posso para me recuperar da minha neurose de guerra –
acho que ainda sou um fuzileiro – e escrever me deixa mais ávido e eu consigo
pensar em fingir que tomei os remédios, quando na verdade os joguei na privada.
Primeiro eu os escondo em algum lugar e depois, quando a enfermeira vai embora,
eu os despacho para o esgoto. Mas enfim, hoje eu quero falar do algodão doce e
da Leila, e não do meu tratamento.
Naquele dia ela estava carinhosa e me convidou para
ir até o parque ver o carrossel. Até estranhei, ela raramente fazia essas
coisas. Eu havia chegado do mar, depois de quarenta dias em missão, treinando
novatos. Eu os ensinava a matar e sobreviver, no mar, na terra, no ar. A
marinha é assim, completa, por que você parte em navio e depois chega a qualquer
lugar. Os fuzileiros são os melhores grupos de qualquer força armada nacional,
porque para ser um fuzileiro, você precisa se tornar um soldado completo, e
para ser um sniper como eu, você precisa entender a morte e perder coisas que
você ama. Entende?
A gente havia completado a última expedição que
formou um novo esquadrão de atiradores de elite. Um atirador de elite liquida
com um equipamento de grande alcance e de amplo poder de fogo, basta que você
escolha a posição correta e o calibre certo, você pode arrombar a cabeça do
soldado, ou a blindagem do equipamento operado pelo soldado inimigo. Entende?
Bem, eu cheirava a mar, a peixe, a bosta, a mofo de porão de navio e a sovaco.
Tinha a impressão de que a minha farda poderia andar sozinha de tanta sujeira e
suor. Nesse tempo, a minha cabeça até que funcionava bem.
Espero que me desculpe se pareço confuso, mas o fato
é que tenho dificuldade de concentração. O caso é que todos os problemas que
tenho, são decorrentes de uma neurose militar. Entende? Acho que não, mas tudo
bem. Eu sei que não sou mais o que fui, ou quem sabe, ainda seja. Acho até que
ainda sou o tenente da minha divisão, porque ainda não dei baixa e estou aqui,
nessa casa bonita, tão cheia de horror. Pra falar a verdade, isso aqui se confunde
com uma casa e se mistura com uma base e parece uma prisão. É um lugar louco,
afastado. Estou aqui porque sei demais e fiz muito pelo governo. Entende? Eu
tenho saudade do tempo em que tinha uma casa para voltar e uma esposa para
reencontrar. A Leila era o meu porto.
Naquele dia, eu cheguei de surpresa, como sempre, um
fuzileiro nunca sabe quando vai voltar, não exatamente, e a sua família nunca
tem noção da sua missão, nem da sua localização. Essas incertezas acabam com um
amor, acredite. Por que existem romances demais para que a sua mulher leia,
filmes melosos de amores inseparáveis e pessoas idiotas para dizerem bobagens
para quem você ama. Entende? A Leila deixou cair o sorvete de suas mãos quando
me viu abrir a porta. Ela ficou feliz, e correu para me abraçar e me arrastar
para a nossa cama. O parque foi uma idéia dela, e eu, mesmo cansado, dolorido e
morto de sono, concordei em ir.
Ela usava um vestido novo, muito bonito, ela havia
mudado até o seu corte de cabelo, e todos a olhavam passeando comigo. Claro que
eu usava a minha farda. No começo, ela dizia que achava romântico. E eu
acreditava nisso com toda a minha fé. Vê-la a rodar naquele carrossel era a
coisa mais linda do mundo. Comemos pipoca, namoramos a luz do luar e eu me
sentia bem. Quando chegamos em casa, acabamos na cama mais uma vez. Eu tinha
folga de dez dias, e a Leila estava empolgada com a idéia, mas no meio da
noite, o telefone tocou e eu tive de sair em nova missão. Era uma ordem e eu
tinha de cumprir. Antes de sair, deixei um bilhete em cima da mesa da sala, ao
lado do que havia sobrado do algodão doce da noite passada, “Eu tenho de ir,
querida. Até breve. Com amor, sempre.”. É bonito, e é cruel, mas acho que nem
todo o algodão doce do mundo pode adocicar uma decepção como essa.