Sentei
na cama, junto da cabeceira e fiquei ali, olhando a chuva, notando como um
papel sujo e amassado que um dia embolou um chiclete teimava em se agarrar no
canto da janela, entre a parede e a persiana. O tal papel relutava contra o
vento, a chuva e o seu futuro incerto, um futuro tão desconhecido como o meu.
Eu olhava a rua e sentia o frescor daquele ar de subúrbio, com urina de rato,
com sêmen humano e pulgas emboladas em tufos de pelos de cães surrados pela
sarna. Eu via, e sentia a podridão da vida, a morte do amor por entre
aqueles prédios pequenos e carcomidos pelo abandono, o mesmo abandono que
assolava aquele pequeno pedaço de papel teimoso pendurado diante de meus olhos.
Éramos eu, o papel, a chuva e o infortúnio, ali, abraçados.
Segurava
o gelo em meu olho, e ainda sentia dificuldade para respirar, minhas costelas
doíam. Não sei o que era pior, se respirar ou olhar a luta daquele papel. O
papel me mostrava quanta força eu precisava ter para resistir e não morrer.
Esse era o meu plano, não morrer. Entende? Era o meu último cigarro, e eu o fumava
com toda a minha apreciação, naquele instante tenso, assombroso, melódico,
romântico como a poesia dos anos cinqüenta. “Por que estou aqui? Eu posso
apenas sumir.”, falava para mim mesmo. Só que eu era como aquele papel, eu
permanecia ali, lutando contra o vento. Eu sabia que tinha de ir, mas ainda não
era o momento.
Quase
quatro da manhã, só eu em casa e os meus fantasmas ao meu redor. Vi uma sombra
na esquina, “É ele.”, falei. Abri a gaveta e fiquei ali, esperando. Sabia que a
luz que vinha do abajur chamaria a atenção dele e ele não perderia a chance de
chutar a minha porta e me enfrentar mais uma vez. Ele era como um campeão
covarde, que me buscava encorajado na certeza de quem sempre me venceu. Eu
apenas tremia, ainda suspeitando de meu plano, mas era a minha última saída.
A
porta abriu, e ele ligou a luz na sala. Eram os instantes finais para o nosso
encontro. Agora era só esperar pelo chute em minha porta. Eu sentia o meu
coração quase falhar, eu sentia medo, e sentia raiva, eu sentia que era o
momento. Talvez um minuto ou dois, era o tempo que me separava da vida ou da
morte. Engoli a seco a saliva, e senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Era
tão estranho, eu chorava e ao mesmo tempo não tinha a menor chance de
compreender o que rolava dentro de mim. O barulho foi grande e a porta se
partiu, ele estava ali, em pé, diante de mim. A porta no chão, escangalhada. Fiquei
calado. “Venha, está na hora da sua surra, verme.”, ele disse.
Eu
não sei o que ele era. Não imagino de que ele era feito, sei apenas que não era
um pai. Vi que o papel voou para dentro do quarto e pousou no chão, entre eu e
ele. Mirei no meio de seus olhos e disparei. Ele caiu diante de mim. Olhei
firme, chutei sua mão e ele não se moveu, ele já agonizava. Sem pena, disparei
mais cinco vezes até esvaziar o tambor do 38 e boa parte do que carregava em
meu coração. Eu venci, era de novo, só eu e o papel. Juntei aquele pedaço de
papel amolado pela chuva, agora manchado de sangue e o coloquei em meu bolso,
guardei a arma na mochila e saí sem fechar a porta. Era hora de ir.
Cheguei
até a casa da Joana quando já amanhecia. Eu toquei a campainha, mas ninguém
atendeu. “Droga!”. Queria agradecer a ela antes de partir. Coloquei minha mão
na caixa do correio e encontrei o envelope. Abri para conferir, mil paus. Era
muita grana, era a minha garantia. Eu nem sabia ao certo o motivo que levou
Joana a me dar essa grana para que eu pudesse fugir, mas desconfio de que o seu
falecido pai fosse parecido com aquele homem que me batia, ao invés de ser meu
pai. Entende? Coloquei a grana no bolso e saí andando.
Parei
num mercadinho fedorento e comprei um maço de cigarros. Ainda na porta, acendi
mais um. Eu tinha apenas doze anos, mas já fumava e bebia como um adulto. Afinal,
eu tinha de ser adulto, eu já tinha de usar os meus punhos fazia um bom tempo
para me defender, fumar e beber não era nada de extraordinário para um garoto
adulto como eu. Enquanto andava pela calçada descondensada eu olhava pela
última vez para aquelas ruas. Eu não voltaria mais ali, nunca mais.
Parei
na estação de trem, precisava escolher um destino. Mas qual? Subi no vagão de carga sem me importar com o destino e me acomodei por entre os sacos de carvão. Olhava pela fresta da
porta e via a estação sendo engolida pelas colinas. Era o adeus. O momento pelo
qual eu sempre esperei: a liberdade. Agora eu podia ganhar o mundo, e não me
importava o futuro, sabia apenas que daquele homem eu não apanharia mais.
Peguei o papel de chiclete que guardei no meu bolso e o soltei no vento. Ele finalmente
seguia o seu caminho, assim como eu seguia o meu.